sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

O FACEBOOK NÃO É MAIS AQUELE




Muda a cara dele! Mais simples, o WhatsApp é agora o aplicativo mais popular do mundo, deixando o velho “Face” em segundo lugar. Os dados são da empresa de pesquisas App Annie e foram divulgados na semana passada, no estudo State of Mobile. Desde o último mês de setembro a quantidade de usuários ativos mensais no WhatsApp é a maior, tanto em plataformas Android como iOS.

O estudo indica que na média do ano de 2018 o Facebook ainda ficou em primeiro lugar no mundo. Mas deve ser o último ano de liderança, uma vez que, depois de assumir o primeiro lugar em setembro, o WhatsApp continuou liderando mês após mês. Zuckerberg, o dono do Facebook, deve ter percebido isso antes, quando comprou o WhatsApp em 2014, pela respeitável quantia de US$ 19 bilhões. Dá para comprar 3 Embraer – só para citar uma negociação bem atual – e ainda sobra um troco milionário.

Nessa disputa bem doméstica o que parece estar em jogo não é a qualidade deste ou daquele aplicativo. A briga mesmo é entre celular e laptop, plataforma móvel versus fixa. Afinal, o mundo é mobile, a gente é mais Zap zap (nesse caso a “tradução” brasileira é didática) na vida real do que Facebook. Não há, no celular, apetrechos de interface. E ainda, pelo fato de algum dia, o celular ter sido uma máquina prioritariamente de voz, falar para ele tende a ser o bastante. O dedo que agora tem a função de mouse, fica poderoso na maquininha! Fotografa, filma, desenha, escreve e apaga.

O celular tem o poder de “desaparecer”, não incomoda fisicamente. Vai para a pasta, pra bolsa, porta luvas do carro, bolso, na sacola do supermercado. Tanto que às vezes desaparece mesmo e a gente nunca mais encontra. O tablet, que tentou ser um pouco de cada coisa, não avançou muito. Cresceu mais quando era um ancestral do smartphone, agora vive surtado numa crise de identidade.

Um fato curioso é que esses dados médios de audiência no mundo não refletem o que acontece nos dois maiores mercados. Nos Estados Unidos e na China o WhatsApp não aparece nem entre os 5 primeiros. Embora ninguém tenha dúvida de que o acesso à Internet, nos dois países, também acontece mais pelo celular do que por plataforma fixa.


TECNOLOGIA PRA QUE TE QUERO


Identificada a ameaça, redes fixas e seus interconectores se preparam para concorrer. Inventam vantagens tentando arrastar novamente o mercado para alguma poltrona de suas respectivas casas. Esse mundo que se desloca freneticamente, congestiona as ruas, aeroportos e mesas de bares, fica mais à vontade em qualquer outra parte do planeta que não seja a própria casa.

Tanto que os studios fazem sucesso entre lançamentos imobiliários nas grandes cidades. São “apartamentos” com cerca de 20 m2. Em condomínios com lavanderia, cozinhas mais equipadas, churrasqueiras, academia, salas de reuniões, de festas, de jogos, tudo comunitário. Seu espaço privado é só para tomar banho e dormir.

Por isso, vem coisa por aí... Contra essa tendência, CableLabs, Cable Europe, operadoras de TV por assinatura dos Estados Unidos, Europa e outros países, se uniram à empresas como Arris e Intel para lançar o 10G. Uma conexão simétrica de 10 gigabytes, no padrão DOCSIS Full Duplex, ou 10G FDX.

No momento isso parece mais um desafio para desenvolvedores e engenheiros. Pois, uma vez que a quinta geração de conexão móvel (5G) é considerada uma “conexão instantânea”, por ter velocidade de 1 gigabyte/segundo, há que se pensar o que fazer com os outros tantos que a 10G FDX vai oferecer. As aplicações industriais e empresariais certamente vão se valer disso. Mas entre os empreendedores do 10G elas não estão representadas, senão pelas próprias operadoras de TV por assinatura, cuja clientela é bem diferente.

