sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

VAI SER ASSIM, TOTALMENTE DIFERENTE




O ambiente típico das festas de final de ano tem uma TV ligada. São eventos ditos “coletivos”, sociais, muita gente reunida, literalmente, esperando o tempo passar. No resto do ano isso pode significar preguiça, algum tédio. Mas, se o tempo que vai passar acaba no Natal ou num ano novo, o sinal se inverte, fica todo mundo alucinado.

Num caso a parte, em que a pessoa fica sozinha, por força de algum trabalho ou compromisso, entra em cena o computador. Na modalidade smartphone ou notebook, um computador desses representa um certo isolamento daquele ambiente físico, te leva pra bem longe.

Seja lá qual for a razão dessas preferências, tecnicamente elas não se explicam mais. A imensa maioria dos televisores vendidos hoje é smart, tem computador integrado, permite navegação na Internet. Computadores de todo tipo encontram alternativas para acessar canais de TV. A diferença é no tamanho da tela. A concorrência fica entre os fabricantes de hardware. E para quem produz o conteúdo, toda tela é tela, tem de ser conquistada.

O streaming, que chegou até pelo box do videogame, foi um dos principais atores dessa hibridação. Surgiram os aplicativos de emissoras. E a coisa foi parar na justiça, subiu de novo para o Congresso. Sob muitos aplausos, e algumas vaias, o caminho é em direção à integração mais transparente possível entre o broadcast e o broadband, no popular, entre a TV e a banda larga. Quem fica ali pelo meio, como TVs por assinatura, está vaiando. Elas vendiam os diferenciais que melhoravam muito a experiência de ver TV: muito mais canais, melhor qualidade de som e imagem, conteúdos exclusivos. Nada que hoje não se possa obter de maneira mais simples e barata.

O que se pode supor, por enquanto, dessa trama imprevisível é que 2020 vai ser o ano da TV 2.5, a DTVPLAY. Ela deve ser a resposta tecnológica para aquilo que deve ser a solução mais aguardada no setor: a maior aproximação possível entre produtores de conteúdo e público, com se diz na roça, direto do produtor para o consumidor, sem atravessadores. A Globo, que já domina essa tecnologia, e ainda não conseguiu decolar com o Globo Play, tem tudo para apostar na DTVPLAY.

Os reguladores vão ter que aceitar a redução do papel deles no mundo da tecnologia de consumo. Nada de tentar produzir uma lei exemplar, “modelo no mundo todo”, como tentaram no SeAC. Em poucos anos se tornou uma dor de cabeça para o judiciário. A lei, sim, foi muito bem feita. Mas, para um mundo que deixou de existir em poucos anos. Na próxima semana pode aparecer um outro modelo de negócio tecnológico que vai mudar tudo de novo. Não dá para criar leis sobre o imprevisível, muito menos limitar o imprevisível às leis vigentes.

São vários os imbróglios criados por causa da regulação no audiovisual. Por exemplo, na briga entre a Fox e a Claro. A Fox+ disponibilizou a programação linear diretamente para o assinante, via streaming, sem passar por operadora de TV. A Claro, que também é dona da Net, reclamou do by-pass na Anatel: “se é assim, a Fox que se enquadre na lei do SeAC.” A Anatel achou justo e mandou a Fox tirar o canal linear do streaming. A briga está nos tribunais.

As grandes ligas esportivas, que arrastam centenas de milhões de clientes para operadoras e emissoras, estão criando serviços próprios de streaming. Tudo via Internet, mas para exibir preferencialmente numa grande tela, ou seja, num televisor. Tecnologias de imagem como 4K e HDR, ou som imersivo tipo MPEG-H, não dependem mais de cabo para chegar ao público. O que de mais importante essas operadoras de TV podem oferecer nesse novo contexto são a banda larga e o cadastro de clientes, com respectivos hábitos. 

Voltando à “integração transparente”, a ideia é que o consumidor simplesmente assista à TV. Ele não vai perceber se o sinal vem da Internet ou da radiofrequência comum (antena). A TV 2.5 tem uma certa “inteligência”, que vai apresentar na tela algumas opções. Depois de avaliar a capacidade da conexão e de processamento instalados e a qualidade do sinal que está chegando, pode aparecer uma caixa de diálogo: “Quer assistir à novela em 4K?” A radiofrequência comum ainda não comporta essa qualidade, mas se a conexão de Internet for suficiente, o próprio sistema oferece o streaming, sem que ninguém precise procurar a opção. Ou ainda, no meio da programação, vem o aviso de que vai começar determinado jogo, que está incluído no seu pacote. “Deseja assistir?” E o mais importante para os exibidores, os anúncios vão acompanhar cada telespectador. O sistema permite personalizar os anúncios exibidos, de acordo com as informações de hábitos de cada cliente. É aí que o caixa fica cheio.

A conclusão é de que ninguém sabe o que vai acontecer, mas já sabemos muitas das coisas que podem acontecer. Se continuar assim, tudo vai ser muito diferente, sempre, sempre.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

SABER É PRECISO, NAVEGAR, NEM TANTO




Você só vai ter certeza de que aprendeu determinada coisa quando, inesperadamente, aparece um problema relacionado àquela coisa, e você resolve. Até que isso aconteça, aprender é um verbo suposto, composto de mais uma palavra, o verbo “acho”. Ô diacho, aprendeu ou acha-que-aprendeu!?

Aprender, aliás, é o “Santo Graal” desse nosso tempo. A gente nem percebe, mas desde lá de cima, entre os poderosos, só se busca aprender: como prever as variações nas bolsas de valores, como baixar a inflação e os juros, aprender como gerar mais empregos, curar doenças, aprender tudo que precisa para o vestibular, tudo que vai cair num concurso público.

É aí mesmo onde começa uma história muito especial. Tão especial que começa com especialistas, tentando criar a técnica ideal para que cada um aprenda o que quiser, o que precisar. A meta: aprovação em concursos públicos.

Atenção para a extensão desse desafio! A decretação de todas as prisões, das solturas, as dívidas que precisam ser pagas, as que não são devidas, tudo é decidido por pessoas que foram aprovadas em concursos públicos. Toda a arrecadação do Brasil, dos estados e das cidades, tudo que um governo qualquer paga ou cobra, tudo acontece pelas mãos de concursados. Policiais de todos os níveis, diplomatas que defendem os interesses nacionais pelo mundo, todos e todas, passaram por concursos públicos.

Nem sempre os preparadores enxergam as coisas assim, mas todas essas responsabilidades estão ligadas ao aprendizado para enfrentar um concurso público. São importantíssimas, não só pela ética, mas também porque concurso público é feito, exatamente, para revelar quem tem condições de assumir tais responsabilidades.

Foram anos e anos de estudos dos especialistas, sempre testando cada técnica, aperfeiçoando, descontinuando, mudando. Tudo para criar mais do melhor. A inovação trouxe, como uma das bases do método de ensino desenvolvido, a UMA – Unidade Mínima de Aprendizado. Pense bem, quem não sabe assentar muito bem um tijolo, nunca vai construir uma boa casa. Assim, em cada aprendizado (de verdade, sem “acho”) são identificadas as bases fundamentais daquele conhecimento. É esse conjunto de pequenas e simples frações do saber, que vai edificar o mais complexo aprendizado. É isso que se transforma na mais perfeita aula de dez minutos de duração. Sim, muito bem pensada, direta e objetiva, sem chance de errar, sem nada para confundir.

