sexta-feira, 26 de outubro de 2018

A TELA DE TODOS E A TELA DE CADA UM




A TV cresceu e se tornou a mídia mais poderosa do mundo por ser a tela de todos. A divulgadora da mensagem ampla (broad) para todos ao mesmo tempo, isso é o mundo broadcast. De um lado a emissora, do outro, o “coletivo” audiência. Até que chegou a Internet dando nome, endereço e infinitas escolhas para cada um, atraindo fortemente o sucesso para suas telas.

Essa diferença entre “todos” e “cada um” pode ser uma equivalência. Na escola a gente aprende que “votar é dever de todos”, mas também “votar é dever de cada um”. Porém, na TV passa um programa para todos por canal, enquanto na Internet cada um escolhe seu programa em cada portal.

É esse dilema, quase filosófico, que o cidadão comum enfrenta hoje em dia na sala de estar. Um estudo feito no Brasil em 2015 já mostrava que, em 73% dos lares que tinham Internet, as pessoas navegavam – principalmente nas redes sociais – enquanto assistiam à TV. A “segunda tela”, mais comumente um celular ou tablet, já faz parte do ecossistema audiovisual. Tanto que vários programas e eventos são gerados no formato para duas telas.

O desafio agora é saber se uma única tela física pode atender as duas manias, de todos e de cada um. Esse desafio é o que se vê na HbbTV – Hybrid broadcast broadband TV, uma televisão híbrida que concilia, de forma atraente para o usuário, o uso da TV e da Internet. Não tem a ver com a smart TV que está na sua casa. Mas com um sistema de transmissão integrada, que vai precisar de televisores conectados de forma mais robusta do que se tem nas smart de hoje. Exige também um sistema de produção diferente, que permita ao telespectador o uso das duas potencialidades – da TV e da Internet – sem prejudicar o seu conforto.

No momento em que a Internet corrói os balanços das emissoras de TV, um grupo de emissoras abertas americanas acaba de ecoar um grito de guerra. Ou, pelo menos, um grito de bravura. De quem está se posicionando e não vai correr, embora aceite negociar. A boa notícia é que nessa disputa o único interesse é agradar mais a você.


COMPETIÇÃO OU COLABORAÇÃO


A coisa está fervendo! Na edição anterior deste blog o assunto foi a entrada da AT&T no mercado de Netflix e Amazon Prime. Os serviços de streaming, ou OTT, representam a principal ameaça ao modelo de negócios das emissoras de TV. Disney e Apple também já anunciaram que vão invadir essa praia. Pelo tamanho das empresas e valores de investimentos anunciados, a expectativa é de que estejam planejando corporações planetárias para simplesmente tomar o lugar das emissoras, substituí-las nas salas de todos os lares.

Agora, logo em seguida, um grupo de emissoras americanas, liderado principalmente por Fox, NBC e Telemundo, afirma estar disposto a introduzir o sistema ATSC 3.0 a partir de 2020. Muitos consideram o ATSC 3.0, também conhecido como New Gen TV (NGTV), o estado da arte entre os sistemas híbridos de TV. O lançamento oficial do NGTV foi durante os Jogos de Inverno da Coreia do Sul. Há um ano já está sendo testado em Phoenix, no estado do Arizona.

Esse grupo de radiodifusores, que comandam centenas de emissoras locais nos Estados Unidos, se comprometeram com investimentos e desenvolvimento de um modelo de negócios para explorar todas as potencialidades do NGTV. A transmissão é no padrão UHDTV (4K), som imersivo de máxima qualidade e vários canais de interação entre emissora e telespectador.

Oferece o streaming como alternativa e ainda, a possibilidade de segmentar as mensagens publicitárias. Num mesmo intervalo, vários comerciais são exibidos ao mesmo tempo, cada um destinado a um grupo específico de telespectadores. Para os anunciantes, atualmente esse é o principal diferencial em favor da Internet.