A iniciativa foi anunciada durante a CES, em Las Vegas, na segunda semana do ano. Por enquanto a repercussão foi tímida, talvez até pela dúvida sobre o que fazer com 10G no roteador.

De fato, quando o volume de possibilidades tecnológicas cresce muito, a ordem das necessidades se altera. O que inventar com tanta tecnologia? Principalmente quando se leva em conta que as invenções de grande sucesso no “varejo” estão fugindo das previsões mais lógicas. O povo quer jogos eletrônicos, redes sociais e outras frivolidades.

O sistema Kinect é um dos exemplos. Originalmente foi criado como sensor de movimento para videogames. Mais tarde foi descoberto como ferramenta para os médicos acompanharem tratamentos de fisioterapia à distância. Passeio virtual no Louvre, na Torre Eiffel ou na lua? Só se for pra cassar Pokemon Go, terroristas virtuais ou zumbis.

É dentro dessa lógica que está surgindo um novo conceito de laptop. Um PC mais mobile ainda, com respostas mais rápidas do que os atuais celulares.


EM BUSCA DA INTIMIDADE


Um laptop cuja bateria dura 20 horas e “acorda” imediatamente quando abre a tampa ou recebe um comando de voz. Um sistema inteligente, que disponibiliza silenciosamente alguns arquivos relacionados com a tarefa que o usuário está realizando. Algo próprio para os momentos em que se exige concentração, foco. Mesmo que seja um videogame de alta performance.

Esse é o projeto Athena, da Intel, que adotou uma abordagem colaborativa incluindo empresas como Dell, HP, Asus, Lenovo, Samsung, Acer, Sharp, Microsoft, e Google. O lançamento está previsto ainda para este ano de 2019 e inicialmente estará baseado na arquitetura Ice Lake, de 10 nm, segundo afirmou Josh Newman, gerente-geral de segmentos de inovação móvel da Intel.

Falar em videogame, uma planilha de custos, a edição de um vídeo ou alterações para o treino da academia faz parte do novo conceito que chega com o Athena. Newman afirma que uma das características do novo sistema é justamente estar pronto para qualquer das tarefas que se alternam durante o dia na vida das pessoas. Isso leva a especular se, junto à AI, não estarão associadas as potencialidades de learning machine, de forma a tornar ainda mais íntima a máquina, de seu usuário. Essa é uma condição que, atualmente, o celular desfruta quase que isoladamente.

Os laptops do projeto Athena não devem ser do tipo ultrafino, o que dificultaria a inclusão de uma bateria capaz de durar 20 horas. Mas tudo indica que vão ser mais leves e trabalhar sem alterar tanto a temperatura. Num futuro próximo os dispositivos podem chegar mais longe, com telas duplas ou dobráveis.

Com a palavra, o desenvolvedores de software. As novas plataformas chegam para dar asas à imaginação desses cérebros, que vão perscrutar comodidades e desejos, ainda que latentes, nessa vida comum que levamos do lado de fora das telas.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

OS VÁRIOS VALORES E A FORÇA DO SIFRÃO




Você tomou champanhe nesse réveillon? Perdão pela indiscrição, mas é bem provável que não. Seus pais, ou mesmo você – se faz algumas décadas que deixou de ser criança – devem ter falado muito sobre “estourar champanhe” no fim de ano. Até que os verdadeiros produtores de champanhe foram à Justiça para exigir que a denominação fosse respeitada.

Nem precisa ser enólogo, basta ter alguma proximidade com vinhos para saber que o nome champanhe denomina tipos específicos de vinhos espumantes, produzidos sob determinadas técnicas, na região de Champagne-Ardenne, Nordeste da França. Se não for assim, mesmo que tenha as principais características do champanhe original, é só espumante. É esse que a gente estoura na “festa da firma” e na maioria dos réveillons, porque o champanhe original, de qualquer marca, é muito caro.

