sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

OS MERCADOS E AS BATALHAS




Especialistas podem ter argumentos para contestar, mas o marketing para vender pipoca na rua deve estar no cheiro. Difícil resistir! No carrinho do lado, os doces não saem pelo cheiro, a força do apelo deve ser mais visual. Sofisticando mais, o hamburger vende pelo cheiro e pelo visual. É só notar quanta arquitetura tem nessa indústria. Ah, o sabor, é claro! Tudo bem, é importante, mas está mais para um detalhe de qualidade.

Parece que produtos mais elaborados tendem a exigir mais em termos de marketing. Vender chocolates finos, roupas, pacotes turísticos, carros... Imagine a sofisticação do marketing pra se vender uma guerra! Até o cigarro pode propiciar algum prazer para contrabalançar com o mal que provoca. Mas guerra!? Fora do cinema é só aterrorizante, não sobra nenhum glamour. 

Um poema de Carlos Drumond de Andrade parece parafraseado numa recente “peça” desse marketing hediondo. Jornalistas investigativos de grandes empresas de mídia acusam uma rede de influências envolvendo André, que amava Teresa, que amava Viktor, que amava Stormy, que amava Trump, que amava Putin, que não amava ninguém. Os nomes, aqui colocados aleatoriamente, fazem parte de uma trama real que poderia estar minando o poderio militar norte-americano.

Esse é o marketing da guerra. Ele se baseia em fatos reais para levantar suspeitas, gerar instabilidade, insegurança, medo, terror. É marketing porque, no final disso tudo, tem o grande negócio chamado guerra. São esses sentimentos, difundidos em massa, que geram as condições para justificar compras de armas, de suprimentos, mobilização de tropas e aquilo tudo que se sabe, mas ninguém gosta de lembrar.

No momento, o que se persegue são sinais de influência russa em empresas que podem se envolver no maior projeto militar americano no momento. O nome do projeto é bem sugestivo: Jedi - Joint Enterprise Defense Infrastructure, em português, algo como Empreendimento Conjunto de Infraestrutura de Defesa. É marketing ou não é!?


A HEGEMONIA AMEAÇADA


O Jedi está orçado em US$ 10 bilhões, equivalente ao valor total que o orçamento federal brasileiro prevê para investimentos durante todo o ano de 2019. É uma nuvem cibernética, um ultra sistema cloud, que armazenaria todos os códigos militares americanos, informações de inteligência, localização de tropas aliadas e inimigas, especificações de armamentos, detalhes de operações. Hoje esses dados estão todos em servidores menores, distribuídos em alguns departamentos do Pentágono. Na nuvem, o acesso a esses dados e o abastecimento de informações de campo seria muito mais rápido, o que representaria uma vantagem militar.

E se...

Pois é, tudo muito bonito, até que um dia entre um boi na linha. É exatamente o que jamais pode acontecer, “combinar com os russos”, como disse, numa ironia histórica, o grande craque Garrincha. Era uma outra “batalha”, aquela sim, glamourosa e saudável.

A perigosa rede de influências relaciona as várias pessoas citadas num quebra cabeças, onde aparecem o Kremlin e a empresa americana que deve desenvolver todo o sistema. A Amazon Web Services (AWS), que domina um terço do setor empresarial em questão, é a maior provedora de serviços na nuvem pelo mundo. Franca favorita para vencer o certame marcado para o próximo mês de abril, a AWS teria negócios com a C5, empresa financeira sob forte influência do magnata russo Viktor Vekselberg. Ele é considerado um homem forte de Putin e está também relacionado entre os interlocutores de um advogado de Trump.

O Jedi seria a resposta americana à mais recente “neura” instalada no governo. Congressistas, militares e especialistas afirmam que os Estados Unidos estariam perdendo a vantagem que sempre mantiveram na tecnologia de defesa em relação à Rússia e à China.

