sexta-feira, 28 de setembro de 2018

POEMAS E UTOPIAS DOS NOVOS TEMPOS




“As muito lindas que me desculpem, mas inteligência é fundamental.” Depois de 50 anos e milhares de manifestos feministas, a adaptação da frase de Vinicius de Moraes está quase para ser declamada. Tanto pela constatação concreta – mulher burra está cada vez mais insuportável – como pelo imperativo de saúde pública.

Quem prestar atenção nas blogueiras que promovem a aceitação do próprio corpo, que protestam contra a imposição de padrões de beleza, vai conhecer casos inimagináveis. Bulimia, anorexia e transtornos dos mais assustadores são apenas o começo de narrativas deprimentes, verdadeiramente trágicas.

O uso excessivo da imagem da mulher na mídia deve agravar muito essas cobranças patológicas. No tempo da Garota de Ipanema, além das edições de carnaval das revistas “Manchete” e “O Cruzeiro”, o corpo feminino era uma projeção imaginária. Até as roupas eram censoras da tentação, para merecerem a confiança dos maridos e dos pais. Cortes mais rebeldes poderiam fazer sucesso como notícia, mas dificilmente sustentariam a longevidade de lojas e grifes.

E os homens? O que poderia catalisar de forma mais dramática a vaidade masculina? Ora, os carros. É difícil ouvir um amigo falando mal do sapato ou da camisa do outro. Já sobre carros, nesta semana você deve ter ouvido alguma crítica na sua roda. Será que quando você não está por perto também falam do seu carro?

Um tipo de problema que está prestes a ser solucionado. Montadoras estão mudando paradigmas no que diz respeito a “fornecer mobilidade” aos seus clientes. Por exemplo, o carro por assinatura.

Pagando cerca de US$ 1.400,00 por mês o cliente “Audi Select” pode escolher um modelo da marca com seguro incluído, manutenção, assistência na estrada e quilometragem ilimitada. E ainda, tem direito a fazer até duas trocas por mês. Mais do que uma possibilidade de alternar a decoração da garagem, com certeza é uma forma de tapar a boca daqueles que bebem até mais tarde, depois que você levanta da mesa do boteco. Por enquanto, o serviço está sendo oferecido apenas na cidade de Dallas-Fort Worth, EUA.

Mas a tendência é generalizada entre as montadoras. A sueca Volvo estará concluindo, até o final deste ano, os testes de uma plataforma com aplicativo para atender necessidades de mobilidade, somente com veículos de sua fabricação. Sem dúvida é um sinal de que a inteligência está ganhando mais importância do que a beleza.


TER OU NÃO TER


O serviço que os bens duráveis prestam estão dominando a lógica de consumo. Principalmente após os traumas de algumas “jabuticabas”, como a venda de linhas telefônicas. Era um investimento de peso, em algumas áreas com valor equiparável ao de um automóvel zero Km.

Lembrar disso hoje em dia é até divertido. Nos tempos atuais, antes dos aplicativos de voz, quando as operadoras de telefonia nadavam em dinheiro, clientes mais explorados ganhavam novos modelos de celular de presente. Paga-se apenas o serviço. O aparelho, quando muito, é um casco que você troca mais tarde. Uma consequência natural do ritmo de inovação.

Os automóveis, desde os tempos de uma provável piada de Bill Gates, são sparrings preferenciais dos fabricantes de produtos de informática. Tecnologicamente são comparados a paquidermes, que caminham muito lentamente na corrida pela inovação. Mas agora é o mercado que começa a se incomodar. As montadoras estão vendo suas marcas derreterem diante das vedetes da NASDAQ. E precisam de novos modelos de negócio.

Mais do que uma boa motorização e design convincente, os carros precisam embarcar itens de conforto e conveniência. Tecnologias caras, que envelhecem muito rapidamente. Carro novo todo ano fica cada vez mais caro, precisa encontrar um bom negócio para passar o carro “velho” adiante. O status  proprietário vai ficando proibitivo para um produto tão massificado como o automóvel. Porém, pagando pelo serviço de mobilidade, não precisa mais fazer aquele grande investimento de risco para ser dono de um carro.