Imagine que agora a gigante centenária AT&T está brindando 5G com seus clientes e servindo 4G LTE-Advanced Pro, fazendo uma coisa passar pela outra. É isso mesmo! A empresa desenvolveu o 5G E, ou 5G Evolution. Só que foi o departamento de marketing que desenvolveu, é a marca de um serviço idêntico ao que é chamado de 4,5G aqui no Brasil. Os engenheiros da AT&T, ao que tudo indica, não autorizariam o golpe promocional, pelo mico que devem pagar diante dos colegas de profissão.

A estratégia publicitária do 5G E “criou um caso” na semana passada, durante a CES – Consumer Electronics Show, a maior feira de eletrônicos do mundo, que acontece anualmente em Las Vegas. John Donovan, CEO da AT&T, reagiu em tom provocador às perguntas, com frases irônicas do tipo "ocupar a cabeça dos meus competidores me faz sorrir".

Até onde vai esse bom humor, ninguém arrisca. Donovan afirma que multiplicou por 8 a velocidade do 4G utilizando a infraestrutura LTE-Advanced Pro, tecnicamente indicada para a futura implantação do 5G. Do verdadeiro! Mesmo assim a diferença entre uma coisa e outra é muito grande, como reconhece o próprio Donovan ao falar do 5G: "Não é só mais rápida e eficiente, é uma rede em tempo real. É a tecnologia do 'sim, você pode fazer isso'", exemplificou o executivo, ao citar os clientes, que sempre questionam até onde o 5G pode chegar.


“ENGANANDO OS CONSUMIDORES” E CHACOTAS


Em alguns modelos com sistema operacional Android, a atualização da AT&T faz aparecer “5G-E” na barra de status do smartphone. Para o CTO da concorrente T-Mobile, Neville Ray, a AT&T está “enganando os consumidores”. No perfil da T-Mobile no Twitter, uma piadinha em vídeo foi contundente. Mostra um pedaço de fita crepe colado sobre a barra de status de um iPhone, onde se lê (escrito à caneta esferográfica) a inscrição “9G”. Abaixo vem o comentário: "Não tinha percebido que era tão fácil, vou atualizar e já volto”. Entendeu a situação dos engenheiros da AT&T diante dos colegas de turma que trabalham nas concorrentes?

A Verizon, outra concorrente entre as operadoras americanas de telefonia, abordou a questão de maneira mais séria. Como uma professora que passa um pito na classe. O CTO Kyle Malady publicou um comunicado sob o título “Quando falamos de 5G, queremos dizer 5G”. Em um dos trechos do comunicado, publicado no site Teletime, Malady afirma que a Verizon quer levar os consumidores a um “entendimento claro, consistente e simples do que é a 5G ... sem ter que manobrar por falas de duplo sentido de marketing ou especificações técnicas."

O risco que o executivo da Verizon destaca é o comercial. Ele acha que o potencial de mercado da tecnologia 5G pode ser comprometido caso alguém, que faça parte do “ecossistema móvel”, de fabricantes a provedores, confunda os consumidores. Por isso ele adverte para que ninguém adote um “comportamento pensado para propositalmente confundir consumidores, servidores públicos e comunidade de investimento sobre o que a 5G realmente é". E acrescenta: “Não vamos chamar nossa rede 4G de rede 5G se consumidores não experimentarem a melhoria de desempenho ou capacidade que apenas a 5G pode entregar".

Para Donovan, da AT&T, tudo isso não passa de inveja. As concorrentes estariam apenas esperneando por terem ficado para trás. Ele simplesmente antecipou o uso da infraestrutura implantada para o 5G – a rede LTE-Advanced Pro – para melhorar a experiência dos clientes desde já. De fato, há algum mérito em aumentar a velocidade de conexão em até 8 vezes. Mas isso se torna muito pouco, se comparado com o que o 5G promete. Melhor fez a operadora brasileira que deu o nome de 4,5G ao produto desenvolvido a partir da mesma estratégia.