O hardware dos televisores para o NGTV foi projetado e fabricado pela LG e todo o desenvolvimento do sistema, desde o começo, conta com total apoio da NAB – National Association of Broadcasters.

A principal dificuldade para implementar o NGTV está no fato de que, até o momento, não existe um meio de adaptação. Tudo tem que ser trocado, como foi do sistema analógico para o digital. Além dos aparelhos de TV também devem ser substituídas os transmissores, equipamentos de codificação e multiplexação. Uma mudança que precisa ser aceita pelo público.


MUITA COISA EM JOGO


Sistemas de televisão híbridos de banda larga e radiodifusão estão crescendo pelo mundo. A rigor, a sigla HbbTV se refere ao padrão europeu, desenvolvido naquele típico modelo colaborativo para alta tecnologia, como o MPEG. No Japão, o modelo híbrido adotado pela emissora estatal NHK é mais simples, adaptável ao ISDB, que é a base do sistema brasileiro. A entidade responsável pela padronização do sistema brasileiro (Fórum SBTVD) acredita que o middleware Ginga, desenvolvido no Brasil, possa ser aplicável em um sistema híbrido similar ao japonês e já está trabalhando em uma nova versão do mesmo.

O que chama a atenção é a quantidade gigantesca de interesses envolvidos. A TV é o principal entretenimento no mundo. E utiliza uma das mais concorridas faixas de frequência do espectro eletromagnético. É a melhor faixa para a formação de grandes redes de cobertura. Esse gargalo – a frequência no espectro eletromagnético – é a grande ameaça para as emissoras. No atual cenário tecnológico, se essa faixa fosse destinada a outros serviços, como a telefonia móvel, seria o fim para as emissoras de TV.

Há também o lado da indústria do setor. Quantos novos tipos de aparelhos poderiam ser desenvolvidos para este ou aquele modelo híbrido? Ou seria melhor desenvolver mais aparelhos com comunicação puramente IP? Geradoras globais, conectadas a uma infinidade de sites locais, seriam bem aceitas pelos governos do mundo todo?

Tem ainda a questão geopolítica. Embora haja serviços OTT mais regionalizados – até a Globo já anunciou que vai tentar o mercado internacional – os cinco maiores, em condições de concorrerem em si, são todos americanos. Por que os japoneses, ou mesmo os europeus, que não têm um repertório de produções como as dos americanos, aceitariam entregar parte considerável do faturamento das emissoras locais para estrangeiros?

Por fim, há que se considerar a escala dos investimentos. O NGTV vai representar um aporte altíssimo, sem que ninguém tenha a certeza de que o público vá corresponder. Esse é o maior desafio! Por mais sedutor que um sistema seja num estande, nada garante que em casa ele vai continuar agradável no uso de todos os dias.

Tecnologias aparecem no mercado fazendo muito barulho e prometendo maravilhas. Muitas delas desaparecem em um ou dois anos. É o tempo para o consumidor incorporar ou cansar daquela inovação. É isso que os sistemas híbridos de TV precisam criar. Uma forma simples e confortável de entreter você com novos formatos e diferentes tipos de conteúdos.

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sexta-feira, 19 de outubro de 2018

ADVINHE QUEM VEM PARA O JANTAR





De quantos participantes do Big Brother Brasil você se lembra? E do Master Chef, A Fazenda, ou outro reality show qualquer? Mesmo quem não assiste a esses programas, no dia seguinte à saída de cada participante ouviu alguma coisa no rádio ou viu fotos, vídeos e matérias em sites de notícias, jornais, emissoras de TV, blogs,... Eles são efeitos de um fenômeno que tende a acabar.

Quem ainda não teve seus 15 minutos de fama, pode esquecer. O tempo das “celebridades instantâneas”, profetizado pelo artista plástico Andy Warhol há 50 anos, já passou. À época, a TV estava se expandindo muito rapidamente. A onipresença da mídia em cada lugar do mundo só aumentava. Uma indústria muito cara que foi crescendo nas mãos de poucos.

