sexta-feira, 28 de setembro de 2018

POEMAS E UTOPIAS DOS NOVOS TEMPOS




“As muito lindas que me desculpem, mas inteligência é fundamental.” Depois de 50 anos e milhares de manifestos feministas, a adaptação da frase de Vinicius de Moraes está quase para ser declamada. Tanto pela constatação concreta – mulher burra está cada vez mais insuportável – como pelo imperativo de saúde pública.

Quem prestar atenção nas blogueiras que promovem a aceitação do próprio corpo, que protestam contra a imposição de padrões de beleza, vai conhecer casos inimagináveis. Bulimia, anorexia e transtornos dos mais assustadores são apenas o começo de narrativas deprimentes, verdadeiramente trágicas.

O uso excessivo da imagem da mulher na mídia deve agravar muito essas cobranças patológicas. No tempo da Garota de Ipanema, além das edições de carnaval das revistas “Manchete” e “O Cruzeiro”, o corpo feminino era uma projeção imaginária. Até as roupas eram censoras da tentação, para merecerem a confiança dos maridos e dos pais. Cortes mais rebeldes poderiam fazer sucesso como notícia, mas dificilmente sustentariam a longevidade de lojas e grifes.

E os homens? O que poderia catalisar de forma mais dramática a vaidade masculina? Ora, os carros. É difícil ouvir um amigo falando mal do sapato ou da camisa do outro. Já sobre carros, nesta semana você deve ter ouvido alguma crítica na sua roda. Será que quando você não está por perto também falam do seu carro?

Um tipo de problema que está prestes a ser solucionado. Montadoras estão mudando paradigmas no que diz respeito a “fornecer mobilidade” aos seus clientes. Por exemplo, o carro por assinatura.

Pagando cerca de US$ 1.400,00 por mês o cliente “Audi Select” pode escolher um modelo da marca com seguro incluído, manutenção, assistência na estrada e quilometragem ilimitada. E ainda, tem direito a fazer até duas trocas por mês. Mais do que uma possibilidade de alternar a decoração da garagem, com certeza é uma forma de tapar a boca daqueles que bebem até mais tarde, depois que você levanta da mesa do boteco. Por enquanto, o serviço está sendo oferecido apenas na cidade de Dallas-Fort Worth, EUA.

Mas a tendência é generalizada entre as montadoras. A sueca Volvo estará concluindo, até o final deste ano, os testes de uma plataforma com aplicativo para atender necessidades de mobilidade, somente com veículos de sua fabricação. Sem dúvida é um sinal de que a inteligência está ganhando mais importância do que a beleza.


TER OU NÃO TER


O serviço que os bens duráveis prestam estão dominando a lógica de consumo. Principalmente após os traumas de algumas “jabuticabas”, como a venda de linhas telefônicas. Era um investimento de peso, em algumas áreas com valor equiparável ao de um automóvel zero Km.

Lembrar disso hoje em dia é até divertido. Nos tempos atuais, antes dos aplicativos de voz, quando as operadoras de telefonia nadavam em dinheiro, clientes mais explorados ganhavam novos modelos de celular de presente. Paga-se apenas o serviço. O aparelho, quando muito, é um casco que você troca mais tarde. Uma consequência natural do ritmo de inovação.

Os automóveis, desde os tempos de uma provável piada de Bill Gates, são sparrings preferenciais dos fabricantes de produtos de informática. Tecnologicamente são comparados a paquidermes, que caminham muito lentamente na corrida pela inovação. Mas agora é o mercado que começa a se incomodar. As montadoras estão vendo suas marcas derreterem diante das vedetes da NASDAQ. E precisam de novos modelos de negócio.

Mais do que uma boa motorização e design convincente, os carros precisam embarcar itens de conforto e conveniência. Tecnologias caras, que envelhecem muito rapidamente. Carro novo todo ano fica cada vez mais caro, precisa encontrar um bom negócio para passar o carro “velho” adiante. O status  proprietário vai ficando proibitivo para um produto tão massificado como o automóvel. Porém, pagando pelo serviço de mobilidade, não precisa mais fazer aquele grande investimento de risco para ser dono de um carro.

Tudo indica que a tendência é encurtar cada vez mais o ciclo de inovação nos automóveis. A eletrificação dos modelos deve contribuir, uma vez que vai simplificar as linhas de montagem. A transição caminha a passos largos. Várias montadoras europeias já falam em encerrar em breve a motorização ciclo Otto. As marcas Citroen e Peugeot, por exemplo, prometem para 2025.

Nas novas plataformas vai ficar mais fácil agregar tecnologias e os consumidores vão acostumar com outro ritmo no upgrade de seus veículos. Não dá pra dizer que você vai trocar de carro como troca de camisa. Mas talvez como você troca sua calça jeans.


BOAS PERSPECTIVAS


O ritmo digital está mudando definitivamente as relações de consumo. Já vemos acontecer com os celulares, sua relação com o carro está mudando e em breve pode rever até o sonho da casa própria.

Com a Internet das Coisas (IoT) e a robótica doméstica as casas podem ficar abaixo do conforto disponível a cada ciclo de dois ou três anos. Imagine ter de instalar novos sensores no seu apartamento, quebrar paredes, ajustar circuitos. Mais fácil se empresas forem atrás de tudo isso, atualizarem permanentemente a mão de obra e reduzirem custos de equipamentos com ganho de escala ou outros modelos de negócio. Você vai mudar para o andar de baixo e ter todo o conforto, com geladeira e fogão de última geração. Ou com os equipamentos que vierem a suceder essas tecnologias do século passado.

Para quem pensou em fazer upgrade da esposa é bom lembrar que, nesse caso, ela pode pensar num upgrade do marido antes do que se espera. Mas quem sabe um surto evolutivo na sogra, uma “meia sola” tecnológica, possa ser feita em comum acordo.

A boa notícia que se depreende disso tudo é que essa nova sociedade, marcada por um ritmo de inovação permanentemente acelerado, vai depender diretamente de consumidores ativos. Ou seja, pessoas com fonte de renda regular, a exemplo do que acontece com os empregados de hoje. De imediato, é lógico considerar que, se tudo muda tão rápido, mudanças só acontecem se alguém as fizer. Mudanças são frutos de atividades. Por mais que os robôs ocupem espaço na força de trabalho eles nunca vão saber poupar, escolher e consumir. Não precisam de nada.

Tudo isso torna a lógica previsível de evolução bastante inclusiva, quase socializante. Os componentes de alto valor agregado, pelo enorme volume de conhecimento que demandam, pelos materiais sofisticados que utilizam, acumulam custos que só podem ser viabilizados em altíssima escala. Isso exige massificação no uso das tecnologias onde embarcam. E lá na outra ponta está você, fechando esse ciclo natural da sociedade humana, que Adam Smith começou a desvendar há cerca de 300 anos. Nunca se esqueça de que você é a razão disso tudo.

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