Em recente artigo publicado no portal da BBC, o Jornalista Jonathan Marcus lança um olhar revelador sobre a questão. Ele observa a inversão histórica de determinados paradigmas relacionados à guerra. No passado, a guerra foi a principal inspiradora de avanços tecnológicos importantes. Nos tempos atuais a Tecnologia de Informação, largamente aplicada e desenvolvida na vida civil, é a base também para os engenhos militares. Dessa realidade surge o stress que a Defesa americana está enfrentando. Ela depende de empresas voltadas prioritariamente às necessidades civis, para conseguir atualizar as forças armadas.

Um relatório elaborado por especialistas independentes, tema principal do referido artigo de Marcus, cita ainda a preparação das forças americanas, estrategicamente treinadas para lutar com aliados. Um fator que Trump parece não ter considerado em recentes entreveros diplomáticos. Ele criticou os outros países da OTAN por estarem investindo pouco em defesa. Faria melhor se tivesse sido mais discreto na forma de abordagem.


O BRASIL E A OUTRA GUERRA


Todos esses fatos giram em torno do marketing da guerra. Relatórios, ações no Congresso e nos pontos mais nevrálgicos do governo americano insistem na necessidade de investir na superioridade militar. Os Estados Unidos continuam ostentando os maiores investimentos do mundo em defesa, porém, especialistas dizem que não são os melhores investimentos. A questão parece mesmo ser apenas vender armas.

A tecnologia de guerra, no entanto, pode ser fragmentada em diferentes ações, que não estão exatamente nos planos da indústria bélica. Como bem coloca Marcus, o espaço entre a paz e a guerra vem aumentando e incluindo uma série de situações que não se encaixam exatamente em nenhum dos dois extremos. Trata-se de agressões através de ataques cibernéticos, assassinatos políticos, ações de grupos dispersos que só são identificados mais tarde. Não é essa a guerra dos sonhos para quem fabrica tanques de guerra, carros de combate, mísseis, aeronaves de caça. A artilharia pesada não quer perder seu lugar de vedete no orçamento.

Se o nome Jedi remete à ideia de “guerra nas estrelas”, um projeto militar antigo que acabou não se concretizando, na verdade fica pelo meio do caminho, com a “guerra na nuvem”. De fato, uma vantagem que o pedigree americano tem em relação aos seus concorrentes: a tecnologia cloud.

A nuvem cibernética é a mãe das principais tecnologias que vão transformar o mundo nos próximos anos, como o 5G e a IoT (Internet das Coisas). Se, nessas duas últimas, a concorrência chinesa e a europeia podem rivalizar com a tecnologia americana, por enquanto não se pode dizer o mesmo em relação ao cloud. Os Estados Unidos mantêm uma razoável vantagem.

Melhor ainda é saber que o Brasil está desenvolvendo aplicações de alto nível para o uso empresarial, educacional e de interesse social, na nuvem. Isso pode representar um forte diferencial competitivo para o país no uso das mais recentes soluções tecnológicas. Essa sim, uma “guerra” onde se luta com dignidade.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

O FÔLEGO DE UM PORTFOLIO




Nota longa: você está assistindo à uma ópera e, de repente, o tenor dá aquela esticada numa nota. Isso acontece num momento muito marcante da trama.

Para um leigo parece um vinil riscado, mantendo o mesmo som, a mesma nota durante um longo tempo. Mas, para o aficionado pelo canto lírico, aquilo é uma catarse! O personagem chega naquela nota alta, segura a voz firme, como um alarme que dispara sobre os sentimentos mais eloquentes dos espectadores. E vai...

Nos primeiros segundos o público fica hipnotizado, ouvindo e, lá no fundo, imaginando até onde vai aquele fôlego. O tenor vai ficando roxo mas sustenta, e começam os aplausos aqui e ali. Vão aumentando até que o tenor chegue ao seu limite e mude o tom para, enfim, respirar. A essa altura todos já estão aplaudindo, então levantam, intensificam os aplausos e gritam: bravo!

Nota preta: um ativo financeiro começa a valorizar no mercado, as cotações vão subindo. As corretoras incluem o negócio em seus portfólios e saem fazendo propaganda, a mídia repercute, muita gente entra comprando. Alguns vendem para realizar lucros, mas o ativo ainda valoriza... O problema é que ativos não ficam roxo. Todos têm certeza de que há um limite para aquela nota preta que circula em torno do negócio. Mas não há um sintoma que indique.