No futuro de então, vislumbrava-se o surgimento de um oligopólio, capaz de decidir o que o mundo deveria saber ou não. Poucos teriam o poder de escolher coisas importantes ou frivolidades para o conhecimento de todos. Foi pensando nisso que Warhol, que também era cineasta, teorizou sobre a possibilidade dos15 minutos de fama que cada uma das pessoas experimentaria.

Até que a Internet e os smartphones tornaram a entidade “público” muito mais acessível. Sim, talentos se revelaram por conta própria, pela facilidade de acesso ao público. Porém, o mais surpreendente tem sido o interesse do público, não por produzir, mas por assistir a tudo que apareça em qualquer tela.

Agora os magnatas da comunicação, que não gastam muito com equipamentos e transmissão, têm de encontrar um jeito para abastecer as telas. Bons filmes, séries, do presente e do passado, todos os arquivos, todos os formatos, todos os assuntos. Entrevistas, música, documentários, esportes, realities, para todos os idiomas e culturas. Há muitas maneiras de produzir conteúdo, outras vão ser inventadas. Alguém vai aparecer para comprar.

E por que tanta certeza disso? Porque mais um nome de peso chegou na área! E essa gente poderosa não investe onde não tem nenhuma expertise, sem antes fazer estudos muito cuidadosos. O mapa da mina só pode estar lá.


NÃO É FRACO, NÃO

O que há em comum entre OTT e AT&T? Além da semelhança das siglas, agora elas passam a aparecer de mãos dadas num mesmo mercado. A gigante de telecomunicações anunciou que dentro de um ano vai lançar um serviço de streaming para concorrer com Netflix e Amazon Prime. Entusiasmado, John Stankey, CEO da WarnerMedia, garante que o novo serviço estará preparado para concorrer com Disney e Apple, outros dois gigantes que também já garantiram presença no mercado OTT.

Nem mesmo Alexander Graham Bell, inventor do telefone e criador da AT&T, sonharia com esses rumos da própria empresa! A WarnerMedia é parte da Time Warner, que a AT&T negociou no último mês de junho na base dos 85. Uma simplificação que o setor admite, uma vez que as negociações nessa área costumam ser todas na base de bilhões de dólares. A WarnerMedia inclui os ativos da HBO, Turner e Warner Bros.

Stankey já anunciou que os programas da HBO vão ser os primeiros a serem disponibilizados. As produções da Turner e da Warner Bros devem fazer parte de um serviço premium para os assinantes. Analistas preveem uma nova era nesse mercado, onde a “entrega exagerada” deve ser a estratégia para alcançar o público em massa.

Como contraponto, Bob Iger, CEO da Disney, afirma que a empresa pretende marcar presença no mercado OTT pelo “jogo de qualidade” ao invés do “jogo de volume”. Mesmo assim ele acentua que o serviço de streaming, que deve ser lançado pouco antes da AT&T, vai oferecer uma “quantidade significativa” de conteúdo em sua biblioteca. A Disney fechou a compra da maioria dos ativos de TV e filmes da 21st Century Fox, numa negociação de US$ 66 bilhões. O Disney Play, além dos conteúdos da própria Disney, deve contar com produções da Pixar, Marvel, National Geographic e da franquia Star Wars.

O outro OTT estreante, a Apple, parece estar adotando uma estratégia mais ambiciosa ainda. Sem contar com grandes acervos de sucesso, está contratando nomes de peso da indústria de conteúdo. Da Sony Pictures Television já trouxe Jamie Erlicht e Zack Van Amburg, do Channel 4 contratou Jay Hunt e o experiente Joe Oppenheimer, da BBC Films, também está integrado ao time. A surpreendente contratação da Jornalista Oprah Winfrey, no começo deste ano, deixou no ar a dúvida sobre o que a Apple tem em mente nessa área. Esses nomes devem ser os responsáveis por produzir todo o conteúdo para concorrer no nível dos outros grandes players.

