sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

TECNOLOGIA DE CONSUMO QUE CONVENCE




Quem esteve na NAB Show há 15 ou 20 anos pode sentir um clima parecido quando entrar na MWC 2019. Está no ar aquela ansiedade diante da certeza de novidades surpreendentes, que chegam para fazer história.

No começo deste século o que a NAB lançava em Las Vegas era a TV Digital. Na MWC, que começa nesta segunda-feira em Barcelona, além de novidades das principais fabricantes de celulares, o 5G entra em ebulição. Vai ser a largada para uma nova era nas tecnologias de consumo e também empresariais.

O 5G, a conexão de 1Gb, com latência menor do que a de um controle remoto, tem tudo para descortinar uma segunda natureza na vida em sociedade. Vai elevar o desempenho e ampliar os horizontes para outras tecnologias transformadoras como IoT (Internet das Coisas), AR (Realidade Aumentada), VR (Realidade Virtual) e AI (Inteligência Artificial). A tendência é de que muitas coisas passem a acontecer automaticamente no nosso cotidiano, de maneira tão natural como a luz que entra no quarto pela manhã quando você abre a janela. Sistemas estarão atentos à qualquer presença, que será identificada individualmente para demandar recursos. Exagerando, lembra o ar que a gente respira, sem se dar conta daquela onipresença vital que nos envolve.

É o que a Mobile World Congress chama de “Conectividade Inteligente”. Uma interação permanente, tão espontânea e personalizada, que vai ser quase imperceptível para as gerações futuras.

De forma quase didática a organização do evento dividiu os principais assuntos em alguns temas notáveis: inteligência artificial, indústria 4.0, conteúdos imersivos, confiabilidade dos sistemas e bem estar digital.

Comparando novamente ao lançamento da TV Digital, vale lembrar que ela trouxe a completa transformação de todo o parque tecnológico do setor, principalmente no nível de geração. Para o consumidor, depois de uma verdadeira revolução os televisores, eles ainda chegam com coisas novas porém, sem o potencial de provocar o assombro de 20 anos atrás.

A grande novidade que a TV Digital prometeu, mas o público desdenhou, foi a interatividade. Justamente porque a tecnologia apontava para outra via de interação, mais efetiva, numa associação com a tecnologia mobile. Por meio dela será estabelecido um novo patamar de convivência da sociedade com a tecnologia, não mais apenas com a TV. Uma nova história que só está começando.


A FESTA DOS LEIGOS E O TRABALHO DOS PROFISSIONAIS


Nesta edição a MWC 2019 vai parecer muito maior para os engenheiros do que para o público em geral. O consumidor vai ver celulares incríveis, técnicos vão observar detalhes de tecnologias embarcadas e as perspectivas de desenvolver novos serviços, negócios e os respectivos apps. Se, no ano passado, um grande destaque dos fabricantes ficou por conta das baterias de longa duração, desta vez os celulares chegam de maneira agradavelmente explosiva.

O Galaxy Fold, o primeiro dobrável do mercado, estabelece um nível acima do premium em desempenho e preço. Com seis câmeras e capacidade de rodar até 3 programas simultaneamente – dentre outras aptidões – o preço de mercado vai girar em torno de US$ 2 mil. Com ele a coreana Samsung eleva e ocupa o topo do mercado de smartphones, e deixa para trás concorrentes como a americana Apple e a chinesa Huawey.

O Galaxy Fold já foi apresentado num evento no meio da semana em São Francisco. Mas a Sony, que ainda não conseguiu emplacar sua marca entre os celulares mais desejados, lança na MWC 2019 o Xperia XZ4. A missão é dar à marca o status de grande concorrente, condição com a qual está acostumada no mercado. Para isso, a Sony investiu no que mais conhece, as câmeras. Nada menos do que 52 MP, abertura de f/1.6. O design promete surpresas. A japonesa ainda não fala em modelos dobráveis, como também a LG. Pois é, a “outra coreana” chega a contraindicar telas dobráveis no momento. O diferencial que ela apresenta é o LG V50 ThinQ que opera em 5G e tem na tela um segundo auto falante, como já acontece com televisores da marca.