BRASILEIRO NÃO FAZ UMA COISA DESSAS 


É surpreendente que um incidente desses aconteça no país que revolucionou o marketing e a grande maioria das tecnologias comerciais de hoje. E que a principal envolvida seja uma empresa nativa, a mais tradicional do segmento.

O Brasil, gigante adormecido, país do futuro, costuma aparecer nesses entreveros. Porque estamos entre as nações de território mais rico, um dos maiores e nossa população também está entre as maiores do mundo. Mas ainda somos uma democracia adolescente, muitas vezes nossa voz desafina, as espinhas na cara são maltratadas, ficam em evidência. Só que desta vez aparecemos com os cabelos penteados e roupa passada. Bonito na cena!

É estranho como determinadas práticas, típicas do atraso, estão voltando a aparecer com mais frequência e em mercados de ponta. Parece que a concorrência mais acirrada, a “pena capital” aplicada aos considerados derrotados e o faturamento como principal forma de medir sucesso, estão conduzindo a um clima de vale tudo.

No proscênio do futuro, nesse instante se acotovelam os carros autônomos, drones, o crescimento do vídeo 4K, aplicações em realidade virtual e aumentada, jogos móveis, dentre outros. A AT&T estima que esses citados vão consumir 75% do tráfego móvel dentro de 3 anos. Na prática, todos eles dependem do 5G. Considere-se que as operadoras de telefonia estavam entre os melhores negócios do mundo  há 10 anos e hoje atravessam a fase mais difícil da história para elas. It’s now or never. Isso ajuda, em parte, a entender o atual cenário.

Deve-se levar em conta também a onipresença da China nos diversos mercados. Ela dá de ombros para os “valores burgueses”, como lealdade na concorrência.

Por fim, alguns valores que já foram caros ao mercado, estão se esfacelando do dia para a noite. Por exemplo, as grandes marcas. Apple, Google e Tesla se preparam para enfrentarem Ford, General Motors, Toyota, Mercedez e outras tradicionais no mercado de carros. Laboratórios que desenvolvem química fina há séculos, em vários segmentos, se fundem e confundem com novas marcas. Até a IBM, que já foi o símbolo maior da informática, hoje é desconhecida da maioria dos internautas iniciantes. Por que, então, investir tanto na imagem “moral” da marca? Talvez seja essa pergunta que está a espera da principal resposta.

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sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

O GRITO DA PRIMEIRA DAMA




Não tem nada a ver com alguma trama policial. O “grito” de Michelle Bolsonaro, esposa do Presidente Jair Messias Bolsonaro, ecoou um chamamento corajoso entre milhões de brasileiros surdos e vibrou nos corações de toda a nação. No primeiro dia deste 2019, durante a posse presidencial, a bela e discreta imagem feminina da Primeira Dama quebrou o protocolo da cerimônia e discursou em libras – língua brasileira de sinais – antes do próprio presidente falar. Colocou em destaque, no mais alto lugar do Planalto, os portadores de deficiências.

Estatisticamente esse contingente gira em torno de 10% da população. A maioria desse percentual não tem deficiências totalmente incapacitantes. Eles representam um imenso potencial intelectual e de mão de obra. Mais um recurso precioso que o Brasil desperdiça. Dessa vez, foram eles os primeiros a receberem os agradecimentos pela jornada eleitoral vitoriosa. Foram os primeiros a receberem uma promessa oficial de que “serão valorizados e terão seus direitos respeitados.”

Na posse do presidente, que há muitos anos é acusado de misoginia, foi exatamente sua mulher que tomou a frente do evento, para dizer por quem vai lutar. Um contraponto simbólico de afirmação política para o presidente! Mas também um compromisso difícil de ser escamoteado, uma vez que repercutiu muito além das fronteiras e com intensidade.