Isso tudo sem falar nos US$ 8 bilhões que a Netflix vai investir em novas produções neste ano. Assim fica claro o por quê de se prever tanto dinheiro investido em produção de novos conteúdos.


VISÕES DO FUTURO

Nesse cenário todo parece haver uma única certeza: produzir conteúdo tende a ser um grande negócio. Inclusive para pequenos produtores, aqueles que até agora não poderiam nem pensar em concorrer num mercado desses.

A grande dúvida é como esse conteúdo todo vai ser consumido. Parece que os grandes players estão dispostos a criar suas próprias TVs globais que terão, como característica contrastante com a TV tradicional, um conteúdo totalmente customizável. Cada um vai ver o que quer, cada um vai ter seu próprio horário nobre, que será o tempo disponível para assistir/interagir com tanto conteúdo.

A tecnologia tende a abrir espaço para oferta de conteúdo. Desde os carros autônomos – o condutor vai virar só passageiro – como com outros gadgets que permitam fazer duas coisas ao mesmo tempo. Por exemplo, um óculos para você correr pelo parque ao mesmo tempo em que assiste a um vídeo.

Fica um suspense porque a reação humana nem sempre é previsível. As comprar online não levaram os shoppings à falência e o vídeo cassete não acabou com as salas de cinema. Eram as previsões de muitos.

O conteúdo audiovisual deve se consolidar num modelo bem parecido do que foi observado no começo da Internet. Milhões de sites foram povoando o espaço cibernético, aberto a qualquer navegante de qualquer lugar do mundo. De acordo com as demandas observadas, cada um dos sites foi adaptado para idiomas e culturas que interessassem. A diferença é que hoje os meios eletrônicos são capazes de receber pagamentos até de uma tribo da Amazônia.

Por fim, quem tem um canal de televisão hoje, deve ficar mais atento para a conferência global ordinária, de 2023, que direciona o uso do espectro. Pode ter pressão dessas corporações gigantes, que estão entrando no OTT. Se o público confirmar a demanda esperada, as frequências reservadas ao broadcast podem ser direcionadas para sinal de Internet. Nesse caso, quem tem uma emissora de TV, deve se preparar para virar um canal dentro de algum desses serviços OTT.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

A ESTRONDOSA BOMBA SILENCIOSA




A bomba de nêutrons foi um aterrorizante rumor entre as décadas de 70 e 80 do século passado. Uma ameaça verdadeira que, por algum motivo, não foi tão comentada pela mídia aqui no Brasil. Ficou um “rumor” segundo o qual a tal bomba, em seu raio de ação, só destruía vidas, deixando construções e toda a infraestrutura intactas. Estranho, aquilo parecia ficção científica. Uma bomba que deixa tudo em pé? Deve ser mentira, o cinema teria rodado um filme de catástrofe, como fez sobre outras armas de destruição em massa.

Na verdade, trata-se de uma categoria de bomba atômica que não produz ondas de choque e nem de calor. A radiação de nêutrons, muito mais poderosa do que os raios gama, é capaz de ultrapassar praticamente todo tipo de blindagem. Paredes e muros convencionais são como peneiras tapando a luz do sol. Mas a vida, que é baseada em estruturas muito mais complexas – as células – não suporta, é totalmente desorganizada pelo efeito da bomba.

Pois é, o rumor era tenebrosamente verdadeiro. O que pode ser pior do que isso? É difícil dizer se é pior, mas fofoca é uma coisa que tem o poder de atravessar as blindagens morais mais consistentes, destruir reputações, arruinar vidas. O ganho de escala obtido com a tecnologia é o que se vê nas fake news. Essas armas imorais acuam muito mais do que as bombas de efeito moral.