A UMA é só uma parte da base do sistema. Tem técnicas específicas para selecionar todas as UMAs para cada curso, de cada concurso. Tem contatos presenciais, fixação de conceitos, técnicas de associação de conteúdos. Depois vem toda a parte do aluno. Cada um é previamente avaliado pelos especialistas, por psicólogo e médico. São orientados como estudar, como aprender, com o menor desgaste físico, mental e emocional. Ao longo do curso, mais avaliações, do psicólogo, do médico e agora, também de conhecimento. Não para por aí. O método TutorPlan, oferecido pela LOGGA, tem uma estrutura muito sólida.

A essa altura, você deve estar perguntando: onde fica, como precisa ser o lugar para que tudo isso aconteça, para que o acompanhamento de cada um seja tão completo? Esse foi um detalhe muito pesquisado pelos especialistas para o desenvolvimento do método. E o ambiente ideal para que tudo isso aconteça foi a EiTV CLOUD.

É uma plataforma digital, totalmente automatizada, que encaixa perfeitamente a disponibilidade de tempo de cada aluno ao atendimento integral que o método oferece. Cada aluno baixa o aplicativo LOGGA no smartphone ou no computador e começa a receber toda a orientação. Passa pelas avaliações, recebe as aulas em vídeo (UMAs), roteiros de estudos, solicita os contatos presenciais com os professores. Responde questionários, tudo com tempo controlado pelo sistema. Enquanto isso, professores e outros especialistas recebem relatórios precisos, acompanham o desempenho de cada um, fazem contatos pessoais, dão dicas. O sistema controla tudo que acontece, tanto do lado do aluno, como do lado do professor. E até recebe pagamentos, sem necessariamente imprimir boletos.

O aplicativo foi estruturado a partir da seleção de várias ferramentas que a EiTV CLOUD já tem prontas, para atender as mais diversas necessidades. Outras ferramentas foram desenvolvidas ao lado do cliente. A EiTV CLOUD “transporta” qualquer ambiente físico para envolver o aluno onde ele estiver. Pode ser na fila do banco, no ônibus, em casa, na pausa do trabalho, no avião. É lá que vai chegar a sala de aula, o laboratório, o professor, o aprendizado seguro.

A EiTV CLOUD é o ambiente digital ideal para treinamentos, seminários e muitos eventos educacionais e motivacionais. As ferramentas são todas personalizadas, com a marca e o layout que o cliente determinar. Conta com toda a assistência técnica, toda a infraestrutura é própria e o cliente só paga pelos bytes armazenados na nuvem. É um espaço aberto para a sua criatividade produzir seu melhor ambiente de negócios.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

UMA FÁBULA FINANCEIRA DA GESTÃO PÚBLICA





Essa é a história de mais um bilhão de reais vagando na administração pública brasileira. Neste caso, não tem nada a ver com corrupção, com sumiço de dinheiro público. Muito pelo contrário, trata-se de dinheiro disponível para ser aplicado, que ainda não pode ser tocado por questões burocráticas ou falta de projetos.

Pois é, há muitos bilhões de reais abandonados pela gestão pública. A maioria deles já são adolescentes, estão há 10 ou 15 anos jogados numa conta pública qualquer. Eles estão com medo, porque já viram muitos outros bilhões amiguinhos serem roubados. Outros, foram doados a estranhos, sem nenhum critério. O pior, para esses inocentes bilhões, é saber que, se algo de errado acontecer com eles, vão acabar nas manchetes dos jornais. E, mesmo lavados, ficarão conhecidos como dinheiro sujo.

O bilhão de reais dessa história está na conta do Gired – Grupo de Implantação da TV Digital. Ele e seus outros dois irmãozinhos, nascidos na mesma conta, já foram chamados de fracos, disseram por aí que eles não serviriam para nada. Os dois primeiros foram suficientes para dar conta da missão e agora, este último bilhão está ali, perdido sem saber o quê fazer.

A imagem de fábula é bem adequada para um país que tem, por exemplo, milhões de servidores públicos com salários atrasados e bilhões em dinheiro parados, sem uso. O Gired surgiu de uma inteligente “engenharia contábil” prevista no leilão da banda de 700 MHz, ocorrido em 2014. O objetivo era ter faixas de frequência para o 4G. Como as empresas de telefonia pediram o adiantamento do leilão, o governo disse que elas teriam de bancar o custo da “limpeza” daquela banda, que era ocupada por centenas de canais de TV analógica Brasil afora. A cada lote de frequências arrematado no leilão, a vencedora deveria destinar um dinheiro ao Gired, que ao final somou R$ 3,6 bilhões.

O custo dessa limpeza, na prática, seguiria para a compensações sociais que o governo precisaria fazer, já que a TV aberta é considerada estratégica para as comunicações sociais no Brasil. O dinheiro foi usado para comprar conversores digitais para a população carente, reembolsar emissoras digitais que tiveram que mudar de frequência, orientar a população sobre as mudanças, dentre outras providências. Foi feito tudo que era possível e sobrou o tal bilhão de reais.

Numa reunião do Gired, na semana passada, ficou decidido que o dinheiro vai ser usado para digitalizar o sinal de emissoras de prefeituras e para implantação de redes de fibras óticas na Amazônia.

Essas decisões são emblemáticas. Alguém seria capaz de dizer não às democráticas (?) TVs municipais, ou negar Internet para a Amazônia? Claro que não! Mais do que politicamente correto, é politicamente estético. Quem for contra vai ser taxado como um monstro desalmado. Mesmo sabendo que esses temas são, na verdade, um abracadraba para abrir as portas para muitas mãos avançarem contra o inocente bilhãozinho.

Mais uma vez, a ameaça não é corrupção ou roubo de dinheiro. É má gestão. É dinheiro destinado para projetos inexistentes, sequer esboçados. Daí que várias emissoras municipais possivelmente terão equipamentos superdimensionados. Outras, vão ficar sem. Aventureiros vão inventar projetos para Internet dos peixes, que querem protestar contra a poluição na Amazônia (se até as “coisas” têm Internet, por que não os peixes?).

Já se falou num cabo subaquático sob o leito de grandes rios da Amazônia. A ideia é bem aceita, mas há muitas dificuldades a serem vencidas. Não se sabe como ficaria o cabo sob as águas muito agitadas dos rios – diferentemente dos mares – e nem como seriam puxados os backbones para distribuição do sinal. Até a logística na selva é imprevisível. O tal bilhão, afinal, seria suficiente?

Será que, para a tal decisão, o Gired tem a relação das emissoras municipais que serão atendidas e o quanto vai ser necessário para cada uma delas? Alguém tem os critérios para determinar o que pode ser considerado um “projeto de fibras óticas para a Amazônia”? Mas ai de quem criticar a decisão: “-derrotista, tecnocrata, bitolado”.

A propósito, o dinheiro foi destinado ao Gired antes de saberem os problemas que teriam pela frente. Era para comprarem conversores para 14 milhões de famílias atendidas pelo Bolsa Família em todo o Brasil. Até que descobriram que em muitos dos nossos rincões, emissoras comerciais funcionam precariamente, não têm dinheiro para retransmissores e nem condições de acesso a várias torres. Faltam até profissionais para implantar e dar assistência técnica aos novos equipamentos. Por isso mudaram tudo e sobrou esse bilhão na conta.

Nas palavras do sábio Sêneca, o vento nunca sopra a favor de quem não sabe para onde vai. Assim como o vento, bilhões também nunca são suficientes para qualquer gestão sem projetos bem definidos.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

AS VÁRIAS FACES DA TECNOLOGIA DE CONSUMO





Lá na frente o Consultor, com os olhos arregalados, os dois braços unidos na frente do peito, flexionados como quem malha o bíceps; em cada uma das mãos, as pontas dos dedos estão unidas; o tom de voz está alterado e ele fala sílaba por sílaba: “-Imagine você indo para a sua casa e, antes que você chegue, as luzes da frente e dos cômodos da entrada se acendem; o ar condicionado liga na temperatura da sua preferência e o boyler começa a esquentar a água para o seu banho. Imagine só! Isso é o máximo!”

