sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

O GRITO DA PRIMEIRA DAMA




Não tem nada a ver com alguma trama policial. O “grito” de Michelle Bolsonaro, esposa do Presidente Jair Messias Bolsonaro, ecoou um chamamento corajoso entre milhões de brasileiros surdos e vibrou nos corações de toda a nação. No primeiro dia deste 2019, durante a posse presidencial, a bela e discreta imagem feminina da Primeira Dama quebrou o protocolo da cerimônia e discursou em libras – língua brasileira de sinais – antes do próprio presidente falar. Colocou em destaque, no mais alto lugar do Planalto, os portadores de deficiências.

Estatisticamente esse contingente gira em torno de 10% da população. A maioria desse percentual não tem deficiências totalmente incapacitantes. Eles representam um imenso potencial intelectual e de mão de obra. Mais um recurso precioso que o Brasil desperdiça. Dessa vez, foram eles os primeiros a receberem os agradecimentos pela jornada eleitoral vitoriosa. Foram os primeiros a receberem uma promessa oficial de que “serão valorizados e terão seus direitos respeitados.”

Na posse do presidente, que há muitos anos é acusado de misoginia, foi exatamente sua mulher que tomou a frente do evento, para dizer por quem vai lutar. Um contraponto simbólico de afirmação política para o presidente! Mas também um compromisso difícil de ser escamoteado, uma vez que repercutiu muito além das fronteiras e com intensidade.

Historicamente o Brasil tem demonstrado uma vocação para o assistencialismo, a despeito dos vários significados desse termo em diferentes juízos de valores. Algumas alcunhas acompanham essa tradição, apontam um destino selado metafisicamente para o país. Porém, no mundo concreto, o Brasil tem justificado em parte essa expectativa com uma expressiva contribuição tecnológica.

Dentre outros exemplos, são vários os aplicativos desenvolvidos aqui para ajudar no cotidiano de pessoas portadoras de diferentes tipos de deficiências. De acordo com o site UOL, do grupo Folha, em seguida ao discurso da Primeira Dama estouraram as buscas por um aplicativo desenvolvido em uma empresa alagoana, de Maceió. O app da empresa Hand Talk traz um avatar, o Hugo, que traduz frases escritas ou faladas em português para a língua de sinais.


O “GOOGLE DA CAATINGA” E MAIS


Quando Michelle Bolsonaro falou em “direitos respeitados” ela foi técnica. A legislação brasileira já consagrou muitos direitos para pessoas com deficiência que não são respeitados. Como exemplo, os sites de órgãos do governo e de estatais que, por força de uma lei federal de 2015, são obrigados a tornarem acessíveis seus conteúdos a pessoas com deficiência. Não é o que se vê em todas as páginas eletrônicas abrangidas pela lei.

O que se observa nesses casos é uma dinâmica peculiar. Uma lei entra em vigor e algumas grandes organizações adotam as exigências. Depois de um período o setor envolvido vai avaliar se a lei “pegou”, se está sendo fiscalizada pelo governo e pelo mercado. Só então o ordenamento vai se consolidar. Ou não.

A EiTV é atuante nesse viés tecnológico de inclusão. Recebeu prêmio Finep pelo aprimoramento nas legendas de closed caption. E agora, junto a outra empresa, prepara o desenvolvimento de uma ferramenta para inclusão de um avatar libras, como opção da TV digital para surdos. Mas o vaivém da fiscalização – ora rigorosa, ora excessivamente tolerante – atrapalha os investimentos nessas tecnologias.

O site UOL destaca o prêmio que a Hand Talk recebeu em 2013 da ONU, pelo Melhor Aplicativo Social do mundo! Uma conquista surpreendente, uma vez que a libras, como diz o próprio nome, é brasileira. Não é eficiente utiliza-la para se comunicar com um surdo formado em outra cultura.

Como no Brasil a fiscalização não garante o mercado que o aplicativo mereceria – e merecem, principalmente, os surdos brasileiros – essa notoriedade tem servido para atrair parceiros internacionais de peso. O Google, que oferece aplicativo para tradução de dezenas de idiomas entre si, é um deles. Fez um convite para um programa de “aceleração” da empresa.

Por iniciativa própria a Hand Talk agora desenvolve um aplicativo do para a ASL, a língua americana de sinais. Como não há equivalência com a libras, o trabalho deve ser longo. A inteligência artificial, que já está turbinando o aplicativo para libras, vai fazer parte do aplicativo que será lançado no mercado americano.

