COISAS QUE UM DIA ACABAM ACONTECENDO




Ninguém conta piada boa todo dia. Por mais criativa e talentosa que seja a pessoa, não há repertório possível para abastecer diariamente o bom humor com qualidade. Vai perdendo a graça.

De fato, não teve nenhuma graça o desempenho das bolsas americanas na semana passada. As quedas praticamente anularam os ganhos do ano todo. O problema, de certa forma, também foi a falta de criatividade das empresas de tecnologia. Caíram bastante os preços das ações do Facebook, da Amazon, Netflix, Google-Alphabet e Apple.

Essa última foi a que teve maior retração. O principal motivo foi a queda nas vendas do iPhone, carro chefe da Apple nos últimos anos. Parece que os clientes não estão encontrando motivos para trocar o celular com um, dois ou três anos de uso, por um novo que não tem aquela cara de novidade. Mais do mesmo.

Tal qual os contadores de piadas, engenheiros da Apple não têm conseguido encantar os fãs da empresa com modelos verdadeiramente diferentes a cada ano. O surpreendente acabou ficando só por conta dos preços. Por sinal, de muito mal gosto a estratégia de diferenciação dos produtos pelo status embutido no preço. Não tem graça pagar mais caro.

Nas últimas décadas o circo tecnológico tem se notabilizado pela capacidade de exibir verdadeiros espetáculos, de encher os olhos e aguçar os comentários nas rodas. Colocou os gadgets no topo da preferência dos clientes durante as datas movimentadas do comércio. Paralelamente, os endereços eletrônicos mais frequentados acrescentam serviços e aplicações que viram moda em poucas voltas do globo.

Um dia esse calor todo tinha que refluir. A medida mais exata dessa oscilação é feita em dólares e quem melhor “enxerga” as variáveis envolvidas são as bolsas de valores. Nesse caso, particularmente as americanas. O que não se pode esquecer é que bolsas de valores também são fábricas de fantasias. Por ali estão milhares de “dramaturgos” surfando radicalmente na maionese, criando argumentos e apostando no futuro como se fosse cartas de baralho. Na condução das tramas estão analistas de mercado mais experientes. Eles apontam alguns motivos em especial para a queda nas ações da Apple. E também projetam possibilidades para breve.


BELEZA QUE VAI SENDO CONSUMIDA


A Economia Mundial está com uma cara muito boa. Sorridente, bem maquiada, mas todo mundo sabe que, na parte lá de baixo, as coisas não são exatamente assim. Nos pés aqueles calos doloridos da Itália insolvente, da Grécia recessiva, os joanetes africanos que nunca param de latejar e as frieiras na fronteira americana com o México, além da pobreza na América Latina e em partes da Ásia.

As piores ameaças vêm das condições crônicas. Como a visão limitada do governo Trump, a artrose dolorida nas articulações com a península arábica e o surto de ansiedade que a China provoca em períodos cada vez mais curtos. Não se pode esquecer do furúnculo que a Rússia abriu no Norte da África, ao explodir a diáspora de migrantes para a Europa.

Por isso tudo a vistosa economia pode acusar algum desarranjo repentino, pondo o mundo inteiro na defensiva. Numa dessas, a política de preços soberbamente altos da Apple pode virar piada. O iPhone vira um marcador de otários e as bolsas saem falando por aí.

Falando em bolsas, agora das sacolas que guardam utilidades, a Apple ainda não emplacou como esperado no mercado de serviços e entretenimento. Apple Pay, Apple Music e App Store não apontam para os US$ 50 bilhões em receitas para 2020, previstos pela empresa. Os planos para cinema e TV ainda não foram revelados, o que faz das contratações de estrelas do setor uma mera excentricidade. Portanto, os iPhones que muitos clientes carregam em suas bolsas, precisam começar logo a atacar os bolsos de quem quer a facilidade e a agilidade do comércio online.

Se a Apple é a estrela mais glamourosa do firmamento tecnológico – ou a lua crescente, para comparar a um astro mais parecido com a logomarca – o brilho eclipsado tende a afetar outras gigantes do mesmo setor. O Netflix, que expandiu de forma muito ousada seu modelo de negócios, ainda precisa provar que o negócio é tão eficiente quanto o modelo. O Facebook, no topo das inutilidades de sucesso, está amargando o peso da inconfidência malfeita. Precisa convencer os usuários de que aquela promessa de uma rede social que se conecta ao seu pensamento, não tem a ver com o “laboratório” da Cambridge Analytica.

Por outro lado, para entender melhor o que teria acontecido com ações da Amazon e do Google-Alphabet, careceria de uma análise mais aprofundada. Alguma contaminação, porém, deve ter vindo da simples repercussão da queda nos preços das ações da Apple, share of mind das empresas de tecnologia.

Uma boa lição, pelo menos, pode estar chegando do Google. Usando só as sobras do almoço, quais sejam os recursos prontos na casa, está preparando uma sopa sensacional, que pode comer pelas beiradas boa parte do mercado do Facebook.


UMA REDE SOCIAL ESTARIA NASCENDO?


Para o cidadão comum o fenômeno das redes sociais gerou uma experiência inédita de relacionamento. Para as empresas, as redes sociais são um ambiente onde precisam marcar presença para fortalecer suas marcas. É onde se pode quebrar um pouco a frieza da interação com o cliente e criar, para aquele ente impessoal constituído juridicamente, uma feição mais acessível.

Em redes como Facebook e Twitter as empresas encontram obstáculos para avançar na criação dessa interface. Tanto pela dificuldade em manter uma interação produtiva, de alto nível, como pela má reputação que está impregnando esses territórios virtuais. Mas a sociedade está nas redes e as empresas precisam chegar lá.

Pensando nisso o Google Maps começa por oferecer alguma materialidade à imagem das empresas. “-Fica aqui!” Torna a marca mais tangível. Na semana passada a empresa anunciou que vai lançar o botão “mensagens” no aplicativo, de forma que qualquer pessoa vai poder clicar para fazer perguntas, críticas, tirar dúvidas comuns encaminhadas aos SACs e até fazer encomendas. As empresas que tiverem o perfil no Google Maps vão atender de forma privada cada internauta, o que afasta spammers e haters da conversa.

Outro botão típico de rede social que vai crescer no aplicativo é o “seguir”. Assim as empresas podem divulgar ofertas, eventos e manter um saudável compadrismo com clientes ativos ou em potencial.

Outros passos nesse sentido devem estar sendo estudados. O georeferenciamento pode se tornar um atrativo especial para redes sociais. Se as pessoas, no futuro, poderão ter perfis numa rede baseada no Google Maps, vai depender da criatividade dos desenvolvedores da empresa. Há tempo o Google é o endereço mais acessado na Internet no mundo todo. Harmonizar parte das ferramentas do site numa rede social pode chegar a um sucesso imbatível.

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