Você até franze a testa para não deixar o cara sem jeito, mas por dentro está pensando: “-Grande coisa! Eu não sou tão preguiçoso assim.” Naquele ambiente sério, na sala de reuniões da empresa, rola até uma piadinha na sua cabeça: “-Na casa do Tony, o Ricardão já pula pela janela. Kkkkkk.” Mas, se você trabalha com hotelaria, isso vai representar uma grande reflexão para o dia seguinte.

Hotel é o lugar onde precisa ter tudo de bom que existe na sua casa e na casa dos seus amigos cheios da grana. Tem que ter ainda o conforto dos personagens ricos das séries e novelas, e mais um pouco ainda. Afinal, é para o hotel que nos mandam, quando precisam tirar a gente do conforto do lar. Tem quem goste, mas uma parcela significativa odeia. Mesmo quando a viagem é de férias, quando um cunhado fez a cabeça da irmã – sua esposa – para reunir a família no fim de ano. No pacote, o destino que ele sonhou, mas vai rachar a conta com você.

Como faz muito tempo que o setor hoteleiro entendeu isso e investiu muito, para a maioria das pessoas, hotel é tudo de bom. Como tecnologia, que também é tudo de bom. Mesmo quando a tecnologia inventa um Airbnb da vida. As grandes redes sabem que precisam oferecer algo mais do que a concorrência, tanto dentro do setor hoteleiro, como fora dele. Em recente publicação, o site ComputerWorld conversou com especialistas de grandes redes hoteleiras sobre algumas tendências tecnológicas para os hotéis. Entre os cases estão marcas como Hilton, Marriot, Ruby Collection, Starwoods.

As mudanças começam do começo. O check in não precisa mais acontecer naqueles enormes lobbies, sobre balcões charmosos de madeira ou mármore. São feitos em quiosques, pelos próprios hóspedes, como nos aeroportos. Os aposentos disponíveis podem ser escolhidos na tela. No Hilton, por exemplo, o check in pode ser pelo smartphone e o hóspede pode personalizar sua estadia, escolhendo as comodidades de sua preferência. Também em outras redes, nas unidades de alguns países, a bagagem é transportada por um robô. Que não fica esperando sua gorjeta na porta.

Acesso ao elevador já acontece por reconhecimento facial e a porta do apartamento abre pelo sinal do celular, quando você se aproxima. A temperatura e as luzes do ambiente, você também já escolheu no check in.

Muito bem, você já está dentro do quarto e os comandos acontecem por um toque num tablet ou até por voz. Tem comando para abrir ou fechar a cortina, ligar a TV, pedir informações sobre a academia ou cozinha. Se quiser uma toalha extra, por exemplo, o robô volta para traze-la. E pensar que algum dia você se sentiu escravo da tecnologia porque não conseguia ficar sem o controle remoto da TV...

Ah, a conexão, mais uma vez, a conexão ganha mais importância. O televisor é importante, mas o conteúdo, muito mais. O hóspede tem os canais de sua preferência, mas também os serviços prediletos de streaming, ou mesmo podcasts. É a oportunidade de faze-lo se sentir em casa, já que o modelo do colchão, o travesseiro e o tempero de comida, dificilmente vão bater com o que o hotel oferece.

É nesse ponto que cabe citar um case de sucesso, voltado para o capítulo da concorrência. Essas tecnologias são caras e, originalmente, projetadas para atender demandas pessoais, num contexto doméstico. É quando um outro lado da tecnologia tem de entrar em campo. O da eficiência, da reorganização dos recursos, por meio de projetos impregnados de inteligência e muita experiência profissional. A EiTV, então, aparece na cena.

A experiência, no caso, veio de um sistema que a EiTV desenvolveu para as Olimpíadas Rio 2016, ao lado de uma das maiores fabricantes de equipamentos audiovisuais do mundo. O sistema distribui sinal de TV – aberta ou a cabo – em muitas telas independentes. O usuário de cada tela pode escolher o canal que quiser, sem precisar de um set-top box no local. Para os hotéis, o custo de manutenção é muito menor. A conversão do sistema atual para o sistema da EiTV pode ser feita utilizando o mesmo cabeamento de RF que já está instalado no hotel. Esse é o lado da tecnologia que nunca pode ser esquecido: mais eficiência com menor custo.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

TECNOLOGIAS DISRUPTIVAS, OU SOMENTE ROMPIDAS




Há pouco tempo “convergência” era a palavra da moda. Indicava a tendência de produtos eletrônicos, com origens diferentes, passarem a funcionar sobre uma plataforma muito semelhante, digital. Foi assim com o telefone, o televisor, computador. Em alguns casos não se tratava mais de similaridade entre as máquinas, mas uma quase identidade, disfarçada apenas pelo design e pelo software. 

A convergência, no entanto, não deixou de acontecer, pelo contrário, ficou apenas mais discreta comercialmente. Agora tem grandes chances de começar a se revelar na transmutação de muitos produtos, tradicionalmente classificados em segmentos de mercado muito diferentes. Por exemplo, carros, computadores, smartphones e até aviões (ou aeronaves). Os sinais mais evidentes, curiosamente, aparecem nas animosidades entre marcas.

Ford, Chevrolet, Toyota, Mercedes Benz e tantas outras marcas parecem fazer de conta que não sabem do interesse de Apple, Google e outras marcas cibernéticas na produção de carros. Novos conceitos, novas aplicações. Mas, carros. No meio desse tabuleiro, Ellon Musk, o famoso sul-africano radicado nos Estados Unidos, começou a produzir carros elétricos. Foi muito bem por um bom tempo, deu uma encalhada no Model 3, que seria um elétrico mais acessível para novas faixas de mercado. Depois começou a criar polêmicas.

Primeiro hostilizando a imprensa, depois fazendo acusações sérias e descabidas contra a equipe de salvamento dos meninos que ficaram presos numa caverna inundada na Tailândia. Mais recentemente, foi alvo de denúncias por uso de drogas, como maconha e cocaína, nas instalações da empresa, em Hawthorne, Califórnia. Porém, depois de tanto desperdício de energia, ele parece ter escolhido uma briga, digamos, saudável, que pode lhe render algo.

Na semana passada, depois de lançar o CyberTruck, um veículo comercial médio, resolveu provocar a Ford. Esperou o final de semana e postou um vídeo no twitter com o CyberTruck Tesla e uma picape F-150 num “cabo de guerra”. Os dois veículos, unidos por um cabo de aço preso às traseiras, aceleraram, um para cada lado. No vídeo, o CyberTruck arrasta a picape da Ford.

A tradicional fabricante de carros e caminhões aceitou a provocação. Sunny Madra, VP da Ford-X, convidou Musk para trazer a CyberTruck para um outro teste, sob condições de igualdade previamente estabelecidas.

A provocação de Musk, dias depois do lançamento do seu mais novo modelo, deu mais visibilidade a um vexame que ele mesmo promoveu durante o evento. Num paradigma semelhante a outras marcas de tecnologia de consumo, Musk quis destacar detalhes surpreendentes de seu veículo. Deu marretadas na porta para demonstrar a resistência do material. A carroceria é de aço inoxidável laminado a frio. Algo tão resistente que influiu no design do carro, uma vez que não pode ser moldado com formas suaves. A engenharia do veículo usou essa resistência para dar mais funções à carroceria na estrutura do carro.