Elas estão desbragadamente presentes nessas eleições. Mal o TSE pregou na parede os resultados do primeiro turno e o WhatsApp já exibia artilharia pesada dos dois lados do espectro ideológico. Pudor zero de uma extremidade a outra do pensamento político. Até a defesa é idêntica: “-Foi ele que começou!”

O pior é que a sofisticação nas armas de destruição de privacidades acaba de atingir um nível capaz de ameaçar a paz mundial. O problema está agora diante dos seus olhos. Todo cuidado é pouco. Começando por citar as fontes. Reportagem publicada pela Bloomberg na semana passada, de autoria dos jornalistas Jordan Robertson e Michael Riley, denuncia um escândalo de espionagem sem precedentes.


NANO RAPOSAS NO QUINTAL


De acordo com a reportagem um ataque cibernético muito especial teria partido de uma unidade militar chinesa. Dessa vez, nada de hackear software. A violação foi implantada em hardware. O que certamente deve envolver um grande número de cúmplices, nenhum deles de baixo escalão.

A tal unidade militar chinesa teria desenvolvido um chip minúsculo, do tamanho de uma ponta de grafite de um lápis bem apontado. Como a China é a senzala high tech do mundo, é lá que empresas americanas utilizam a mão de obra mais barata para garantir preços competitivos. Uma dessas empresas é a Supermicro, uma gigante do hardware que teria sido comparada, por um ex-funcionário da inteligência americana, a uma “Microsoft do hardware”.

A empresa, que tem plantas industriais em vários países, fabrica a maioria das suas placas mãe na China. Os chips invasores teriam sido instalados em fábricas chinesas que são fornecedoras da Supermicro. De acordo com um relatório citado na reportagem eles são cinzas ou esbranquiçados. Pelas dimensões são muito semelhantes a acopladores de condicionamento de sinal, abundantes nas placas.

Tão pequenos, comportam pouco código mas agregam memória, capacidade de rede e poder de processamento. Pelos circuitos estão conectados ao controlador de gerenciamento da placa base. É o suficiente para alterar o núcleo do sistema operacional e assim, aceitar modificações. Ao entrar em contato com terminais dos invasores, com códigos mais complexos, fica fácil espionar. Pode-se roubar chaves de criptografia para comunicações seguras e as eventuais atualizações de segurança que neutralizariam o ataque, acabam sendo bloqueadas.

Essas placas mãe estariam instaladas em servidores de quase 30 grandes corporações americanas, dentre elas a Apple e a Amazon, além de empresas do governo e um banco importante.

A reportagem da Bloomberg afirma que uma investigação do governo americano, ainda em curso, teria descoberto os ataques em 2014. A suposição é de que nenhum dado dos consumidores foi roubado, o que mais parece um esforço para tranquilizar clientes do mundo todo. Afinal, por quanto tempo essas placas adulteradas teriam sido produzidas pela Supermicro? Todas elas teriam sido instaladas em servidores vendidos no mercado? Foram rastreadas e trocadas? Sem conseguir roubar dados, os chineses não se deram conta de que foram descobertos? Ou foram abastecidos com dados falsos?

São dúvidas que aceitam várias suposições, mas precisam ser respondidas o quanto antes. Até lá, durma-se com um barulho desses...


COMO PODE SER MELHOR


Ao ouvir uma notícia dessas a sensação de total impotência é imediata. O que o cidadão comum pode fazer contra tanta sofisticação? Ou, quem deveria assumir o compromisso de prover proteção ao lugar cibernético de cada um?

Os sistemas computacionais são máquinas que têm como função básica armazenar, manipular e compartilhar dados. Quando a ideia de personal computer ganhou o mercado, esses dados passaram a ser vestígios, rastros, pedacinhos de você. O valor disso ficou mais evidente a partir dos big data, a ponto de fazer surgir leis específicas para culpar quem usa seus dados sem o seu consentimento. Só não inventaram ainda um jeito de achar todos os envolvidos nas gangues especializadas nesse tipo de crime.

