sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

A CHINA NA LUA



Quando Neil Armstrong pisou na Lua, em 1969, consolidou-se um dos mais ambiciosos programas de marketing já preparados na Terra. É o que garantem alguns executivos americanos que acompanharam a fase áurea do programa espacial dos Estados Unidos.

Reza a lenda que foi o presidente John Kennedy quem teve o insight. Com o avanço do programa espacial soviético, a bordo do Sputinik, Kennedy teria colocado como missão a chegada do primeiro homem à Lua. O feito buscava colocar os Estados Unidos como a meca da tecnologia, o máximo em ciência, a locomotiva do conhecimento humano. Conceitos que deveriam refletir nas vendas de produtos americanos pelo mundo. Parece que deu certo.

Agora é a China, a meca dos camelódromos, quem exibe credenciais lunares. As missões Chang’e já tinham chegado à Lua em 2013, com o Chang’e-3. Porém, o destaque histórico da missão Chang’e-4, que chegou à Lua nesta semana, foi o local de aterrissagem (desculpem, alunissagem, porque o pouso foi na Lua, não na Terra). A sonda pousou no chamado “lado afastado” do satélite natural. Um ponto do Universo especialmente importante para nós.

O que isso deve representar para o marketing dos produtos chineses? Muito provavelmente o governo de Pequim não está pensando em usar esse feito numa manobra de varejo. É mais provável que se encontre justificativas militares ou de algum valor estratégico no tabuleiro geopolítico. Mas é inegável que, a partir de agora, começa a mudar nosso olhar sobre os produtos chineses.

A China sempre teve a marca de “estranheza”, de difícil compreensão entre os ocidentais. Uma língua muito diferente, escrita diferente, hábitos e cultura muito diferentes, até o fenótipo. Agora é o maior país comunista do mundo mas é o segundo mais capitalista. Fez uma revolução marxista, onde o foco é o trabalhador, mas está entre os países com piores condições de trabalho. Vai entender...


THE DARK SIDE OF THE MOON


Menos de 4 anos após a chegada do homem a Lua a banda inglesa Pink Floyd lançou seu álbum de maior sucesso, The Dark Side of the Moon, ou “o lado escuro da Lua”, em tradução livre. Para os leigos, era uma referência meramente poética. Na verdade, trata-se de uma realidade astronômica e também poética, mais ainda.

Há uma sincronia entre os movimentos de rotação e translação da Terra e da Lua. Isso faz com que uma parte do nosso satélite natural nunca seja observável de qualquer ponto da Terra. Mais ou menos como um casal que dança uma valsa no salão, rodopiando pra lá e pra cá, mas sempre face a face, um encarando o outro. Se durante uma valsa, o cavalheiro quiser olhar alguma coisa nas costas da moça, ele não tem como faze-lo, a não ser que passem em frente a algum espelho.

Até isso a China teve que inventar. Lançou o satélite Queqiao, que fica numa “vaga gravitacional” entre as órbitas da Terra e da Lua. Ele faz mais ou menos o papel de um espelho, uma antena que rebate as ondas eletromagnéticas de comunicação da China com a sonda.

E se você ficou pensando por que o cavalheiro se interessaria em olhar alguma coisa nas costas de sua parceira de valsa, nas “costas” da Lua há indícios de que muita coisa pode ser encontrada. Começa pela cratera Von Kármán que tem uma área equivalente a cerca de metade do território brasileiro e profundidade de 13 Km. Bem grande, em se tratando de um astro que tem uma superfície quase 14 vezes menor do que a da Terra. Acredita-se que ela surgiu de um mega impacto de algum asteroide. Na prática, ele teria feito um trabalho de estratigrafia, ou seja, aprofundou muito a visão de camadas da formação da Lua. Informações importantes sobre todo o Sistema Solar.

Além disso, por não ter qualquer ponto “de visada” em relação a nós, o lado afastado, ou lado oculto da Lua não deve ter recebido antes qualquer onda eletromagnética artificial emitida daqui. Ou seja, não há qualquer interferência para estudos astronômicos, é um privilegiado boulevard para se observar o resto do Universo.

Além do “jipinho” Yutu-2 que a sonda já colocou em solo, levou também um espectrômetro, para rastrear a presença de minerais e um experimento curioso. Um pequeno contêiner, do tamanho de um nécessaire, onde funciona uma micro biosfera, com sementes de batata, de um outro vegetal muito usado em pesquisas biológicas e ovos do bicho da seda. É que o lado afastado da Lua só é “escuro” para nós, mas recebe normalmente a luz solar. A expectativa é de que as plantas produzam oxigênio por fotossíntese – além do que já está no contêiner – e contribuam para o desenvolvimento das larvas do bicho da seda.


O LADO ESCURO DA CHINA


A China é um estado abertamente fechado. Diferente do que acontecia aqui nos anos 70 do século passado, quando se dizia que o cidadão brasileiro não tinha qualquer limitação em suas liberdades, lá a chamada “revolução” não está muito preocupada com o que o povo pensa sobre o governo. Cumpra-se, e estamos conversados.

Isso reflete até no tráfego de Internet e deve ter repercussão também na divulgação de informações científicas. Não se sabe quanto do que vai ser descoberto na Lua chegará ao resto do mundo, pois nem os cientistas têm autonomia para divulgarem o que acham necessário.

Em cima desse suspense tem um suspense maior, ou seja, o que a China vai fazer a partir dos conhecimentos que pode obter por lá. O sonho de supremacia que todas as potências mundiais aspiram, no caso da China não leva nenhum disfarce. Eles querem o poder para fazerem o que acharem necessário, onde acharem necessário, segundo os objetivos da revolução. Que ninguém sabe exatamente quais são.

Há algum tempo já se sabe que os chineses produzem tecnologia competitiva nas várias áreas mas agora, o que acaba de acontecer, aos olhos do mundo todo, é a conclusão de um feito científico histórico de destaque, com repercussão global. O fato em si já é glorioso, mas revela ainda o sucesso de todo um projeto educacional, tecnológico e científico, que permitiu a eles chegarem onde estão.

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