Mas os engenheiros dos vidros não tiveram a mesma sorte. Criaram o “inquebrável” Tesla Armour Glass, tecnologia que inflou o orgulho da marca a ponto de ser batizado como filha legítima. E que quebrou no primeiro teste, ao vivo, fazendo o rei Musk se dar conta da imediata nudez. Pior foi a desculpa que ele mesmo arrumou, novamente via redes sociais. “Explicou” que as batidas da marreta na porta abalaram o vidro. Ahã! Deve vai sair de fábrica com um adesivo do tipo “vidro inquebrável – desde que feche a porta com delicadeza”.

Enrubescimentos à parte, o lançamento pode, sim, revelar-se um bom golpe de marketing. Tanto para o CyberTruck, que mostrou qualidades inegáveis, como para a Ford, que já não é mais aquela Ford toda, e anda precisando de holofotes. Momentos como esse despertam para os novos rumos da indústria. Faz tempo que não se vende mais carro falando do motor. O que faz a diferença é o computador de bordo, comandos de voz, manobras autônomas e outras peripécias digitais. Carros tendem à motorização elétrica, assim como aeronaves, pelo menos as do tipo que o Uber vem anunciando para as grandes cidades. Com o desenvolvimento de novos materiais, as perspectivas de uma nova “convergência” tecnológica tende a se acentuar. Quem sabe, até chegar a “transformers” pacíficos, funcionais.

O CyberTruck terá opções de dois ou três motores e as baterias podem ter autonomia de 400 a 800Km, dependendo da escolha do cliente. Vai de zero a 100Km/h em 6,5 segundos e pode carregar até 1,6 tonelada de carga. Só vai chegar ao mercado em 2021, a partir do preço de US$ 40 mil porém, segundo a empresa, já foram encomendadas 200 mil unidades. Como a encomenda custa US$ 100,00, nem é tão difícil colocar o nome na lista. Vai ser interessante saber, daqui a dois anos, quem de fato vai completar os US$ 40 mil para retirar o carro.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

DINHEIRO, PRA QUÊ DINHEIRO!?




Fim de ano e as contas governamentais ganharam tipo um “décimo terceiro”. Os R$ 70 bilhões do leilão do pré-sal destravaram todas as verbas contingenciadas nos ministérios, repuseram em atividade várias obras, vão pagar salários atrasados de servidores de vários estados e municípios.

A magnitude desse valor é algo para se refletir. É mais do que a soma de todos os leilões de petróleo realizados pela Petrobras, desde a década de 1990. Foi o maior leilão do gênero já realizado no mundo. No orçamento do Governo Federal, esse valor corresponde à quase o dobro de todo o investimento previsto para este ano de 2019, já que as despesas obrigatórias, as receitas vinculadas, são as que consomem mais dinheiro. Imagine se chegasse aos R$ 106 bilhões previstos inicialmente!

Sob um determinado ponto de vista pode-se supor que não aconteceria nada. Em uma audiência pública, realizada nessa semana, sobre a qualidade da telefonia móvel, foi citado um fato emblemático. Falou-se sobre usar o dinheiro do Fust – Fundo de Universalização das Telecomunicações, para melhorar os serviços. O Fust foi criado com a privatização do sistema Telebrás, para levar os serviços de telecomunicações às regiões mais remotas e em áreas de pobreza.

Desde então a contribuição é recolhida por empresas ligadas ao setor, que repassam o valor para as contas que a população paga. Segundo José Bicalho, Diretor do SindiTelebrasil, que é o sindicato patronal das empresas, o Fust já arrecadou R$ 100 bilhões. Quase 50% a mais do que o valor arrecadado no leilão do pré-sal. Porém, só 8% desse valor foram usados. Segundo Bicalho, tem R$ 92 bilhões já arrecadados, esperando para serem usados em alguma coisa.

É por isso que uma proposta de emenda constitucional (PEC) prevê acabar com boa parte dos chamados fundos públicos, ou setoriais. São aqueles “tantos por cento” sobre o faturamento de determinados setores, que formam fundos destinados às melhores intenções. Em outras palavras, é dinheiro que chega sem um projeto prévio, visando realizar algo objetivo. Muitos outros fundos estão por aí, arrecadando muito, sem reverter em benefícios para a população, nem sequer aos setores aos quais estão vinculados.

A extinção desses fundos não significa, absolutamente, que algum tipo de problema estará resolvido. Se os valores deixarem de ser cobrados, antes será necessário se certificar que as empresas não vão incorpora-los ao preço, já que existe o hábito de paga-los, na tarifa que vem na conta da população.

Aqui é oportuno lembra de outra centena de bilhões que andou virando manchete neste ano. O Congresso Nacional aprovou a doação de bens reversíveis das concessões, para as empresas de telefonia que arremataram antigas subsidiárias da Telebrás. Pelo cálculo apresentado há alguns anos, o conjunto desses bens reversíveis valeria cerca de R$ 100 bilhões. Os deputados e senadores disseram que o objetivo da medida é exigir que o valor da doação seja revertido em investimentos para a expansão da infraestrutura de telecomunicações. É o mesmo objetivo para o qual ainda não foram usados R$ 92 bilhões do Fust.

Durante a mesma audiência pública, segundo informações do site Teletime, Henrique Lian, Diretor da Proteste, lembrou que de nada adianta o investimento em infraestrutura, se não houver beneficiários na outra ponta, usuários dos serviços. Pois a infraestrutura vai ficar sem uso, não vai ser amortizada, torna-se obsoleta e acaba representando mais um custo, o de desfazer uma solene orelhada gerencial. Diante da situação tão esdrúxula, o representante da Vivo, Enylson Camolesi, até sentiu-se à vontade para sugerir a criação de “uma espécie de bolsa”, talvez a bolsa celular ou bolsa banda larga, para que os usuários carentes usassem dinheiro do Fust para pagar serviços de telecomunicações.

Definitivamente, não é dinheiro que resolve problemas. É a criatividade, a imaginação capaz de gerar projetos interessantes. Vários investidores têm muito dinheiro esperando para fazer funcionar coisas úteis, pelas quais muitas pessoas vão pagar. De um modo geral a Administração Pública no Brasil não demonstra capacidade para criar soluções. Temos “apenas” o melhor pedaço de chão do mundo, sem terremotos nem furacões, com muita água, vento “funcional”, mercado interno, minérios em abundância – inclusive petróleo – terras agricultáveis. E temos dívidas, muitas dívidas.

Sob o ponto de vista em análise, faz sentido a redução de 40% nas verbas do Governo Federal para investimentos, em 2020. É o que está previsto no orçamento. Falta, porém, o planejamento para médio prazo, que deve se tornar a principal referência a ser considerada, quando mentes criativas pensarem em projetos para o Brasil crescer.


sexta-feira, 15 de novembro de 2019

PENSO, LOGO... POSSO PENSAR MELHOR AINDA




Você sabe onde fica a primeira Cidade Inteligente Social do mundo? Como ninguém vai acertar – a não ser quem já sabe – fica no Ceará, sem outra dica pra pensar. A proposta é muito diferente em tudo, a não ser no “social”, quase uma marca registrada brasileira. Tudo por aqui é “social”, inclusive o nome do maior problema que temos a resolver.

A cidade vai se chamar Laguna e terá cerca de 25 mil habitantes, pelo projeto original. Hoje faz parte do distrito de Croatá, pertencente ao município de São Gonçalo do Amarante, a 60 quilômetros da capital Fortaleza. A localização escolhida, dentre outros motivos, considerou a proximidade do porto de Pecém, da Companhia Siderúrgica de Pecém e da ferrovia Transnordestina, além de ter “logo ali” uma ZPE – Zona de Processamento de Exportação, uma espécie de polo industrial onde as empresas têm redução nos impostos.