Historicamente o Brasil tem demonstrado uma vocação para o assistencialismo, a despeito dos vários significados desse termo em diferentes juízos de valores. Algumas alcunhas acompanham essa tradição, apontam um destino selado metafisicamente para o país. Porém, no mundo concreto, o Brasil tem justificado em parte essa expectativa com uma expressiva contribuição tecnológica.

Dentre outros exemplos, são vários os aplicativos desenvolvidos aqui para ajudar no cotidiano de pessoas portadoras de diferentes tipos de deficiências. De acordo com o site UOL, do grupo Folha, em seguida ao discurso da Primeira Dama estouraram as buscas por um aplicativo desenvolvido em uma empresa alagoana, de Maceió. O app da empresa Hand Talk traz um avatar, o Hugo, que traduz frases escritas ou faladas em português para a língua de sinais.


O “GOOGLE DA CAATINGA” E MAIS


Quando Michelle Bolsonaro falou em “direitos respeitados” ela foi técnica. A legislação brasileira já consagrou muitos direitos para pessoas com deficiência que não são respeitados. Como exemplo, os sites de órgãos do governo e de estatais que, por força de uma lei federal de 2015, são obrigados a tornarem acessíveis seus conteúdos a pessoas com deficiência. Não é o que se vê em todas as páginas eletrônicas abrangidas pela lei.

O que se observa nesses casos é uma dinâmica peculiar. Uma lei entra em vigor e algumas grandes organizações adotam as exigências. Depois de um período o setor envolvido vai avaliar se a lei “pegou”, se está sendo fiscalizada pelo governo e pelo mercado. Só então o ordenamento vai se consolidar. Ou não.

A EiTV é atuante nesse viés tecnológico de inclusão. Recebeu prêmio Finep pelo aprimoramento nas legendas de closed caption. E agora, junto a outra empresa, prepara o desenvolvimento de uma ferramenta para inclusão de um avatar libras, como opção da TV digital para surdos. Mas o vaivém da fiscalização – ora rigorosa, ora excessivamente tolerante – atrapalha os investimentos nessas tecnologias.

O site UOL destaca o prêmio que a Hand Talk recebeu em 2013 da ONU, pelo Melhor Aplicativo Social do mundo! Uma conquista surpreendente, uma vez que a libras, como diz o próprio nome, é brasileira. Não é eficiente utiliza-la para se comunicar com um surdo formado em outra cultura.

Como no Brasil a fiscalização não garante o mercado que o aplicativo mereceria – e merecem, principalmente, os surdos brasileiros – essa notoriedade tem servido para atrair parceiros internacionais de peso. O Google, que oferece aplicativo para tradução de dezenas de idiomas entre si, é um deles. Fez um convite para um programa de “aceleração” da empresa.

Por iniciativa própria a Hand Talk agora desenvolve um aplicativo do para a ASL, a língua americana de sinais. Como não há equivalência com a libras, o trabalho deve ser longo. A inteligência artificial, que já está turbinando o aplicativo para libras, vai fazer parte do aplicativo que será lançado no mercado americano.

Aqui no Brasil, por enquanto, somos uma razoável referência quando se trata de criar leis e de desenvolver tecnologias para a inclusão de pessoas com deficiência. Falta agora a necessária seriedade, que a Primeira Dama está prometendo, para que a nossa criatividade encontre retorno no mercado.


NO ESPAÇO E TAMBÉM NO TEMPO


Tudo indica que, quando fez a promessa, Michelle Bolsonaro sabia do que estava falando. Há tempo ela trabalha voluntariamente para pessoas com deficiências, o que deve lhe valer conhecimento de causa.

No próprio discurso a Primeira Dama deu sinais da visão de liderança que para esse ambiente. Ela fez questão de agradecer e enaltecer o trabalho dos intérpretes de libras, numa demonstração de que, a valorização dos vários segmentos nesse tipo de trabalho, é fundamental para se atingir qualquer meta de atendimento e de eficiência.