Entre as chinesas a Huawey, que está se posicionando com muita força, deve surpreender o mercado com o lançamento do Mate X, com tela dobrável de forma diferente (e melhor) que o modelo da Samsung.

A Motorola, decana dos celulares, já anunciou sua novidade em evento realizado no Brasil. Mesmo assim, é outra que deixa a pulga atrás das orelhas de analistas, com relação à eventual apresentação de um tela dobrável na MWC. Entre as mais tradicionais do setor tem ainda a Nokia – HDM Global, que quer retomar o protagonismo, apagado após a chegada dos smartphones. O Nokia 9, dentre outros caprichos, traz 5 câmeras na parte traseira.

Por fim, a Microsoft lembrou de ampliar o conceito mobile e lança a nova geração HoloLens, os óculos de realidade mista. Mas, por enquanto, ainda nada confirmado. Outras fabricantes como a Xiaomi também prometem novidades porém, com menor potencial para surpreender o público ou para eventos futuros.


TECNOLOGIA HUMANIZADA


O segmento mobile, mais do que outros no mercado TI, está “envelhecendo” as previsões mais ousadas muito rapidamente. O smartphone, em especial, vai virando o login de cada cidadão. Além das tradicionais funções de comunicação já paga as contas, arquiva documentos pessoais (título de eleitor, carteira de motorista, ...), acompanha sinais vitais do organismo (e também do trânsito), vai às aulas e bibliotecas da faculdade, exibe os canais de TV e outros conteúdos, chama táxi etc etc. Logo, ou as carteiras vão servir para guardar o celular ou não terão mais utilidade.

Por isso tudo, muito adequadamente, a MWC 2019 expande a discussão sobre segurança dos sistemas e bem estar digital. É preciso lembrar que o mobile existe para fazer parte das pessoas como se fossem novos órgãos típicos da espécie humana. É a máquina mais íntima do homem, precisa se ajustar muito bem à realidade humana.

Rodrigo Araújo, Diretor Comercial da EiTV, tem dedicado especial atenção, sob esse aspecto, ao mobile. Ele lembra que a empresa nasceu voltada para uma proposta educativa e o momento exige uma visão nesse sentido para integrar homens e máquinas de forma saudável e sustentável.

A plataforma da EiTV CLOUD, para gerenciamento de arquivos audiovisuais na nuvem, foi desenvolvida levando em conta segurança e conforto para os usuários. Os aplicativos para smartphones e tablets, para usuários remotos, de mais e mais segmentos agregados, levam em conta esses valores. Além de alavancar a produtividade dos negócios, a tecnologia precisa propiciar mais qualidade de vida aos usuários. O sucesso da EiTV no mercado prova que sabe bem como fazer isso.

No estande da EiTV, nesta quarta edição consecutiva da MWC, percebe-se a forte sintonia com a proposta do evento. É a tecnologia como funcionalidade dedicada ao aprimoramento da experiência humana, em todos os sentidos.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

A TV NOSSA DE CADA DIA




Tem aquela conversa do “seo” Zé da venda, onde se comprava de tudo, marcava no caderninho e pagava no fim do mês. No dia de zerar a conta um filho ia junto e ganhava um punhado de balas, para compartilhar com os irmãozinhos.

Que coisa jurássica! Hoje as relações de mercado no varejo são muito mais impessoais, há sistemas de pagamentos ágeis, tecnologias digitais simplificam todos os procedimentos.

Pra falar fica bonito, mas a respeitosa cortesia do “seo” Zé, a proximidade dos consumidores e outros vínculos humanos são preciosas lições para o comércio em qualquer tempo. Principalmente agora, quando o consumidor já se encheu do discurso “moderninho” e não aceita mais ter a cara de código de barras.