Quando se diz “diferente em tudo” quer dizer, por exemplo, que começa por ser um projeto privado, de uma empresa ítalo-britânica, associada a uma empresa brasileira. O investimento é de US$ 50 milhões. Não tem dinheiro público nisso, até onde se sabe. É uma smart city porque, em seu projeto, vai conciliar o uso intensivo de tecnologias de ponta associadas aos conceitos de desenvolvimento humano, sustentabilidade e otimização da mobilidade urbana. E é social porque prevê lotes para projetos financiados pelo Minha Casa Minha Vida, para famílias com renda de até 1,5 salário mínimo. Portanto, vai ser necessário um tempo para confirmar o “social” da marca, uma vez que, com 1,5 salário mínimo não há desenvolvimento humano possível.

A cidade fica a poucos quilômetros de praias famosas, como Paracuru, Taíba, Cumbuco, Lagoinha e Flecheiras. Vai ter pavimento semi permeável para evitar enchentes, lagoas, cachoeiras, amplas áreas verdes e para esporte e lazer. Além de uma distribuição racional de comércio e serviços, sem exigir grandes deslocamentos, independentemente do bairro onde estiver. Tem ainda a previsão de parque tecnológico, hub de inovação, ilha para abastecimento de veículos elétricos, ciclovias, conexão total e gratuita em toda a cidade, totens digitais ... e vai ter também um aplicativo, onde cada morador poderá acessar até as câmeras de vigilância do seu trajeto.

Aplicativo! É por aí onde começam as mudanças nas cidades que já nasceram há tempo, cresceram muito e vivem um reumatismo crônico em todos seus papéis urbanísticos. É por aí também onde cresce uma indústria que pode transformar importantes fluxos econômicos da noite para o dia.

Há 10 anos podia-se dizer que um dos melhores negócios do mundo era ter uma companhia telefônica. O WhatsApp mudou essa realidade completamente em pouco mais de um ano, contra todas as previsões. Pouco antes, precursores da modalidade app, como Google e Facebook – este último, nem usou tanta ciência assim – já tinham feito um straight no mercado publicitário, além de nadarem de braçada num novo mercado, o de perfis pessoais. Mais recentemente o Uber tomou um enorme excedente de preço que era cobrado nos serviços de táxi e ainda incluiu milhões de pessoas nesses serviços.

Pois é o Uber que está desbravando suas próprias potencialidades para ser muito mais do que uma multinacional taxista. Nesta semana assinou com o governo paulista uma parceria para integração dos transportes públicos com os carros privados de transporte de passageiros.

Quando o usuário digita o destino no aplicativo aparece como opção “transporte público”, ao lado do ícone pelo qual chama-se um carro. As informações sobre linhas de ônibus, metrô e trens são atualizadas em tempo real. O app orienta até a caminhada para chegar ao ponto. E dá a opção de planejar uma viagem multimodal até o seu destino, comparando custos e tempo a ser dispendido. O recurso está disponível na região metropolitana de São Paulo e em outras metrópoles, como Nova York, Washington, Denver, Sidney, Londres e Paris.

Ao que tudo indica, não tem “bola nas costas” na novidade. Pela experiência brasileira, por exemplo, dá para perceber que o usuário não escolhe o Uber porque não sabe que ônibus pode tomar. Mas, com a nova funcionalidade, o aplicativo passa a estar presente no cotidiano de muito mais pessoas, que vão ficar mais próximas do Uber.

Inteligência não serve apenas como sobrenome de cidades descoladas. É uma variável exigida mais e mais em todo tipo de negócio. E, pelo menos por enquanto, é um atributo disponível em todos os seres humanos, até naqueles que ainda não a descobriram. Agora, que se trata de um recurso cada vez mais aplicável, é bom conferir diariamente se não falta um pouco de inteligência no seu negócio. Quem sabe, com uma boa ideia, você consegue até reservar seu lote em Laguna.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

NOVOS TEMPOS, NOVOS VÍCIOS




“Eu queria ser, o seu caderninho
pra poder ficar, juntinho de você...”

A música é dos tempos da Jovem Guarda, autoria de Erasmo Carlos. A composição tem mais de 50 anos. Pudera! Se fosse hoje, o “caderninho” perderia de longe o protagonismo para o celular. O que não é demérito nenhum. Em defesa do caderninho pode-se dizer que, de certa forma, ele pelo menos tem descendentes virtuais no celular, ao contrário de muitos outros tradicionais objetos que simplesmente desapareceram de cena.

Na verdade, nem é tão correto atribuir o fenômeno adicto ao celular. Essa foi a caracterização inicial do primeiro handset, o telefone móvel, um aparelho inegavelmente útil, mas sem potencial para promover tanta dependência. O nome do problema é smartphone, que também é o nome de muitas soluções, sem dúvida. Utilidades e futilidades num só lugar, acionadas pelos polegares, até dominar todo o resto do corpo.

Uma máquina tão polêmica assim “faz xixi na mão de criança”, diriam nos tempos da Jovem Guarda. Objetos complexos nunca são indicados para crianças, a não ser sob supervisão cuidadosa dos pais. É o caso até do televisor, do automóvel e de tantos outros do convívio diário.

O smartphone, em particular, oferece riscos totalmente transparentes para crianças e adolescentes. A OMS – Organização Mundial da Saúde enquadrou numa faixa de risco semelhante à do cigarro. A radiação emitida é nociva para qualquer pessoa a partir de mais de 20 minutos numa mesma ligação. Para adolescentes, e principalmente para crianças, onde novos tipos de tecidos estão em formação, o risco é maior ainda, chega no “contraindicado”.

Nada de novo!? Até aqui, não. Mas a pesquisa Panorama Mobile Time/Opinion Box, divulgada recentemente, apontou que a proporção de crianças com smartphone próprio, na faixa entre 4 e 6 anos de idade, aumentou de 23% para 30% de 2018 para 2019. Consequência natural, caiu de 16% para 10% o percentual das que não acessam nem o smartphone dos pais. Na faixa de 7 e 9 anos subiu de 44% para 50% o smartphone próprio.

Ora, mas a radiação não é um problema que só existe quando o aparelho está ligado a uma linha móvel? É, sim. E essa linha está em 41% dos smartphones próprios de crianças de 4 a 6 anos. Na faixa de 7 a 9 anos esse percentual sobe para 61% e chega a 80% entre 10 e 12 anos. Antes de aprender a falar, crianças aprendem a pedir o smartphone. O dado é de que 40% das crianças com até 3 anos de idade já manifestaram o desejo. Curioso imaginar como isso teria acontecido... Esse interesse chega aos 96% na faixa de 10 a 12 anos de idade.

Os pais, não têm nada a ver com isso. Pelo menos, eles acham que não. A mesma pesquisa indica que só 13% deles acham que, usando smartphones influenciam os filhos. A principal influência viria das amizades dos filhos.

Vamos convir que, de fato, não se pode colocar todo o problema na conta dos pais. O smartphone é um objeto irresistível, é onipresente em todos os ambientes, desde o meio social – seja ele qual for – na mídia, nas conversas entre amigos. Porém, se os pais aceitarem que eles podem ser os principais influenciadores das crianças, pela simples introdução do celular na convivência familiar, já seria um bom começo para corrigir esses exageros.

Falta agora tentar entender para quem o smartphone é mais nocivo, se para as crianças ou para os adultos. (Logicamente, considerando que os benefícios do smartphone são inegáveis, incomparáveis aos malefícios conhecidos.) Trata-se de um fenômeno social de abrangência imensurável, cuja inserção social mais adequada ainda vai exigir muitos estudos e memes.