A parte emocional é a mais complicada. Diferente do ouvinte da ópera, que relaxa numa cadeira confortável, fruindo aquele momento gozoso, o investidor faz contas, analisa gráficos e vive o risco de quem pode perder muito.

No ano passado, por três vezes este blog dedicou espaço à saga do bitcoin e outras criptomoedas. Foram três diferentes patamares na história desses ativos, enquanto os valores traçavam uma exponencial apontando para cima mais e mais. A abordagem do assunto contou com toda prudência e fez os alertas necessários para essas situações. Porém, o leitor atento deve ter percebido uma certa paixão.

E tinha como ser diferente!? Uma moeda virtual surge do nada, desafiando governos e o setor financeiro do mundo todo. Uma criação tecnológica, intangível, derrotando bravamente todas as tentativas de fraude eletrônica. Impõe respeito, passa a ser aceita no mercado japonês como moeda, entra como derivativo na Bolsa de Chicago e se torna o ativo que mais valorizou na história, num espaço de tempo tão curto. É de desmaiar na ópera.


BOM DEMAIS PARA SER VERDADE


O bitcoin e as criptomoedas em geral colocaram às claras a essência do mercado financeiro. Revelou-se o jogo puro e simples, onde especula-se em torno de um ativo qualquer, entre fatos e boatos. Pois daquela vez especulou-se em torno do nada! Algo que não está em lugar nenhum, não cheira, não tem gosto e não pesa. Mas dá sinais de existência que não podem ser fraudados.

Isso foi suficiente para que as criptomoedas alcançassem o status de “reserva de valor”. Tornou-se especulável.

Quando o bitcoin foi criado, em 2010, foi possível convencer o dono de uma pizzaria que valeria a pena entregar uma pizza de US$ 25,00, em troca daquele delírio tecnológico. Ele recebeu 10.000 bitcoins pela pizza histórica, o primeiro negócio realizado com uma criptomoeda no mundo. Mesmo tendo desvalorizado 15% na semana passada, acumulando uma perda de 80% só neste ano, aquela pizza hoje está rendendo US$ 43,93 milhões. Chegou a valer mais de US$ 193 milhões, quase R$ 750 milhões.

O que aconteceu com as criptomoedas em geral em 2017 foi um surto insano. Bitcoin, Ethereum e outras que já existiam há algum tempo, cresceram num ritmo surpreendente. Muita gente comprou em busca de enriquecimento rápido. Novas criptomoedas surgiam diariamente. Uma delas, a AllSafe, chegou a valorizar 15.808%, o que representa mais de 150 vezes. Um salto que aconteceu em menos de 24 horas, de um dia para outro. Dezenas de outras moedas virtuais chegaram a registrar valorização de 3 a 10 vezes num só dia.

Corretoras aumentaram em 5 vezes o número de clientes, chegando a ultrapassar o número de clientes pessoa física da Bolsa de São Paulo, a B3.

Alguns levantamentos estimam que o mundo chegou a ter mais de 1.200 criptomoedas circulando. Muitas desapareceram, mas apareceram outras no lugar. Pelo Youtube há vários vídeos ensinando como criar uma criptomoeda e você pode fazer isso ao terminar esta leitura. Se conseguir associar sua criptomoeda a alguma motivação para que alguém queira adquiri-la, pode ficar rico. Porém, sem uma estrutura para popularizar o novo ativo, o mais provável é que isso se torne uma perda de tempo.


CAIU MUITO PORQUE SUBIU MUITO


Não se trata de otimismo. Mas, depois desse curto histórico de 8 anos, as criptomoedas parecem que estão consolidadas como um tipo de negócio que nunca mais vai desaparecer do mercado. Afinal, depois de ter levado tanta gente  à bancarrota no ano passado, ainda sobrevive.

O detalhe a ser considerado é que trata-se de um negócio altamente perigoso, envolve muito risco. Uma “advertência” que tem uma sonoridade musical para muitos agentes de mercado. Segundo estudos da Bolsa de Nova York é a condição patológica que domina a maior parte dos players pessoa física. Algo muito semelhante ao que acontece com os jogadores compulsivos.