A dúvida fica por conta do Presidente. Será que, ao concordar com a promessa, ele tinha uma visão real do tamanho do desafio? Em muitos aspectos o Brasil é uma prisão para grande parte das pessoas com deficiência. Os próprios órgãos públicos de assistência e promoção social, de saúde, educação e mesmo de apoio à recolocação profissional, não estão preparados para atender esses brasileiros.

Os programas de moradias populares não oferecem as condições desejáveis para um cadeirante, por exemplo. Portas muito estreitas, cômodos apertados que não permitem um acesso confortável. Faltam rampas em várias repartições, elevadores também, piso tátil para cegos e indicações em braile também são raros. As calçadas, que seriam o primeiro passo para fora de casa, não têm qualquer especificação legal para projetos que garantam o direito de ir e vir de portadores de deficiências em geral.

Ao atentar para esses detalhes o Presidente vai precisar também de uma longa conversa com o Ministro Marcos Pontes. Pois a inovação tecnológica, principalmente com o apoio da inteligência artificial (AI), internet das coisas (IoT) e conexão imediata (5G), representa a maior esperança, no momento, de um mundo mais inclusivo. Engenhos dos mais diferentes tipos e tamanhos vão ser associados às nossas vidas, desde os nano robôs imersos na corrente sanguínea, ou conectados a neurônios, até os exoesqueletos que podem nos livrar de cadeiras de rodas ou suprir sequelas de mutilações.

É importante lembrar que, com o crescimento da expectativa de vida, a “quantidade de vida” tende a avançar um pouco sobre a qualidade de vida. O que pode nos tornar, durante algum tempo, portadores de determinadas deficiências. Por isso, o grito de Michelle, que ecoou amplamente pelo espaço, precisa avançar também ao longo do tempo.

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sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

A CHINA NA LUA



Quando Neil Armstrong pisou na Lua, em 1969, consolidou-se um dos mais ambiciosos programas de marketing já preparados na Terra. É o que garantem alguns executivos americanos que acompanharam a fase áurea do programa espacial dos Estados Unidos.

Reza a lenda que foi o presidente John Kennedy quem teve o insight. Com o avanço do programa espacial soviético, a bordo do Sputinik, Kennedy teria colocado como missão a chegada do primeiro homem à Lua. O feito buscava colocar os Estados Unidos como a meca da tecnologia, o máximo em ciência, a locomotiva do conhecimento humano. Conceitos que deveriam refletir nas vendas de produtos americanos pelo mundo. Parece que deu certo.

Agora é a China, a meca dos camelódromos, quem exibe credenciais lunares. As missões Chang’e já tinham chegado à Lua em 2013, com o Chang’e-3. Porém, o destaque histórico da missão Chang’e-4, que chegou à Lua nesta semana, foi o local de aterrissagem (desculpem, alunissagem, porque o pouso foi na Lua, não na Terra). A sonda pousou no chamado “lado afastado” do satélite natural. Um ponto do Universo especialmente importante para nós.

O que isso deve representar para o marketing dos produtos chineses? Muito provavelmente o governo de Pequim não está pensando em usar esse feito numa manobra de varejo. É mais provável que se encontre justificativas militares ou de algum valor estratégico no tabuleiro geopolítico. Mas é inegável que, a partir de agora, começa a mudar nosso olhar sobre os produtos chineses.

A China sempre teve a marca de “estranheza”, de difícil compreensão entre os ocidentais. Uma língua muito diferente, escrita diferente, hábitos e cultura muito diferentes, até o fenótipo. Agora é o maior país comunista do mundo mas é o segundo mais capitalista. Fez uma revolução marxista, onde o foco é o trabalhador, mas está entre os países com piores condições de trabalho. Vai entender...


THE DARK SIDE OF THE MOON


Menos de 4 anos após a chegada do homem a Lua a banda inglesa Pink Floyd lançou seu álbum de maior sucesso, The Dark Side of the Moon, ou “o lado escuro da Lua”, em tradução livre. Para os leigos, era uma referência meramente poética. Na verdade, trata-se de uma realidade astronômica e também poética, mais ainda.