A TV por assinatura parece que não se deu conta dos novos tempos. Pelo menos é o que se observa aqui no Brasil. Fica naquele discurso de “tecnologias do primeiro mundo”, onde tudo funciona de maneira diferente e que por aqui a gente tem que se acostumar. Então tá, a base da TV paga caiu 3,9% no Brasil nos últimos 5 anos e desde então só registra queda de assinantes ano a ano. É o que aponta pesquisa divulgada nesta semana, realizada num total de 14 países pela Amdoc, fornecedora de software e serviços para empresas de mídia e comunicação. A Vanson Bourne, especializada em pesquisas no mercado de tecnologias, atuou em parceria.

O ambiente tecnológico influiu, considerando principalmente a entrada dos serviços SVoD via OTT, como Netflix. Uma realidade aparentemente irreversível, que só valoriza mais ainda as lições do “seo” Zé. A pesquisa, divulgada no site Teletime, traz alguns dados qualitativos que denotam algum descaso das operadoras diante das expectativas dos clientes.

De acordo com a pesquisa 70% dos clientes de TV paga, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos e no Reino Unido, estariam dispostos a manter uma única assinatura de TV se contassem com um pacote personalizado, a seu gosto, como os tomates que o “seo” Zé escolhia na frente do freguês. Por enquanto, os pacotes oferecidos parecem contemplar mais os interesses das empacotadoras e das próprias operadoras.


O QUEBRA CABEÇA DA TECNOLOGIA E DO EMPREENDEDORISMO


As escolhas para formar esse pacote ideal convergem em direção a um conjunto de opções, que apontam um padrão. Dele fariam parte todos os jogos e competições do time preferido, eventos e shows ao vivo e principalmente, uma oferta variada de séries de alto nível. Dentre elas, hoje as quatro principais seriam "Game of Thrones", "The Walking Dead", "Stranger Things" e "The Big Bang Theory". No Brasil esse pacote custaria cerca de R$ 400,00 por mês, o que corresponde a um aumento de 60% do valor médio pago pelos assinantes.

Daí começam a aparecer as particularidades típicas desse “país que vai pra frente”. O Brasil é onde o cliente paga o valor mais alto pela assinatura de TV, se comparado com o que paga pelos vídeos via streaming. Na média, o que o consumidor paga para a operadora corresponde ao valor suficiente para pagar 4,6 plataformas de vídeo. Na Suíça, o que uma operadora cobra não chega ao valor da contratação de uma única plataforma de vídeo.

Isso contribui para que 39% dos lares brasileiros que possuem um televisor abriguem clientes de plataformas OTT. É 50% a mais do que as assinaturas de TV paga. O número de clientes OTT pode estar revelando uma demanda reprimida, pois corresponde a 85% dos lares com banda larga fixa. Faz pensar que, se a infraestrutura de Internet fosse maior no Brasil, o serviço de vídeo via OTT estaria em muitos outros lares. Se considerar o total de lares onde existe TV por assinatura, 61% têm também ao menos um serviço de vídeo OTT ativo.

O cancelamento da TV paga, fenômeno chamado cord cutting, tem sido mais intenso nos Estados Unidos e na Europa, se comparado com o Brasil e a América do Sul em geral. Lá a TV aberta sempre esteve em segundo plano. Porém, o crescimento do streaming de vídeo (OTT) é mais lento do que se vê por aqui, onde a TV aberta ainda lidera. Mesmo considerando as outras alternativas é de se supor que a TV aberta esteja ganhando espaço no mundo desenvolvido. Com as plataformas híbridas abertas, do tipo NGTV, a expectativa é de que o ritmo de crescimento da TV aberta acelere mais ainda.

A TV paga está em crise no mundo todo justamente num momento em que é muito difícil escolher um rumo para investir. A conexão 5G está chegando para oferecer às plataformas móveis a velocidade de 1 gigabyte por segundo. A rede fixa deve alcançar 10 gigabytes por segundo nos próximos anos. Outras infraestruturas estão surgindo. Optar por mudanças nesse momento pode implicar na necessidade de rever novamente seus sistemas em muito pouco tempo. Talvez o investimento ideal agora fosse na imagem dessas operadoras diante de seus clientes. O que o “seo” Zé pensaria agora se tivesse mais de 10 milhões de fregueses para agradar?