O professor de finanças Michael Viriato, do Insper, que publica um blog no portal UOL, listou algumas limitações das moedas virtuais, que dificilmente serão superadas. Uma delas é a facilidade técnica de criação de criptomoedas. Elas sempre vão proliferar nos momentos de alta, aumentando muito a oferta. Ainda do ponto de vista técnico, essas moedas têm uma séria limitação, que é a capacidade das redes efetivarem as negociações. Não chega a dez transações por segundo. Isso impede, na prática, que se tornem meio de pagamento em massa. No caso dos cartões de crédito, por exemplo, são milhares de operações por segundo.

Além disso, os governos estão bem próximos da regulamentação das criptomoedas. Isso deve impedir que milhões de dólares envolvidos em negociações criminosas continuem circulando nesse mercado. Sem dúvida, uma boa para a sociedade. Mas terá um forte impacto de baixa nesses ativos digitais.

Com base nesses fatos citados por Viriato, pode-se esperar maior pressão de baixa para os próximos meses. Ao final desse ciclo de queda, digamos que o mercado terá “testado o piso” do bitcoin e das outras moedas virtuais de maior circulação. Vai se estabelecer, diante dos atores do mercado, um valor mínimo para cada uma dessas moedas. O resultado pode ser mais segurança para voltar a investir.

No caso do bitcoin em particular, mesmo após essa perda de 80% em 2018, ele mantém uma valorização de 370% nos últimos 24 meses. O preço atual da moeda é o equivalente ao de setembro do ano passado. Portanto, não é a queda do bitcoin que surpreende. O difícil é entender por que a moeda valorizou tanto no final de 2017.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

PROGRESSO PARA QUÊ!?




Muita criatividade, espírito empreendedor, sensibilidade para inovação, alta capacitação técnica. Se o conjunto dessas qualidades se assemelha ao seu perfil, cuidado! Você pode se tornar alvo de processos e outras represálias por parte de grupos poderosos.

Há uma certa articulação de alguns grupos econômicos pelo direito (?) ao atraso, senão ao retrocesso. Eles entendem que o mundo existe apenas e tão somente para que eles estejam aqui, cada vez mais ricos, poderosos e ... reclamando.

O Brasil, principal paraíso judicial do mundo, chegou a sediar causas célebres. Na explosão do WhatsApp operadoras internacionais de telefonia escolheram ajuizar aqui ações contra o aplicativo. A fama do meio forense nacional é semelhante à dos restaurantes baianos: demora uma eternidade para chegar, mas quando vem, mesmo que seja diferente do pedido, vai deixar o freguês muito satisfeito. Nesta semana mesmo, foi cassada uma liminar que impedia uma negociação de ações ordinárias entre duas empresas privadas, a Embraer e a Boeing. A motivação da ação era puramente nacionalista, tema que não diz respeito às lides judiciais.

A colocação entre os maiores mercados do mundo, quinta maior extensão territorial da Terra, oitava economia e mais aquele monte de coisas que evidenciam o potencial brasileiro, nunca foram suficientes para que nossos políticos deixassem produtores e consumidores se entenderem civilizadamente. Fábricas de dificuldades e lojas de facilidades se retroalimentam nas casas legislativas, produzindo autênticas pérolas, dentre as quais algumas são escolhidas pelo Judiciário, para encrustar nas joias da coroa.

Muitas delas estão entre as concessões de serviços públicos. Entregam verdadeiros feudos tarifários a grandes empresas, com garantias que nenhum outro tipo de agente econômico pode obter no mercado. Sem prejuízo de prerrogativas da iniciativa privada, como sigilo sobre vários detalhes do negócio.

Nessa tela abstrata empresas de ônibus concessionárias de transporte urbano protestam contra “concorrência desleal”. Sabe de quem? Do Uber e outros aplicativos! Para elas, um motorista conduzindo um ônibus, por uma única rota, onde centenas de passageiros sobem e descem ao longo de vários pontos, fica mais caro do que manter um motorista, num carro de passeio, carregando duas ou três pessoas. Se isso é verdade, por que então as grandes cidades precisariam de ônibus?