Há uma sincronia entre os movimentos de rotação e translação da Terra e da Lua. Isso faz com que uma parte do nosso satélite natural nunca seja observável de qualquer ponto da Terra. Mais ou menos como um casal que dança uma valsa no salão, rodopiando pra lá e pra cá, mas sempre face a face, um encarando o outro. Se durante uma valsa, o cavalheiro quiser olhar alguma coisa nas costas da moça, ele não tem como faze-lo, a não ser que passem em frente a algum espelho.

Até isso a China teve que inventar. Lançou o satélite Queqiao, que fica numa “vaga gravitacional” entre as órbitas da Terra e da Lua. Ele faz mais ou menos o papel de um espelho, uma antena que rebate as ondas eletromagnéticas de comunicação da China com a sonda.

E se você ficou pensando por que o cavalheiro se interessaria em olhar alguma coisa nas costas de sua parceira de valsa, nas “costas” da Lua há indícios de que muita coisa pode ser encontrada. Começa pela cratera Von Kármán que tem uma área equivalente a cerca de metade do território brasileiro e profundidade de 13 Km. Bem grande, em se tratando de um astro que tem uma superfície quase 14 vezes menor do que a da Terra. Acredita-se que ela surgiu de um mega impacto de algum asteroide. Na prática, ele teria feito um trabalho de estratigrafia, ou seja, aprofundou muito a visão de camadas da formação da Lua. Informações importantes sobre todo o Sistema Solar.

Além disso, por não ter qualquer ponto “de visada” em relação a nós, o lado afastado, ou lado oculto da Lua não deve ter recebido antes qualquer onda eletromagnética artificial emitida daqui. Ou seja, não há qualquer interferência para estudos astronômicos, é um privilegiado boulevard para se observar o resto do Universo.

Além do “jipinho” Yutu-2 que a sonda já colocou em solo, levou também um espectrômetro, para rastrear a presença de minerais e um experimento curioso. Um pequeno contêiner, do tamanho de um nécessaire, onde funciona uma micro biosfera, com sementes de batata, de um outro vegetal muito usado em pesquisas biológicas e ovos do bicho da seda. É que o lado afastado da Lua só é “escuro” para nós, mas recebe normalmente a luz solar. A expectativa é de que as plantas produzam oxigênio por fotossíntese – além do que já está no contêiner – e contribuam para o desenvolvimento das larvas do bicho da seda.


O LADO ESCURO DA CHINA


A China é um estado abertamente fechado. Diferente do que acontecia aqui nos anos 70 do século passado, quando se dizia que o cidadão brasileiro não tinha qualquer limitação em suas liberdades, lá a chamada “revolução” não está muito preocupada com o que o povo pensa sobre o governo. Cumpra-se, e estamos conversados.

Isso reflete até no tráfego de Internet e deve ter repercussão também na divulgação de informações científicas. Não se sabe quanto do que vai ser descoberto na Lua chegará ao resto do mundo, pois nem os cientistas têm autonomia para divulgarem o que acham necessário.

Em cima desse suspense tem um suspense maior, ou seja, o que a China vai fazer a partir dos conhecimentos que pode obter por lá. O sonho de supremacia que todas as potências mundiais aspiram, no caso da China não leva nenhum disfarce. Eles querem o poder para fazerem o que acharem necessário, onde acharem necessário, segundo os objetivos da revolução. Que ninguém sabe exatamente quais são.

Há algum tempo já se sabe que os chineses produzem tecnologia competitiva nas várias áreas mas agora, o que acaba de acontecer, aos olhos do mundo todo, é a conclusão de um feito científico histórico de destaque, com repercussão global. O fato em si já é glorioso, mas revela ainda o sucesso de todo um projeto educacional, tecnológico e científico, que permitiu a eles chegarem onde estão.

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