DEVE VALER A PENA


Sem dúvida, há um custo Brasil a ser considerado nessa lógica. Impostos, “gatos”, carência de mão de obra, dentre outras mazelas. Mas esse custo não aparece apenas no preço do serviço. Dá a impressão de que é descontado também na qualidade do que é oferecido ao cliente.

É muito cedo para afirmar que bases de operação tão grandes e consolidadas desapareçam tão rapidamente. Porém, no rastro das grandes mudanças tecnológicas, também não dá para dizer que seria impossível acontecer.

O que resta incontroverso é que o consumidor quer mais conteúdo e as redes de TV paga ainda são a via preferencial de distribuição no mundo como um todo. Se está difícil manter essa posição, também não está nada fácil para as tecnologias concorrentes assumirem o lugar.

Para a realidade brasileira alguma mudança precisa aparecer em pelo menos um dos lados: ou os preços são reduzidos ou a qualidade dos serviços, em todos os níveis, precisa aumentar. Não adianta falar em mudanças regulatórias porque do plano político só virão remendos e tudo demora muito a acontecer. Se fosse diferente, os problemas estruturais como ligações clandestinas e aparelhos piratas teriam pelo menos um encaminhamento, mas ninguém está vendo nada disso acontecer.

Por fim, é a própria “marca” Brasil que tem de ser avaliada. Estamos ali entre as dez maiores economias do mundo, somos um país de extensão continental, mais de 200 milhões de habitantes e aquela série de outras verdades que nos fazem, há mais de 50 anos, o país do futuro. Que fique clara, para aqueles que pensam em investir no mercado brasileiro, a máxima que está se firmando entre os consumidores daqui: respeito é bom e nós gostamos.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

BOM DEMAIS PARA SER BRASILEIRO





A gente sabe bem como é. O que aconteceu com o Neymar quando ele se revelou um craque muito acima da média do futebol brasileiro? O mesmo que aconteceu com o Ronaldo “fenômeno” há muitos anos, com o Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Romário, Falcão, Gabriel Jesus. Todos foram comprados por clubes estrangeiros muito ricos. Tornou-se impossível manter no Brasil esses jogadores e muitos outros, nem tão famosos.

Com a Embraer foi a mesma coisa. O empresário James R. Waterhouse, que também é professor de Engenharia Aeronáutica na USP, em São Carlos, entende que a negociação da fabricante brasileira, terceira maior na aviação mundial, está sendo consequência direta da relevância que ela alcançou. Para ele “o sucesso levou à obrigatoriedade da venda”.

A partir de então a comparação não vale mais. Diferentemente do que acontece na venda de grandes craques do esporte, uma empresa como a Embraer vai embora e deixa em risco milhares de empregos, leva muita tecnologia e anos e anos de uma história de excelência. Só aumenta o rendimento ao longo do tempo e não volta nunca mais. Será que é um bom negócio?

Para Waterhouse “não existe a opção de não vender” a Embraer. Essa falta de alternativa seria consequência do acúmulo de erros de governos na condução do setor de tecnologia. Seguindo esse rumo o Brasil deve continuar dependendo de commodities para manter as exportações. Produtos de alto valor agregado devem continuar chegando do Exterior, que também vai exercer uma crescente atração sobre os cérebros mais notáveis daqui.

Com a Embraer o Brasil avançou muito na tecnologia de aeronaves. Tudo que se avista quando um jato está no ar é feito pela Embraer com excelência. O conforto durante os vôos em aviões da empresa é maior do que em qualquer modelo correspondente das concorrentes. Porém, no que diz respeito à aviônica – ou eletrônica das aeronaves, instrumentos – e propulsão, a indústria nacional deixa um grande vazio. Uma assimetria da tecnologia brasileira no setor que colocou a Embraer numa situação de dependência.