“VOU DE TÁXI” 


O serviço, denominado UberPool, está mudando o nome para Uber Juntos. Já funciona há algum tempo em grandes cidades brasileiras e de outras partes do mundo. A ideia é compartilhar um carro, com vários itens de conforto a mais do que os ônibus, com no máximo 3 pessoas. De acordo com o aplicativo, para embarcar ou desembarcar, o passageiro vai andar no máximo um quarteirão de sua origem, e até seu destino. O preço, informado antes do passageiro decidir, é maior do que a tarifa do ônibus. Sinal de que os passageiros que podem pagar um pouco a mais, fogem dos ônibus. As empresas já se perguntaram por quê?

O retrato mais fiel dos efeitos desse progresso – pernicioso, na visão das empresas de ônibus – foi divulgado nesta semana em São Paulo. A pesquisa “Origem e Destino Metrô” é realizada a cada dez anos, desde 1967. Os últimos resultados se referem ao período de 2007 a 2017, apurados a partir do levantamento em 32 mil domicílios. O único modal que perdeu espaço foi o ônibus. Eram 9 milhões de viagens por dia em 2007 na capital paulista. Em 2017 foram 8,6 milhões. No mesmo período, o metrô aumentou de 2,2 milhões para 3,4 milhões de viagens/dia. Ainda nos trilhos, os trens cresceram de 800 mil viagens/dia para 1,3 milhão.

Pela primeira vez a pesquisa incluiu as viagens de carros por aplicativos, que começam anotando 362,4 mil viagens/dia em média, o triplo dos táxis. Mas os dados permitem inferir que talvez seja apenas o suprimento de uma demanda reprimida. Afinal, a média atual de 112,9 mil viagens/dia realizadas por táxis em São Paulo, é 24,5% maior do que há dez anos. Também cresceram!

A reação por parte da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos, que representa mais de 500 empresas do setor pelo Brasil, foi notificar as prefeituras de grandes capitais, como Porto Alegre, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo. Hahã! De certa forma, o que estão pedindo é para voltarmos dez anos no tempo. Quer dizer, desde que as tarifas continuem as mesmas e os subsídios, milhões e milhões pagos diretamente pelas prefeituras todo ano, se mantenham como sinal de progresso no período.

E se as empresas revissem seu modelo de negócios? Por exemplo, utilizar aplicativos semelhantes para planejar um transporte on demand, ou quase isso. Em muitas linhas é possível observar vários lugares vazios em certos períodos do dia. Poderiam ser utilizados veículos menores, mais econômicos. Na medida em que passageiros confirmassem interesse pelos seus celulares – ou em aparelhos fixados nos principais pontos do percurso – entrariam mais ônibus na linha, diminuindo a previsão de espera. Os ônibus maiores ficariam estacionados em locais estratégicos para voltarem a circular nos horários de pico.

Ainda não se ventilou qualquer upgrade tecnológico na gestão/operação do sistema, além de algumas melhorias daquelas bem “gastas”. O que as empresas querem é que o mundo pare para não afetar seus lucros.


NA DESORDEM NÃO TEM PROGRESSO


Os serviços públicos são de longe os maiores financiadores de campanhas políticas e de enriquecimento ilícito no Brasil. Tanto por meio de concessionárias, como prestadoras de serviços, empreiteiras, fornecedores. Fontes que abastecem um Brasil muito pequeno, rico e soberbo que, logicamente, não utiliza nenhum dos serviços públicos.

Nesse Brasil, que manda e acontece, com desmandos que nunca permitem acontecer os avanços, estar up to date é adotar algumas frases feitas. O juiz que conduz a recuperação judicial da Oi ignorou alguns princípios legais sob o argumento altruísta de que “ninguém quer que a Oi feche suas portas”. Não era verdade. No decorrer do processo restou claro que o grupo Pharol, acionista da empresa, tinha muito interesse na derrocada da Oi. Uma briga de touros em que o erário público acabou sendo rudemente pisoteado.