Aqui no Brasil, por enquanto, somos uma razoável referência quando se trata de criar leis e de desenvolver tecnologias para a inclusão de pessoas com deficiência. Falta agora a necessária seriedade, que a Primeira Dama está prometendo, para que a nossa criatividade encontre retorno no mercado.


NO ESPAÇO E TAMBÉM NO TEMPO


Tudo indica que, quando fez a promessa, Michelle Bolsonaro sabia do que estava falando. Há tempo ela trabalha voluntariamente para pessoas com deficiências, o que deve lhe valer conhecimento de causa.

No próprio discurso a Primeira Dama deu sinais da visão de liderança que para esse ambiente. Ela fez questão de agradecer e enaltecer o trabalho dos intérpretes de libras, numa demonstração de que, a valorização dos vários segmentos nesse tipo de trabalho, é fundamental para se atingir qualquer meta de atendimento e de eficiência.

A dúvida fica por conta do Presidente. Será que, ao concordar com a promessa, ele tinha uma visão real do tamanho do desafio? Em muitos aspectos o Brasil é uma prisão para grande parte das pessoas com deficiência. Os próprios órgãos públicos de assistência e promoção social, de saúde, educação e mesmo de apoio à recolocação profissional, não estão preparados para atender esses brasileiros.

Os programas de moradias populares não oferecem as condições desejáveis para um cadeirante, por exemplo. Portas muito estreitas, cômodos apertados que não permitem um acesso confortável. Faltam rampas em várias repartições, elevadores também, piso tátil para cegos e indicações em braile também são raros. As calçadas, que seriam o primeiro passo para fora de casa, não têm qualquer especificação legal para projetos que garantam o direito de ir e vir de portadores de deficiências em geral.

Ao atentar para esses detalhes o Presidente vai precisar também de uma longa conversa com o Ministro Marcos Pontes. Pois a inovação tecnológica, principalmente com o apoio da inteligência artificial (AI), internet das coisas (IoT) e conexão imediata (5G), representa a maior esperança, no momento, de um mundo mais inclusivo. Engenhos dos mais diferentes tipos e tamanhos vão ser associados às nossas vidas, desde os nano robôs imersos na corrente sanguínea, ou conectados a neurônios, até os exoesqueletos que podem nos livrar de cadeiras de rodas ou suprir sequelas de mutilações.

É importante lembrar que, com o crescimento da expectativa de vida, a “quantidade de vida” tende a avançar um pouco sobre a qualidade de vida. O que pode nos tornar, durante algum tempo, portadores de determinadas deficiências. Por isso, o grito de Michelle, que ecoou amplamente pelo espaço, precisa avançar também ao longo do tempo.

x

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

A CHINA NA LUA



Quando Neil Armstrong pisou na Lua, em 1969, consolidou-se um dos mais ambiciosos programas de marketing já preparados na Terra. É o que garantem alguns executivos americanos que acompanharam a fase áurea do programa espacial dos Estados Unidos.

Reza a lenda que foi o presidente John Kennedy quem teve o insight. Com o avanço do programa espacial soviético, a bordo do Sputinik, Kennedy teria colocado como missão a chegada do primeiro homem à Lua. O feito buscava colocar os Estados Unidos como a meca da tecnologia, o máximo em ciência, a locomotiva do conhecimento humano. Conceitos que deveriam refletir nas vendas de produtos americanos pelo mundo. Parece que deu certo.

Agora é a China, a meca dos camelódromos, quem exibe credenciais lunares. As missões Chang’e já tinham chegado à Lua em 2013, com o Chang’e-3. Porém, o destaque histórico da missão Chang’e-4, que chegou à Lua nesta semana, foi o local de aterrissagem (desculpem, alunissagem, porque o pouso foi na Lua, não na Terra). A sonda pousou no chamado “lado afastado” do satélite natural. Um ponto do Universo especialmente importante para nós.

O que isso deve representar para o marketing dos produtos chineses? Muito provavelmente o governo de Pequim não está pensando em usar esse feito numa manobra de varejo. É mais provável que se encontre justificativas militares ou de algum valor estratégico no tabuleiro geopolítico. Mas é inegável que, a partir de agora, começa a mudar nosso olhar sobre os produtos chineses.