Outros equívocos, decorrentes de vícios da política e do setor empresarial brasileiros, também vão entrar para a história desse singelo sonho high tech.


BRASILEIROS X BRASILEIROS

Hoje as negociações são pela venda de 80% do capital da Embraer para a americana Boeing, maior empresa de aviação no mundo. Os 20% restantes continuam Embraer, que estará focada na aviação de defesa e executiva. Parece simples mas, na divisão dos funcionários, para que lado devem seguir os mais capacitados? Quantas das fábricas vão continuar operando no Brasil?

O Prof. James R. Waterhouse afirma que os próximos anos não devem ser tão promissores para a aviação executiva, principal mercado que sobrou para a Embraer. Para defesa, os negócios costumam ser inconstantes. A Embraer vai sair dessa negociação sem o filet mignon, mas com um osso difícil de roer.

O pior é que, além da empresa, que era nacional pelo menos na gestão, o Brasil perde um grande “centro tecnológico” mantido pelo mercado. Até a própria Embraer teria uma razoável parcela de culpa nessa situação, diz o professor.

Os governos anteriores adotaram uma política de hipertrofia da empresa, visando fortalece-la para concorrer no mercado internacional. A Embraer não só gostou, como teria colaborado para sufocar pequenas empresas, aspirantes a concorrentes nacionais. O bolo financeiro do BNDES sobrou todo para a dona da festa. A aviação de pequeno porte teve um crescimento modesto. O mercado que poderia alavancar empresas capazes de desenvolver equipamentos ou componentes para a aviação, aumentou menos do que poderia. Seria um novo nicho tecnológico, importante para a formação de um cluster brasileiro no setor.

O professor cita ainda o papel que a Finep deveria desempenhar no desenvolvimento da indústria aeronáutica. A financiadora oficial de projetos exige garantias reais de empresas nacionais interessadas em desenvolver componentes. O custo é elevado e pequenas empresas, mesmo com alto potencial e expertise, não têm capital para oferecer essas garantias.

A aviação brasileira de pequeno porte sofre muitas outras dificuldades estruturais. Dentre elas, Waterhouse cita a pequena malha, que conta com menos de150 pontos no Brasil. É muito pouco na opinião dele, considerando a extensão do território e as dificuldades de acesso por outras vias. Seriam necessários mais de 500 pontos no país. Do jeito que está, o transporte aéreo se encaixa num modelo hub a hub, ligando pontos centrais de regiões muito grandes, que englobam várias comunidades isoladas. Com isso, o trecho entre o aeródromo e o destino final – ou last mile – muitas vezes é mais demorado do que o percurso aéreo. Isso compromete muito o desenvolvimento dessas comunidades e torna o transporte aéreo pouco efetivo.


POR ONDE (RE)COMEÇAR


Para o Prof. Waterhouse as políticas de longo prazo devem prever fundos que garantam investimentos no mercado e na indústria aeronáutica. O momento seria de apoio para a diversificação dessa indústria.

Com uma malha mais capilarizada os pequenos aviões de carga ganhariam importância muito maior na matriz de transporte. Esse nicho da aviação é pouco explorado no mundo, até pelo fato de que a extensão territorial do Brasil só é menor do que a de outras 4 nações. Com pouca concorrência, o mercado desse segmento seria vasto para a indústria nacional e atraente para empresas brasileiras interessadas em produzir outras tecnologias para aviação, como aviônica e propulsão. A aviação de pequeno porte seria a oportunidade para o crescimento de uma indústria de base para o setor.

A propósito, esse é um fator estratégico para novas tecnologias, que o Brasil não sabe usar, segundo o professor: o grande mercado interno. Em parte, os Estados Unidos teriam se valido dessa condição para emparedar a Embraer na negociação. Eles são o maior mercado de aviação do mundo, sem o qual ficaria muito difícil para a empresa brasileira continuar crescendo. Contam a favor ainda as condições de financiamento que empresas americanas conseguem para vender suas aeronaves em qualquer lugar do mundo.