A dívida negociada da Oi chegou a R$ 68 bilhões. Mais do que o orçamento de praticamente cada um dos estados brasileiros, à exceção de Paraná e São Paulo. Só de multas devidas ao órgão regulador eram R$ 20 bilhões. Imagine que uma empresa, pelas suas falhas nos serviços, acumule dívida maior que o próprio ativo. E ainda assim a Anatel, o executivo, o judiciário e o legislativo, se mobilizam para salvar a empresa.

Agora o PLC 79 quer transferir mais de R$ 100 bilhões em bens reversíveis para as empresas de telefonia, que não pagaram por esses bens no arremate das concessionárias. Os congressistas dizem que elas têm direito. E que as empresas vão se comprometer a contrapartidas em investimentos. Ora, se é direito delas, por que precisariam se comprometer com contrapartidas?

Talvez hoje o Brasil esteja se comprometendo mais com a evolução dos lucros de determinadas empresas privadas, do que com a evolução do país como um todo.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

A OUTRA TV E O OUTRO BRASIL




A TV Digital, oficialmente, tomou o lugar da TV Analógica no Brasil. O processo de transição, oficialmente, já pode ser considerado concluído. Desde que se tome por “oficial” algo como uma verdade relativa, uma concessão da realidade dentro de limites que a lei autoriza.

Era o primeiro domingo de dezembro de 2007 quando, em cadeia nacional (de televisão!), o então presidente Lula anunciava a estreia da TV Digital no Brasil. Visivelmente abatido – nada sério, problemas com um time de futebol – o presidente resumiu o que seria um cronograma para a total substituição do sinal analógico. A forte referência temporal era a Copa do Mundo de 2014.

Nada daquilo aconteceu de fato. Houve sucessivas alterações no calendário até que, em 2016, uma outra mudança tecnológica – a expansão do 4G – levou a um calendário mais realista que se tornou, oficialmente, a implantação da TV Digital no Brasil. Sem querer, oficialmente, também riscaram a fronteira de um outro Brasil.

De acordo com o calendário de 2016, o realista, a transição do analógico para o digital seria concluída em 31 de dezembro de 2018. Está tudo pronto para que os trabalhos sejam encerrados em 9 de janeiro de 2019. Um sucesso em termos de planejamento que, no entanto, foi elaborado para contemplar apenas 1.379 cidades. O Brasil que restou analógico tem os outros 4.191 municípios, menores e muito mais pobres.

No “Brasil digitalizado” as 1.379 “cidades HD” concentram 64% dos domicílios nacionais e 62% da população brasileira, algo em torno de 128 milhões de pessoas. Para o “outro Brasil”, aquele dos 4.191 municípios, não há política pública viável para implantar o sinal digital amplamente. A previsão é de que isso aconteça até 2023, mas não é prudente apostar na data. Fica para quando Deus quiser, data em que vai acontecer tudo que precisa para nos tornarmos um país sério.

Ao longo da história a tecnologia vem traçando as mais fiéis fronteiras, tanto do tempo como também do espaço. Cada vez ficam mais nítidas. O primeiro mundo está em muitos bairros das maiores cidades brasileiras, às vezes, vizinhos de bairros lamentavelmente africanizados. Quem revela essas diferenças, essa segregação, o quase apartheid, é o contraste das tecnologias disponíveis às diferentes populações.


O MACRO E O MICRO NO MESMO PANORAMA


Hoje, os detalhes são sutis para os olhos porém, expressivos na vida prática. Um tênis que absorve impacto, o smartphone, forno de micro ondas, a conexão com a Internet. No início do século passado o contraste tecnológico impactava a paisagem. A chegada dos carros mudou as cidades, os caminhos. No Brasil como um todo, nem tanto.

O que popularizou um pouco essa realidade foi a greve dos caminhoneiros. Falou-se das estradas brasileiras, se expôs a realidade muito diferente do que imagina o Brasil recém digitalizado. Até tem números bonitos, somos a quarta maior malha rodoviária do mundo, com mais de um milhão e setecentos mil quilômetros de extensão. Mas nem 7% desses caminhos são pavimentados. Isso mesmo, mais de 93% das estradas brasileiras são de “chão batido”. É assim que queremos chegar lá...