Edward Snowden foi a luz mais forte a clarear essa realidade. Ou o ventilador. O estrago foi grande, suficiente para fazer pensar se esse expediente bisbilhoteiro dos militares chineses é algo tão original. Ou se já teria sido adotado por outras nações poderosas bem antes.

Numa “conta de chegar” o balanço ainda é muito favorável a esses sistemas. E a gente vai aprendendo a lidar com os riscos inerentes. O que assusta é a constatação do nível de dolo que o poder admite, ainda nos dias atuais.

A humanidade luta há milênios para que o indivíduo tenha direitos assegurados. A privacidade é o resultado do conjunto desses direitos. Ataca-la é uma forma miserável de tentar controlar ou se sobrepor ao outro. É o que se vê nesses planos de espionagem em massa, como também nas fake news, cuja cumplicidade nem sempre preocupa as pessoas.

A fake news, por definição, nunca é uma completa mentira. Precisa ser temperada com alguma verdade para dar um sabor, pelo menos um cheiro idôneo. Todos sabem disso, mas muitos aceitam o papel de idiota ao repassarem um monte de mentiras, porque tinha alguma veracidade misturada.

Um Brasil melhor dificilmente vai ser construído a partir de Brasília. Um novo sinal disso está nas campanhas dos dois candidatos do segundo turno ao Planalto. Esbanjam fake news! Com um pouco de bom senso cada um pode oferecer uma boa contribuição para conter essas mentiras. E assim haverá chances mais consistentes de um Brasil melhor.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

AINDA NÃO FOI DESSA VEZ




“Pra tudo tem um jeito.” O ditado popular é atribuído aos “antigos”, classificação de autoria que já caiu em desuso. Mas o ditado, não. Nesses tempos digitais o jeito se chama app e vai tomando conta de tudo.

A ciência explica. Os chips diminuem progressivamente de tamanho, enquanto os componentes parecem dar cria lá dentro. A cada nova geração são mais tantos milhões de resistores, diodos, capacitores... tudo ligado a processadores sempre mais rápidos. Daí o software vai escolhendo os componentes e montando os circuitos que precisa, como uma criança numa montanha de lego, que constrói seus brinquedos segundo a própria imaginação.

É assim que aparece software do tipo telefone, pra você falar de graça com o outro lado do mundo, tem também walkman, DVD e muito mais. Máquinas que sempre foram circuitos, baseados nos mesmos componentes, ainda que bem maiores. Já aconteceu com centrais telefônicas e os demais dispositivos de comunicação vão surgindo e se encaixando. Como, por exemplo, nas operadoras de telefonia móvel virtuais ou MVNO – mobile virtual network operator.

Esses sistemas podem distribuir e gerenciar, entre centenas de milhares de clientes, parte da capacidade operacional de uma rede. No Brasil, por exemplo, os Correios fizeram um contrato com a TIM para utilizar parte da capacidade da rede da operadora italiana. Até o mês retrasado já tinham mais de 110 mil chips vendidos. Ligações de voz, Internet, WhatsApp, sempre a preços mais em conta do que se contratados diretamente das operadoras.

É aí que está a explicação estratégica desse modelo de negócios. No chamado Primeiro Mundo e em vários países em desenvolvimento esse tipo de solução é adotado para gerar competitividade nos serviços de telefonia. As operadoras virtuais têm estruturas mais enxutas, menos caras e podem atender seus clientes com mais atenção, uma vez que numericamente são bem menos. Os governos apoiam, simplificando as exigências sobre essas pequenas operadoras.

No Brasil, a primeira operadora virtual móvel foi a Conecta Porto Seguro. Durante três anos seguidos foi escolhida a melhor operadora do país. Já contava com cerca de 700 mil clientes, mas anunciou esta semana que estará encerrando as atividades. Analistas entendem que o motivo foi o excesso de regulamentação. Quando é assim, não tem jeito.