Waterhouse comenta que a política de transferência ajudou a China a se transformar numa potência tecnológica. O país se propõe a fabricar e comercializar tudo internamente, desde que haja alguma transferência de tecnologia. No Brasil não há a necessária pressão nesse sentido.

Atualmente o mercado de turbinas de aviação no mundo, segundo o professor, estaria sob o domínio de poucas empresas como as americanas G&E e Pratt & Whitney, a francesa Snecma e a inglesa Rolls-Royce, além de joint ventures entre elas mesmas. Porém, Rússia e China estabeleceram políticas de estado e parceria entre elas para se tornarem independentes dessa polarização. Com o crescimento do mercado de aviação no mundo todo o Brasil precisaria também de uma política de estado para concorrer, visando inclusive parcerias.

Importante entender, a partir do caso concreto da Embraer, que não haverá perspectivas para nenhum segmento tecnológico na indústria nacional enquanto o governo, nos diversos níveis, não tiver uma ampla política nesse sentido.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

VAI UMA LEI AÍ!?




Calma, não tem nada a ver com lei penal ou de responsabilidade. Estamos falando de lei “do bem”, tipo aquelas de incentivo, de estímulo, até de isenção de recolhimentos e obrigações. E então, é pegar ou largar!?

Empresários de alguns setores, principalmente o de telecomunicações, se bem educados “declinariam” da oferta. Os mais objetivos responderiam simplesmente “tô fora!” Numa rápida pinçada em matérias recentes do site Teletime há alguns casos que demonstram como algumas instituições públicas brincam com setores estratégicos para o país. Pensam em leis como máscaras de carnaval, que trazem na frente uma estampa bem popular, e atrás a certeza de que nada do que se vê corresponde à verdadeira feição.

Essa prática, típica do mais ardiloso estelião, dá ao ato de legislar o condão de gerar dificuldades, conduzir a equívocos, desorientar ou simplesmente trocar seis por meia dúzia, às vezes, dezena. Verdadeiro “jogo de papeiro”.

Por oportuno, esses golpes publicitários vão ao ar pouco mais de um ano antes das eleições. Começa com a escolha de um codinome forte para designar a lei, seguido de uma ementa sinfônica para eleitores e segmentos mobilizados. Uma primeira redação descreve total fantasia e, não raro, aberrações constitucionais. Uma imensa boa vontade e incansável labor do autor do projeto (de lei) são descritos com requintes de teatralidade. A esperança vibra no ar.

O codinome da lei ganha visibilidade, a ementa é mantida, mas o conteúdo regulatório muda. Lá adiante, depois de muitos adotarem os procedimentos que sobraram, aparece uma procuradoria da vida ou um conselho deliberativo qualquer para reclamar haveres ou denunciar deveres.

O custo dessas fraudes legislativas é um passivo histórico para o Brasil. Verdadeiras piadas, de muito mal gosto, estão fazendo parte da legislação sobre a qual se baseiam serviços como banda larga de Internet, telefonia e Internet das Coisas (IoT), dentre outros.


ERA PRA SER, MAS...


Um caso clássico de “lei de fachada” é o incentivo tributário concedido aos pequenos provedores de banda larga, os chamados ISPs. A LGT, ou Lei Geral das Telecomunicações, determina que haja uma assimetria regulatória em favor dos pequenos prestadores. Talvez por considerar o fato de ser um setor estratégico e a baixa nacionalização da tecnologia. Os ISPs são, por definição, nacionais, por isso têm direito a algumas “molezas”.

Porém, admitir algumas molezas não significa passar por cima de qualquer outra lei que aparecer pela frente. Alguns especialistas entendem que, quando se trata de tributação, qualquer regra especial depende de Lei Complementar específica, que não existe no caso. O que define essas facilidades é apenas uma regulamentação publicada pela Anatel no final do ano passado. São benefícios concedidos aos ISPs, identificados na regulamentação como Prestadores de Pequeno Porte (PPPs). Precisam ser empresas com sede no Brasil e que têm menos de 5% de participação no mercado nacional.

