sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

OS MERCADOS E AS BATALHAS




Especialistas podem ter argumentos para contestar, mas o marketing para vender pipoca na rua deve estar no cheiro. Difícil resistir! No carrinho do lado, os doces não saem pelo cheiro, a força do apelo deve ser mais visual. Sofisticando mais, o hamburger vende pelo cheiro e pelo visual. É só notar quanta arquitetura tem nessa indústria. Ah, o sabor, é claro! Tudo bem, é importante, mas está mais para um detalhe de qualidade.

Parece que produtos mais elaborados tendem a exigir mais em termos de marketing. Vender chocolates finos, roupas, pacotes turísticos, carros... Imagine a sofisticação do marketing pra se vender uma guerra! Até o cigarro pode propiciar algum prazer para contrabalançar com o mal que provoca. Mas guerra!? Fora do cinema é só aterrorizante, não sobra nenhum glamour. 

Um poema de Carlos Drumond de Andrade parece parafraseado numa recente “peça” desse marketing hediondo. Jornalistas investigativos de grandes empresas de mídia acusam uma rede de influências envolvendo André, que amava Teresa, que amava Viktor, que amava Stormy, que amava Trump, que amava Putin, que não amava ninguém. Os nomes, aqui colocados aleatoriamente, fazem parte de uma trama real que poderia estar minando o poderio militar norte-americano.

Esse é o marketing da guerra. Ele se baseia em fatos reais para levantar suspeitas, gerar instabilidade, insegurança, medo, terror. É marketing porque, no final disso tudo, tem o grande negócio chamado guerra. São esses sentimentos, difundidos em massa, que geram as condições para justificar compras de armas, de suprimentos, mobilização de tropas e aquilo tudo que se sabe, mas ninguém gosta de lembrar.

No momento, o que se persegue são sinais de influência russa em empresas que podem se envolver no maior projeto militar americano no momento. O nome do projeto é bem sugestivo: Jedi - Joint Enterprise Defense Infrastructure, em português, algo como Empreendimento Conjunto de Infraestrutura de Defesa. É marketing ou não é!?


A HEGEMONIA AMEAÇADA


O Jedi está orçado em US$ 10 bilhões, equivalente ao valor total que o orçamento federal brasileiro prevê para investimentos durante todo o ano de 2019. É uma nuvem cibernética, um ultra sistema cloud, que armazenaria todos os códigos militares americanos, informações de inteligência, localização de tropas aliadas e inimigas, especificações de armamentos, detalhes de operações. Hoje esses dados estão todos em servidores menores, distribuídos em alguns departamentos do Pentágono. Na nuvem, o acesso a esses dados e o abastecimento de informações de campo seria muito mais rápido, o que representaria uma vantagem militar.

E se...

Pois é, tudo muito bonito, até que um dia entre um boi na linha. É exatamente o que jamais pode acontecer, “combinar com os russos”, como disse, numa ironia histórica, o grande craque Garrincha. Era uma outra “batalha”, aquela sim, glamourosa e saudável.

A perigosa rede de influências relaciona as várias pessoas citadas num quebra cabeças, onde aparecem o Kremlin e a empresa americana que deve desenvolver todo o sistema. A Amazon Web Services (AWS), que domina um terço do setor empresarial em questão, é a maior provedora de serviços na nuvem pelo mundo. Franca favorita para vencer o certame marcado para o próximo mês de abril, a AWS teria negócios com a C5, empresa financeira sob forte influência do magnata russo Viktor Vekselberg. Ele é considerado um homem forte de Putin e está também relacionado entre os interlocutores de um advogado de Trump.

O Jedi seria a resposta americana à mais recente “neura” instalada no governo. Congressistas, militares e especialistas afirmam que os Estados Unidos estariam perdendo a vantagem que sempre mantiveram na tecnologia de defesa em relação à Rússia e à China.

Em recente artigo publicado no portal da BBC, o Jornalista Jonathan Marcus lança um olhar revelador sobre a questão. Ele observa a inversão histórica de determinados paradigmas relacionados à guerra. No passado, a guerra foi a principal inspiradora de avanços tecnológicos importantes. Nos tempos atuais a Tecnologia de Informação, largamente aplicada e desenvolvida na vida civil, é a base também para os engenhos militares. Dessa realidade surge o stress que a Defesa americana está enfrentando. Ela depende de empresas voltadas prioritariamente às necessidades civis, para conseguir atualizar as forças armadas.

Um relatório elaborado por especialistas independentes, tema principal do referido artigo de Marcus, cita ainda a preparação das forças americanas, estrategicamente treinadas para lutar com aliados. Um fator que Trump parece não ter considerado em recentes entreveros diplomáticos. Ele criticou os outros países da OTAN por estarem investindo pouco em defesa. Faria melhor se tivesse sido mais discreto na forma de abordagem.


O BRASIL E A OUTRA GUERRA


Todos esses fatos giram em torno do marketing da guerra. Relatórios, ações no Congresso e nos pontos mais nevrálgicos do governo americano insistem na necessidade de investir na superioridade militar. Os Estados Unidos continuam ostentando os maiores investimentos do mundo em defesa, porém, especialistas dizem que não são os melhores investimentos. A questão parece mesmo ser apenas vender armas.

A tecnologia de guerra, no entanto, pode ser fragmentada em diferentes ações, que não estão exatamente nos planos da indústria bélica. Como bem coloca Marcus, o espaço entre a paz e a guerra vem aumentando e incluindo uma série de situações que não se encaixam exatamente em nenhum dos dois extremos. Trata-se de agressões através de ataques cibernéticos, assassinatos políticos, ações de grupos dispersos que só são identificados mais tarde. Não é essa a guerra dos sonhos para quem fabrica tanques de guerra, carros de combate, mísseis, aeronaves de caça. A artilharia pesada não quer perder seu lugar de vedete no orçamento.

Se o nome Jedi remete à ideia de “guerra nas estrelas”, um projeto militar antigo que acabou não se concretizando, na verdade fica pelo meio do caminho, com a “guerra na nuvem”. De fato, uma vantagem que o pedigree americano tem em relação aos seus concorrentes: a tecnologia cloud.

A nuvem cibernética é a mãe das principais tecnologias que vão transformar o mundo nos próximos anos, como o 5G e a IoT (Internet das Coisas). Se, nessas duas últimas, a concorrência chinesa e a europeia podem rivalizar com a tecnologia americana, por enquanto não se pode dizer o mesmo em relação ao cloud. Os Estados Unidos mantêm uma razoável vantagem.

Melhor ainda é saber que o Brasil está desenvolvendo aplicações de alto nível para o uso empresarial, educacional e de interesse social, na nuvem. Isso pode representar um forte diferencial competitivo para o país no uso das mais recentes soluções tecnológicas. Essa sim, uma “guerra” onde se luta com dignidade.

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