ESPERAR É PRECISO


As MVNO são regidas pela Resolução 575 da Anatel. De acordo com essa legislação, as prestadoras de pequeno porte são aquelas que têm até 50 mil clientes, o que não era o caso da Conecta Porto Seguro. Isso significa que sobre ela recaíam praticamente todas as obrigações que as grandes operadoras têm de cumprir.

A própria agência, tacitamente, reconhece que se trata de um exagero. A Anatel está formulando atualmente o PGMC, o Plano Geral de Metas de Competição, que prevê um tratamento diferenciado para as ppps (prestadoras de pequeno porte). Pelo novo Plano, seriam as prestadoras com até 5% de participação no mercado. O market share da Conecta era de 0,31%.

O excesso de tributação também atrapalha. No caso dos sistemas MVNO é muito usado o M2M (comunicação entre máquinas), sobre o qual recaem impostos como se fosse uma conexão móvel doméstica. Um excesso que está ameaçando a viabilidade do IoT (Internet das Coisas), onde a comunicação entre máquinas é a razão prática dessa tecnologia. Por conta do interesse no IoT a agência estuda retirar tributos quando a conexão acontecer entre máquinas, o que reduziria o custo também para as MVNOs. Porém, assim como acontece com o PGMC, a nova regulamentação para M2M ainda está em estudos.

Informações do site Teletime dão conta de que o roaming internacional é outra dificuldade a ser resolvida, que continua pendurada na Anatel. Tudo isso coloca as prestadoras virtuais sob ameaça no Brasil. O que implica num baixo nível de competitividade para as telecomunicações, um serviço essencial para o desenvolvimento de qualquer nação.

Esses fatos, associados a um histórico de decisões polêmicas, imprime mais fortemente a pecha de “protetora das teles” àquela que deveria ser a agência reguladora desses serviços. E que deveria primar por uma ação voltada para a maior concorrência nos serviços, de forma a propiciar vantagens aos clientes.

Mais um desafio para o próximo inquilino do Palácio do Planalto. As agências reguladoras têm um papel fundamental num mundo em que o ritmo de inovação impõe mais agilidade e tecnicidade nas decisões governamentais. E, por enquanto, não parece que isso esteja acontecendo nas agências nacionais.


A ENTRADA PARA A SAÍDA


Certos vícios da administração pública brasileira estão pesando mais contra a população, que demora a perceber a mão invisível... do estado. Por exemplo, o expediente de inflar os impostos escondidos entre os itens preferenciais dos cidadãos. Um caso clássico são os carros, sobre os quais recai uma tributação muito pesada, que desequilibra toda a cadeia automotiva. O efeito é contaminante, pois desencadeia outros vícios entre montadoras e fornecedores de autopeças, gerando distorções que atingem em cheio o consumidor. A tributação sobre a telefonia também é excessiva. O Governo sabe que o povo gasta muito ali, então é lá onde a mordida vai ser mais voraz.

O sistema financeiro é especialmente pesado para a população. Tudo porque o governo é o principal tomador, algo em torno de 70% do volume de crédito. Ao mesmo tempo em que essa situação torna muito mais cômoda a vida dos bancos, traz muitas dificuldades para empreendedores, indústria, comércio e para a população em geral. O governo é um “cliente” que aceita pagar juros altos, então o povo – que é quem paga as contas do governo – também vai ter que pagar maior spread em suas operações.

Acontece que essas distorções estão se tornando insustentáveis. Num mundo que se renova em períodos cada vez mais curtos, é preciso investir mais, para inventar e produzir o novo em grande escala. Só assim vai ser possível competir em nível global. Quando o crédito é caro, o governo indeciso e enrolado, a inovação não acontece. Aumenta a dependência dos produtos importados, a população fica mais dependente do que acontece fora daqui, longe das novas influências.

O que é preciso fazer para sair desse círculo vicioso ninguém sabe ao certo. O que todos sabem é por onde começa. Se você ainda tem alguma dúvida, vai ter esse próximo domingo todo para refletir.