Com base nas regras da Anatel alguns estados ou regiões resolveram ir além e dar desconto no ICMS para PPPs, que chegam até a 75% do imposto devido. Olha só que lei legal! Só que não. De acordo com Basílio Perez, presidente da Abrint, entidade que representa os ISPs no Brasil, quase ninguém está se valendo do benefício. “A gente ainda tem um certo receio da segurança jurídica”, diz Perez, o que parece dar razão aos pareceres encomendados pelas teles, as grandes provedoras, como Claro, Tim, Vivo, Oi.

Os ISPs parecem estar atentos às várias falhas regulatórias. Talvez concordem também com outra avaliação de especialistas, sobre a inconstitucionalidade de benefício tributário em função da procedência ou destino de um serviço. É justamente o que caracteriza as PPPs, que precisariam ter sede no estado que oferece a isenção de ICMS.

Por outro lado, a Abrint tem uma preocupação tributária concreta, para a qual acredita que exista uma solução. Eles querem uma regra de transição que torne menos traumática a saída do regime tributário Simples. Os pequenos provedores de banda larga que ultrapassam o limite de faturamento para inclusão no Simples, têm um aumento tributário brutal.

Há várias outras inconsistências nessas tentativas políticas de revogar a lei dos mais fortes. Elas acabam por dar um perfil punitivo às legislações setoriais. Só valem para quem aguenta. Sempre aparece alguém preocupado com “os pobres”, com “os que mais precisam”, para inventar leis inaplicáveis em troca de notoriedade e votos. É assim no audiovisual, nas tecnologias em geral, nas telecomunicações, no setor agrário e muitos outros. Cheios de contra leis que amenizariam (??) o peso da lei para os “fracos”, nós mesmos, brasileiros em geral. O que pode ser feito de concreto, em termos de qualificação, crédito, acesso a mercados, isso é sempre muito limitado.


VÍCIOS QUE DESAFIAM PROMESSAS


As últimas eleições trouxeram altos níveis de renovação nas casas legislativas. Mas nem tanto na política. Sob promessas de mudanças, pelo fim da velha política, o eleitorado respondeu a altura. Falta as coisas mudarem de fato.

Nesta semana, num debate em São Paulo, um alto funcionário do BNDES fez uma afirmação um tanto descabida, em se tratando de temas tão técnicos. Pareceu falar com a máxima boa fé o chefe do departamento de Telecomunicações, TI e Economia Criativa do BNDES, Ricardo Rivera. Ele disse que a “agenda digital brasileira” – onde ele inclui o Plano Nacional de IoT, a Estratégia Brasileira para Transformação Digital e o malfadado PLC 79 – “está na mesa e pronta para ser apadrinhada politicamente ... e trazer resultados no curto prazo.”

Depois de quase cinco anos de Lava Jato, falar em “apadrinhamento político” exige maiores detalhes. Ademais, não parece ser essa a abordagem mais adequada por parte de um alto funcionário do BNDES, diante de uma plateia de dirigentes empresariais.

Parece que o Brasil ainda está longe de um norte em termos de políticas empresariais adequadas a uma grande nação, uma grande economia que quer subir de patamar no mercado global. Falta uma melhor compreensão sobre o que as instituições e as normas legais devem representar para a sociedade.

Ainda no caso dos PPPs, com as novas normas a Anatel “fez reverência com o chapéu do consumidor”. Flexibilizou ou até excluiu obrigações como atendimento por call center, pela Internet e presencial, o que implica na falta de gravações das conversas com clientes; muda exigências como aviso prévio para término da franquia, alterações nos planos ou interrupções de serviço; além de não fixar parâmetros de qualidade, por exemplo, em velocidade de acesso e latência.

Ainda bem que estamos em pleno recomeço e o esforço de transformação, que começou nas urnas, deve continuar. A esperança está viva, forte! E a contribuição de cada um virá pelas colocações claras e pela disposição em colaborar.