Falta muito! Precisa, por exemplo, entender que as coisas não são eternas, tem que cuidar. O trânsito na cidade de São Paulo, que nunca foi bom, está caótico há algumas semanas porque 1(um!) viaduto sofreu uma avaria. Falta de manutenção. Pois bem, daqueles míseros 7% de estradas pavimentadas – somam 105 mil quilômetros – algo em torno de 34% alcançam a classificação regular. Outros 16% são avaliadas como ruins ou péssimas. Novamente, não têm manutenção.

Daí vem o PLC-79 para transferir às concessionárias de telefonia mais de R$ 100 bilhões em imóveis, exigindo como contrapartida investimentos em localidades onde nem sempre entra caminhão e nem trator. Ora, e a manutenção dessa infraestrutura? E as atualizações, os upgrades? Quem não cuida, não tem. Mais do que ter alguma coisa, é preciso saber ter.

Um atalho nessa viagem pela maionese para retornar agora ao arroz com feijão de cada dia. A transição do sinal analógico de TV para o digital traz lições importantes e um alerta. O alerta fica por conta do presumível caos que seria essa transição, se não fosse o interesse das operadoras de telefonia na expansão da Internet 4G. A sorte foi o interesses dessas operadoras, as chamadas teles, em usar a faixa de frequência da TV analógica para expandir o sinal 4G.

Elas pediram ao governo, que condicionou a antecipação dessas mudanças a um aporte de capital para garantir a digitalização do sinal nessas 1.379 cidades, agora digitalizadas. São as cidades que mais utilizam faixas de frequência para comunicação. Isso inclui emissoras de rádio, torres de TV, bombeiros, delegacias de polícia, antenas de celular etc. Nos outros 4.191 municípios têm faixas de frequência sobrando, pode deixar o sinal analógico de TV no ar que ainda sobra espaço.


ACONTECEU, MAS NÃO FOI À TOA


As teles toparam as condições e a TV Digital está aí.

Porém, não foi mero esquema pagou, levou. Houve um desenho competente de toda a gestão dessa transição, garantindo fundos, transparência nos negócios e plena autonomia dos agentes interessados, sem interferências políticas. Mais do que isso, houve pulso firme e liderança por parte do então Ministro Ricardo Berzoini, que soube negociar em alto nível.

A execução da transição ficou assim: as faixas de frequência que as teles queriam, foram oferecidas pelo Governo em um leilão. No edital constou que cada operadora que arrematasse uma faixa de frequência, deveria fazer também o aporte de um valor para bancar os custos da transição para o digital. O controle e gestão desses valores ficaram por conta da EAD – Entidade Administradora da Digitalização, hoje conhecida por “Seja Digital”. E os ajustes técnicos, sob responsabilidade de um Grupo de Redistribuição de Sinais, o Gired. Essas duas organizações foram constituídas com finalidade específica e geridas por representantes das emissoras de TV, centros de pesquisas, entidades representativas do setor e as teles, além do Governo.

As emissoras comerciais tiveram que custear as trocas dos seus transmissores e sistemas. Mas o fundamental era garantir que, na outra ponta, o telespectador tivesse condições técnicas para receber o sinal. Foi aí que entrou o dinheiro das teles. Cerca de 14 milhões de conversores foram distribuídos gratuitamente entre os participantes do chamado Cadastro Único, que reúne os nomes de atendidos pelos programas sociais. A próxima fase é mapear e mitigar eventuais áreas de interferência de sinal.

Nesse processo criativo e exitoso, a única “falha” está aparecendo agora: estão sobrando cerca de R$ 700 milhões! Não deixa de ser uma falha, mas a culpa não pode ser lançada contra o Ministro Berzoini. Durante toda a negociação ele teve que suportar o chororô das teles. Elas já tinham depositado os valores, mas queriam precarizar a qualidade dos conversores, dizendo que não haveria dinheiro suficiente.

As razões dessa estratégia se revelam agora. As teles começam a fazer gestões junto ao Governo para estorno desse valor. No planejamento inicial ficou claro que eventuais sobras ficariam para a digitalização em áreas remotas. Mas, num país onde regras são feitas para serem quebradas, vale arriscar no Brasil convenientemente generoso.