Por exemplo, no que diz respeito ao tempo perdido. Se considerar a qualidade que poderia ser agregada à maior parte do tempo perdido no smartphone, fica difícil dizer se realmente é compensada com o tempo que o handset economiza em várias tarefas corriqueiras. O smartphone, pelo potencial que possui, acaba sendo um incentivador eloquente do desperdício.

Outra pesquisa, com 6 milhões de usuários anônimos do Avast Cleanup (Android, MAC), entre dezembro de 2018 e junho de 2019 analisou mais de 3 bilhões de fotos e dados. Em média, as pessoas guardam 952 fotos em seus celulares. No Brasil, 17o lugar no hanking mundial, a média é de 911 fotos. As mulheres costumam armazenar 24% a mais do que os homens. 

Quase um terço desse total vem pelo WhatsApp. E para cada 5 fotos armazenadas, pelo menos uma é repetida ou de qualidade descartável. Se o peso dessas fotos fosse em gramas, e não em bytes, certamente não suportaríamos tanto desperdício.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

NOTÍCIA BOA OU NOTÍCIA RUIM. VOCÊ DECIDE!




“-Rapaz, eu tenho duas notícias para você. Uma boa e uma ruim. Qual você quer ouvir primeiro?”

“-Caramba! Fala logo a notícia ruim, pra diminuir a minha ansiedade.”

“-Acabou de acontecer um acidente nuclear aqui na sua cidade.”

“-Deus do céu! Depois de uma notícia dessas, qual pode ser a notícia boa!?”

“-A boa notícia é que você está sendo avisado a tempo para seguir até um local seguro e escapar ileso desse acidente.”

A estorinha já é bem conhecida, em várias nuances. Na maioria dos casos como piada, humor negro, que combina com um final trágico. Do jeito que está apresentada aqui, pode até se tornar realidade, uma vez que sistemas de segurança para uso em massa estão cada vez mais presentes nas atividades humanas.

Nesta semana, o teste de simulação para evacuação da cidade de Angra dos Reis, onde está o maior complexo nuclear brasileiro de geração de energia, incluiu um novo dispositivo. Um sistema de alerta que, uma vez acionado, por um único botão, manda uma mensagem sobre acidente, para ser exibida em todos os televisores ligados. Ele funciona nos aparelhos compatíveis com o sistema EWBS, que são os modelos recentes vendidos no mercado. A mensagem pode ser configurada da maneira escolhida pelos órgãos de segurança local, incluindo sinais sonoros.

O sistema foi testado na TV Rio Sul, emissora afiliada da TV Globo em Angra dos Reis. Ele vem de uma parceria da EiTV com a Hitachi, com o Fórum SBTVD – Sistema Brasileiro de TV Digital e o Governo Federal, por meio do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação. A televisão é o tipo de lazer mais consumido no mundo portanto, qualquer alerta divulgado pela telinha, terá as maiores chances de chegar ao maior número de pessoas. A cidade pode optar por estender o sinal de alerta das TVs para todos os aparelhos celulares, usando algumas adaptações. Assim vai ser difícil alguém não ficar sabendo.

A EiTV tem fornecido o sistema para vários países andinos, onde os riscos de terremotos sempre estão presentes, em alguns casos, também tsunamis. Uma tecnologia que faz refletir sobre uma certa ironia envolvida. Por exemplo, o fato de ser um investimento que precisa ser feito, na esperança de que jamais seja usado. Ou ainda, por ser um dispositivo que fica num lugar de destaque, ligado e pronto para funcionar, recebe manutenção preventiva ordinariamente, tudo porque, se num único instante for necessário usar, ele jamais poderá falhar.

Ou seja, quem se propõe a oferecer segurança, precisa estar habituado a só produzir com qualidade, eficiência e segurança. Com esses “ingredientes” só lida quem está devidamente habilitado, quem nunca deixa de usar em nenhuma das “receitas” da casa.

As novas tecnologias se relacionam com esses paradigmas com crescente intimidade. Primeiro porque elas surgem para serem produzidas em altíssima escala, pois só assim se viabilizam economicamente. A decorrência natural é que, qualquer falha nessas tecnologias será muito custosa para o fabricante.

Tem ainda o fato de que o mundo está se acostumando a elas, a convivência é muito frequente, os laços de confiança se consolidam. Vamos imaginar sistemas de IoT falhando! Quantas pessoas direta ou indiretamente seriam afetadas? O que dizer do transporte de pessoas por drones ou veículos autônomos?

A palavra “falha” vai esvanecendo no dicionários da engenharia. Vai migrando para a página dos horrores e dá lugar a uma série de novas técnicas e protocolos de prevenção e antecipação. É a questão que se coloca de forma ostensiva diante de todos que querem produzir tecnologia: você está preparado para perseguir a perfeição incansavelmente?

Como corolário natural, essa mesma questão vai se impondo a quem vende, quem opera e principalmente para quem fabrica. Qualidade, eficiência e segurança não são escolhas triviais. É um compromisso para o qual deve haver um extenso preparo, até que se tenha clareza do significado dessa escolha.

Nos últimos anos o Brasil teve exemplos históricos de falhas de segurança em Mariana, no Museu Nacional do Rio, em Brumadinho, e agora somos vítima de uma falha que está poluindo todo o Litoral Nordestino. O rigor de novas rotinas de qualidade precisam passar a serem aceitos com naturalidade nas esferas de governos, nos órgãos de fomento, entre os fornecedores de produtos e serviços. Caso contrário, nossa história pode ficar mais à mercê do humor negro, comum nas piadas sobre a notícia ruim e a notícia boa.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

INTIMIDADE AUMENTADA E REALIDADE ALCANÇADA



Do que você mais precisa quando quer mudar as atitudes de uma pessoa para melhor? Ah, que bom seria se alguém tivesse essa resposta! Mas pelo menos algumas ferramentas, certamente, fazem parte de qualquer “oficina” de comportamento.

A vontade daquela pessoa é a primeira coisa a ser considerada. Ela precisa aceitar que deve mudar, se quer atingir algo que já tentou, mas não conseguiu alcançar. É a aceitação que abre caminho para os novos conhecimentos que a pessoa vai precisar. Outro ponto importante está na fonte desse conhecimento. Alguém com muito preparo, que possa estar sempre próximo, para gerar confiança e empatia.

Eis aí uma das condições que mais limita essas mudanças. Quem tem tempo suficiente para estar presente para tantas pessoas, espalhadas por muitos lugares diferentes, distantes entre si? Pode até não ser indispensável, mas a proximidade, ou até a intimidade, são fatores poderosos quando se quer inspirar mudanças.

Atitude, mudança, aceitação, preparo, empatia, intimidade. Falando assim nem parece que estamos tratando também de um aplicativo. Isso mesmo, um app. Mas é melhor ir se acostumando, refazer conceitos, porque essa intimidade toda, cada vez mais, vai fazer parte da nossa relação com as máquinas. Em tempos que tanto se fala em inteligência artificial, já se pode falar também em sentimentos online.

Muito mais do que a antiga conversa por telefone com a namorada, sentimento online é uma experiência enriquecedora, onde o tráfego de ideias, o entrosamento interpessoal, acontecem quase como num contato presencial.

Eugênio Martins, do Grupo João Bosco, é um especialista em fazer pessoas bem-sucedidas. Jornalista, Publicitário, Executivo do Grupo e palestrante, ele tem 20 anos de experiência em aproximar potencialidades de atitudes concretas. E garante que isso pode acontecer mesmo numa distância de muitos fusos horários. Mas, nesse caso, vai depender de uma ferramenta muito especial.