A China sempre teve a marca de “estranheza”, de difícil compreensão entre os ocidentais. Uma língua muito diferente, escrita diferente, hábitos e cultura muito diferentes, até o fenótipo. Agora é o maior país comunista do mundo mas é o segundo mais capitalista. Fez uma revolução marxista, onde o foco é o trabalhador, mas está entre os países com piores condições de trabalho. Vai entender...


THE DARK SIDE OF THE MOON


Menos de 4 anos após a chegada do homem a Lua a banda inglesa Pink Floyd lançou seu álbum de maior sucesso, The Dark Side of the Moon, ou “o lado escuro da Lua”, em tradução livre. Para os leigos, era uma referência meramente poética. Na verdade, trata-se de uma realidade astronômica e também poética, mais ainda.

Há uma sincronia entre os movimentos de rotação e translação da Terra e da Lua. Isso faz com que uma parte do nosso satélite natural nunca seja observável de qualquer ponto da Terra. Mais ou menos como um casal que dança uma valsa no salão, rodopiando pra lá e pra cá, mas sempre face a face, um encarando o outro. Se durante uma valsa, o cavalheiro quiser olhar alguma coisa nas costas da moça, ele não tem como faze-lo, a não ser que passem em frente a algum espelho.

Até isso a China teve que inventar. Lançou o satélite Queqiao, que fica numa “vaga gravitacional” entre as órbitas da Terra e da Lua. Ele faz mais ou menos o papel de um espelho, uma antena que rebate as ondas eletromagnéticas de comunicação da China com a sonda.

E se você ficou pensando por que o cavalheiro se interessaria em olhar alguma coisa nas costas de sua parceira de valsa, nas “costas” da Lua há indícios de que muita coisa pode ser encontrada. Começa pela cratera Von Kármán que tem uma área equivalente a cerca de metade do território brasileiro e profundidade de 13 Km. Bem grande, em se tratando de um astro que tem uma superfície quase 14 vezes menor do que a da Terra. Acredita-se que ela surgiu de um mega impacto de algum asteroide. Na prática, ele teria feito um trabalho de estratigrafia, ou seja, aprofundou muito a visão de camadas da formação da Lua. Informações importantes sobre todo o Sistema Solar.

Além disso, por não ter qualquer ponto “de visada” em relação a nós, o lado afastado, ou lado oculto da Lua não deve ter recebido antes qualquer onda eletromagnética artificial emitida daqui. Ou seja, não há qualquer interferência para estudos astronômicos, é um privilegiado boulevard para se observar o resto do Universo.

Além do “jipinho” Yutu-2 que a sonda já colocou em solo, levou também um espectrômetro, para rastrear a presença de minerais e um experimento curioso. Um pequeno contêiner, do tamanho de um nécessaire, onde funciona uma micro biosfera, com sementes de batata, de um outro vegetal muito usado em pesquisas biológicas e ovos do bicho da seda. É que o lado afastado da Lua só é “escuro” para nós, mas recebe normalmente a luz solar. A expectativa é de que as plantas produzam oxigênio por fotossíntese – além do que já está no contêiner – e contribuam para o desenvolvimento das larvas do bicho da seda.


O LADO ESCURO DA CHINA


A China é um estado abertamente fechado. Diferente do que acontecia aqui nos anos 70 do século passado, quando se dizia que o cidadão brasileiro não tinha qualquer limitação em suas liberdades, lá a chamada “revolução” não está muito preocupada com o que o povo pensa sobre o governo. Cumpra-se, e estamos conversados.

Isso reflete até no tráfego de Internet e deve ter repercussão também na divulgação de informações científicas. Não se sabe quanto do que vai ser descoberto na Lua chegará ao resto do mundo, pois nem os cientistas têm autonomia para divulgarem o que acham necessário.

Em cima desse suspense tem um suspense maior, ou seja, o que a China vai fazer a partir dos conhecimentos que pode obter por lá. O sonho de supremacia que todas as potências mundiais aspiram, no caso da China não leva nenhum disfarce. Eles querem o poder para fazerem o que acharem necessário, onde acharem necessário, segundo os objetivos da revolução. Que ninguém sabe exatamente quais são.

Há algum tempo já se sabe que os chineses produzem tecnologia competitiva nas várias áreas mas agora, o que acaba de acontecer, aos olhos do mundo todo, é a conclusão de um feito científico histórico de destaque, com repercussão global. O fato em si já é glorioso, mas revela ainda o sucesso de todo um projeto educacional, tecnológico e científico, que permitiu a eles chegarem onde estão.

x