O tipo de negócio que ele desenvolveu junto à sua equipe é baseado em palestras personalizadas. Desde o início das atividades todas as palestras foram precedidas de uma conversa pessoal com cada gestor, para um aprendizado sobre a realidade profissional na qual determinado grupo está inserido. É dessa forma que o grupo vem conseguindo aumentar o número de profissionais mais comprometidos com as empresas onde trabalham, mais criativos, capazes de oferecer mais do que se esperava deles quando contratados. Para isso, usa-se de uma certa intimidade funcional.

A partir da empatia, da proximidade, criam-se as condições para um diálogo mais aberto, envolvendo todas as dimensões daquela individualidade. Além do profissional, ali também está o pai – ou a mãe – o cônjuge, o cidadão/cidadã, o ser humano como um todo. Indissociáveis, todos eles vão trabalhar em favor das metas da empresa.

Foi tudo isso que ele conseguiu “embarcar” na plataforma de cursos da EiTV. Por meio do celular, do tablet ou do computador, o app “Grupo João Bosco – EAD” de acesso público – recebe mensagens audiovisuais direcionadas a partir da plataforma EiTV CLOUD. É lá, na nuvem, por onde é feito todo o gerenciamento da entrega de cada conteúdo. Onde ficam registrados os dados referentes ao horário de entrega, o ambiente, algumas reações do cliente, tempo de exposição, eventuais compartilhamentos... são muitas as possibilidades disponíveis e outras tantas podem ser desenvolvidas, para atender da melhor forma aos objetivos pretendidos.

Para Martins, esse foi um dos pontos fortes na implantação da plataforma: houve muita interação entre os engenheiros da EiTV e a equipe do Grupo João Bosco, até que todas as possibilidades estivessem disponíveis para o atendimento de todas as necessidades. A plataforma EiTV CLOUD não é um produto fechado. Pelo contrário, é um recurso a ser customizado junto a cada cliente.

Por isso é possível conseguir tanta aproximação com empresas, com colaboradores dessas empresas e estabelecer uma “intimidade aumentada”. A realidade de cada um dos atendidos consegue um trânsito preferencial, mesmo a longas distâncias no espaço e no tempo.

O Grupo João Bosco tem um compromisso muito forte com seus clientes e profissionais atendidos. Uma relação baseada na sinceridade e na confiança, capaz de abrir corações e mentes para novas descobertas. Colocar bits nesse relacionamento foi um grande desafio. Agora, depois de dois anos de sucesso, ficou claro que as ferramentas digitais podem ser harmonizadas com o comportamento humano. E que o calor da intimidade pode ser compreendido por um bom algoritmo.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

SEDUÇÃO E ABANDONO NA HISTÓRIA DO 5G



O que é um sujeito descolado? Já tem definição até nos dicionários da língua culta, cada turma tira ou acrescenta alguma coisa, mas o descolado raiz, com certeza, usa certas palavras ou expressões: resgatar, inclusão, fake news, viralizar, 5G, ... Sim, quem não fala em 5G corre o risco de ser classificado como ogro.

Quase ninguém sabe exatamente o que é a quinta geração da conexão móvel, mas o assunto rende. É certo que será a Internet mais rápida que já existiu, mesmo sem fio. E que isso pode mudar muito a indústria atual, vai permitir inventar muitos novos negócios. Uma panaceia, daquelas tipo “quem não tiver estará fora de condições para competir” (inclusive nos videogames).

Por isso tudo, aqui no Brasil a meta era leiloar as frequências ainda este ano, para que em março do ano que vem já fosse oferecida comercialmente ao público. Era a meta. Em agosto a Anatel concluiu que as TVs por antena parabólica (TVRO), espalhadas por todo o Brasil, vão sofrer interferência. Então, primeiro precisa resolver o problema da interferência, para depois implantar o 5G.

A Abinee – Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica foi a primeira a advertir sobre o atraso que esse adiamento vai representar para a indústria nacional. Houve outros lamentos, mas agora o problema está tomando mais uma forma. É o edital para o leilão das frequências.

Um conselheiro da Anatel propôs um formato que permitiria a entrada de pequenos provedores nas disputas dos leilões. Ele entende que isso aumentaria a concorrência, trazendo benefícios para o consumidor. Por outro lado, essa tal fragmentação, num país com a extensão territorial do Brasil e a concentração populacional que temos, faz técnicos desconfiarem que podem surgir mais problemas do que soluções.

Como o 5G está nas rodas dos descolados, operadoras nacionais já anunciam demonstrações espetaculares do que a nova tecnologia possibilita. Coisas de encher os olhos e seduzir irresistivelmente, para algo que vamos demorar um tanto para ter.

É compreensível que empresas invistam o quanto antes na divulgação de produtos inovadores. Principalmente quando esses produtos estão custando fortunas para desenvolvedores e vão chegar caros para os provedores. Mas o papel das administrações públicas deve ser mais prudente. Quando o governo promete, empreendedores se mobilizam, dedicam tempo e outros recursos preciosos, para projetos que podem envelhecer muito, antes de serem implementados.

O que era para chegar em março de 2020 já está virando uma possibilidade para 2021. Mesmo assim são muitas as incertezas para se fazer qualquer marquinha no calendário. Um exemplo recente foi a migração do modelo de televisão aberta, do analógico para o digital.

Na ocasião, a tecnologia da TV digital já estava implantada em muitos países, tinha uma série de protocolos internacionais definidos, e contava com a ativa ação das várias grandes redes nacionais de TV em todo o processo. Foi feito um planejamento bem estruturado, a condução do programa foi firme durante o momento mais crítico. Mesmo assim o atraso foi de dois anos. Quer dizer, dois anos foi o atraso para a maior parte da população, que ocupa menos da metade do território brasileiro. Para a maior parte do país a TV digital vai chegar quando der, não tem previsão de data. Na medida em que o tempo passa, os preços de equipamentos vão diminuindo, as peças de reposição do analógico vão desaparecendo, então as emissoras que sobreviverem vão finalmente digitalizar o sinal.

Por que com o 5G as coisas seriam mais ágeis por aqui? A briga pelo domínio dessa tecnologia, que a China até aqui vence folgadamente, vai impactar os padrões internacionais para o setor. Isso levaria à incompatibilidades entre sistemas, com risco de tornar a expansão do 5G mais cara e menos eficiente. O Brasil nem participa desse debate, porque muito pouco produz a respeito. Com a redução drástica das verbas para pesquisas, isso tudo fica ainda mais distante.

Esse atraso do 5G, portanto, pode ser encarado tanto como um problema como uma oportunidade. O Brasil, que representa um mercado importante, poderia investir em alguns segmentos para desenvolvimento dessa tecnologia. Por exemplo, em software. Afinal, como teremos que acompanhar tudo bem de perto, podemos fazer alguma coisa enquanto olhamos. Vamos deixar de lado o tipo “descolado”, que fica só na tagarelice, para assumirmos um real protagonismo nessa tecnologia tão decisiva para o futuro.

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sexta-feira, 11 de outubro de 2019

SUAS ESTÓRIAS E ALGUMA COAUTORIA




Nos tempos em que as sagas de Indiana Jones faziam sucesso no cinema, há uns 40 anos, os dados passaram a ser mais valorizados. Não os dados processados aos bilhões para embasar uma única decisão. Mas os enigmas que o personagem de Harrison Ford encontrava, às vezes uma mera inscrição, um amuleto, uma forma física qualquer. Aquilo era um dado, que precisa ser interpretado, para se transformar numa informação que abriria um novo caminho na estória.

Quanto aos dados contábeis, financeiros, gerenciais, estratégicos, científicos e tantos outros que são processados em cada esquina, esses já eram bem valorizados naquela década de 80 do século passado. Estão cada vez mais preciosos, e trazem muitas provocações. Afinal, quais os significados que podem revelar?

Bons conteúdos e dados de consumo se encontraram mais uma vez esta semana. Foi no Espaço Itaú de Cinema, num debate sobre audiência, conteúdo e tecnologia. A quantidade espantosa de dados não “deflaciona” a importância deles, pelo contrário, só faz aumentar. Tudo depende da forma como esses dados são agrupados, tratados e interpretados, tema de estudos e pesquisas de uma, relativamente nova, e específica ciência, a Ciência de Dados.

No mercado de conteúdo audiovisual os dados serviram, em princípio, para mapear novos nichos. Depois, também para direcionar a propaganda. Agora, utilizando-se bem os dados disponíveis, pode-se direcionar melhor o investimento em novas produções. Considerando o crescimento cada vez mais rápido da oferta de conteúdos, esse tipo de direcionamento passa a ser fundamental.

Se o “feeling” não basta para entender a audiência, a inspiração também não é tudo para fazer surgir uma nova estória. Escolher o estilo de direção e até o perfil dos atores para o elenco, pode ser melhor orientado pelas informações obtidas a partir dos dados mais recentes. Tudo vai depender da maneira de procurar, selecionar e tratar os dados certos. Isto é, seguindo corretamente as diretrizes que a Ciência de Dados está revelando.

Em matéria do site Tela Viva o head de marketing do Globo Play, Tiago Lessa, afirmou que metade da sua equipe são cientistas de dados e especialistas em matemática, estatística e tecnologia. Ainda durante o evento, Luís Fernando Silva, da Parrots Analytics, destacou a importância de avaliar corretamente cada fonte, para cada tipo de dado. A empresa monitora como o público reage na Internet em relação a novos conteúdos audiovisuais. Pode ser um like, um retweet, comentários, pesquisas no Google, downloads, free streaming. Cada um demanda uma interpretação diferente, que vai ser considerada no “genoma” de um novo conteúdo a ser produzido.

Outra referência importante, já citada há algum tempo, foi atualizada por dados mais recentes. Trata-se de um estudo da IBM sobre o ritmo de crescimento do volume de informações no mundo. Paulo Pereira, da Desbrava Data & Marketing, lembrou que até o ano de 1900, a quantidade de informação dobrava a cada 100 anos. De 1900 a 1945, eram necessários 25 anos e, a partir de 2019, a cada 12 horas duplica a quantidade de informações disponíveis, segundo o estudo da IBM.

É curioso pensar que tipo de ser humano pode surgir a partir do fechamento desse ciclo de preferências. Na medida em que é apurado o gosto de cada um, ele passa a fazer parte de um grupo, para o qual vão ser produzidos conteúdos customizados. Isso deve fazer com que cada um se interesse mais ainda pelo consumo de conteúdos audiovisuais, que estarão cada vez mais próximos do que cada um espera. As pessoas vão mudando de grupos, mas sempre estarão sendo monitoradas quanto às suas respectivas preferências.

Teremos um mundo mais satisfeito? Ou um mundo mais polarizado ainda em seus grupos de afinidades? Por enquanto, o que parece certo, é que teremos um mundo mais lucrativo para quem produzir conteúdo audiovisual com base em dados bem analisados e interpretados.

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sexta-feira, 4 de outubro de 2019

UBERIZAR: VERBO TRANSITIVO




Palavra que nenhum dicionário conhece, mas qualquer um reconhece. Esses fatos digitais acontecem tão isolados de todas as suposições, que exigem palavras próprias para explica-los. O Uber é muito “praticado” pelas ruas, fez surgir um verbo só para ele. Ou melhor, para as tantas soluções de entregas físicas, de coisas ou pessoas, que antes transitavam mais burocraticamente.

Muito bom no começo, nem tanto agora, pode ser um desastre no futuro, segundo alguns intelectuais pessimistas. O fenômeno da uberização de tantos serviços poderia destruir os empregos formais, gerar uma legião de escravos digitais e ainda, restringir o atendimento de áreas de menor interesse econômico.

No fim a uberização nem seria tão “transitiva” assim. Faria da mobilidade um privilégio... de muitos, mas não um serviço que é direito de todos (que o genial Mário de Andrade perdoe o plágio, mas o esforço se presta a uma explicação mais clara).

Enquanto o desastre não chega convém observar essa fase “nem tanto”, para ambos os lados. Ainda longe de ser um problema, a uberização já não é mais a maravilha de outrora. E os motivos não estão na tecnologia inovadora, disruptiva, mas nas mesmas chagas históricas do comportamento humano. Particularmente a usura, pecado sem qualquer originalidade, que tanto mancha a história da humanidade.

O Uber avançou implacável contra uma reserva de mercado silenciosamente bilionária, mantida no mundo todo. Os ganhos desproporcionais dos “humildes” taxistas passaram a ser distribuídos entre muitos e muitos motoristas autônomos e entre os consumidores. A multinacional do aplicativo cobrou sua parte sem nenhum comedimento e, mesmo assim, sobrou trabalho digno para garantir a sobrevivência da maior parte dos taxistas tradicionais. Afinal, eles ainda estão por aí.

A redistribuição parecia muito equilibrada. Sim, parecia, até que se percebeu o quanto pende para o lado do Uber. Espaço para concorrentes, como a 99 aqui no Brasil, que decidiu deixar mais para os motoristas e apenas um pouquinho mais para os consumidores. O resultado já aparece nas estatísticas do último ano. De 66%, subiu para 75% a porcentagem de brasileiros que já chamou um serviço de transporte, tipo táxi, por aplicativo. Desse total, 73% preferem o Uber, o que pode parecer muito bom para a empresa. Só que há um ano o percentual era de 83%. E se você for procurar esses 10% que saíram do Uber, vai encontrar quase todos no 99. O aplicativo da chinesa DiDi subiu de 13% para 22% do total de corridas por aplicativo no Brasil.

A Uber, que teoricamente deveria saber tudo de aplicativos, está perdendo clientes até para seus próprios bugs. Pelo menos aqui no Brasil. Quem já é cadastrado e compra um celular novo, não consegue baixar o app nele. Os robôs que conversam com os usuários, na hora da identificação, dizem que aquele cadastro já pertence a uma pessoa. O serviço fica inacessível para o celular novo. O que era para ser uma inteligência artificial, não passa de um limitado diálogo superficial. Para um serviço que não tem um único atendente humano no país, essa política de contingência só pode trazer prejuízos. Sem esquecer que a cada 5 anos, a quantidade de celulares renovados é imensa.

Na medida em que a população se afasta dos taxistas, caríssimos e relaxados, vai ficando mais exigente, e os aplicativos parecem não se darem conta disso. O que era maravilhoso, agora, nem tanto.

Na outra ponta, o tal desastre que alguns anunciam, também, nem tanto. Temem que a uberização de vans leve as empresas de ônibus à falência e deixe os bairros mais distantes desassistidos. Denunciam o flagelo de trabalhadores sem descanso, sem direitos trabalhistas e mal remunerados. O problema existe, sim, mas não tem nada a ver com aplicativos. Parece mais a decorrência natural, em uma sociedade que está fazendo do emprego, um fenômeno histórico do passado. Por sinal, um fenômeno que não está durando muito mais do que um século.

Os aplicativos, menos do que uma boia, representam uma corda atirada ao mar. Se parece pouco, é porque não está sendo vista pelos olhos do náufrago. Já é hora de aperfeiçoar, de partir para versões 2.0 dos aplicativos. E daquele upgrade tão esperado nos círculos devocionais do saber, que sacralizam teorias, sem tentar encaixa-las na realidade dos dias atuais. Além de uberizar, o mundo também quer linkar, googar, twittar e até hackear. Tá na hora de se logar nos novos tempos.

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