Tudo indica que a tendência é encurtar cada vez mais o ciclo de inovação nos automóveis. A eletrificação dos modelos deve contribuir, uma vez que vai simplificar as linhas de montagem. A transição caminha a passos largos. Várias montadoras europeias já falam em encerrar em breve a motorização ciclo Otto. As marcas Citroen e Peugeot, por exemplo, prometem para 2025.

Nas novas plataformas vai ficar mais fácil agregar tecnologias e os consumidores vão acostumar com outro ritmo no upgrade de seus veículos. Não dá pra dizer que você vai trocar de carro como troca de camisa. Mas talvez como você troca sua calça jeans.


BOAS PERSPECTIVAS


O ritmo digital está mudando definitivamente as relações de consumo. Já vemos acontecer com os celulares, sua relação com o carro está mudando e em breve pode rever até o sonho da casa própria.

Com a Internet das Coisas (IoT) e a robótica doméstica as casas podem ficar abaixo do conforto disponível a cada ciclo de dois ou três anos. Imagine ter de instalar novos sensores no seu apartamento, quebrar paredes, ajustar circuitos. Mais fácil se empresas forem atrás de tudo isso, atualizarem permanentemente a mão de obra e reduzirem custos de equipamentos com ganho de escala ou outros modelos de negócio. Você vai mudar para o andar de baixo e ter todo o conforto, com geladeira e fogão de última geração. Ou com os equipamentos que vierem a suceder essas tecnologias do século passado.

Para quem pensou em fazer upgrade da esposa é bom lembrar que, nesse caso, ela pode pensar num upgrade do marido antes do que se espera. Mas quem sabe um surto evolutivo na sogra, uma “meia sola” tecnológica, possa ser feita em comum acordo.

A boa notícia que se depreende disso tudo é que essa nova sociedade, marcada por um ritmo de inovação permanentemente acelerado, vai depender diretamente de consumidores ativos. Ou seja, pessoas com fonte de renda regular, a exemplo do que acontece com os empregados de hoje. De imediato, é lógico considerar que, se tudo muda tão rápido, mudanças só acontecem se alguém as fizer. Mudanças são frutos de atividades. Por mais que os robôs ocupem espaço na força de trabalho eles nunca vão saber poupar, escolher e consumir. Não precisam de nada.

Tudo isso torna a lógica previsível de evolução bastante inclusiva, quase socializante. Os componentes de alto valor agregado, pelo enorme volume de conhecimento que demandam, pelos materiais sofisticados que utilizam, acumulam custos que só podem ser viabilizados em altíssima escala. Isso exige massificação no uso das tecnologias onde embarcam. E lá na outra ponta está você, fechando esse ciclo natural da sociedade humana, que Adam Smith começou a desvendar há cerca de 300 anos. Nunca se esqueça de que você é a razão disso tudo.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

ENTRE ALGORITMOS E HORMÔNIOS




De repente o mundo não tem mais máquina de escrever. Pouco depois os carros não têm mais carburadores e logo é o fax que já era. Quanta coisa mudou ao redor de cada uma dessas tecnologias! É como se o mundo passasse por sucessivas puberdades. Momentos de intensa transformação, instabilidade, rebeldia, inseguranças e quase nada de prudência. Um período crítico que nos leva de um tempo a outro, transforma nosso modo de vida em algo irreconhecível, se comparado ao passado recente.

É nesse turbilhão de transformações que nosso modelo de sociedade deve mergulhar mais uma vez, em função de uma nova tecnologia. O 5G, a quinta geração de serviços móveis, entra na praça oficialmente em pouco mais de dez dias. Nesta semana, durante o MWC Américas 2018, em Los Angeles, a Verizon começou a vender o 5G para clientes da cidade sede do evento e também de Indianápolis, Sacramento e Houston. A promessa é colocar o serviço no ar a partir de primeiro de outubro. Até o final deste ano também a AT&T deve lançar a própria rede 5G em outras 5 cidades americanas.

A primeira grande transformação no mercado já mostrou a cara. Com o slogan "Cut the cord. Go to 5G Home" a Verizon indica que vai ser na rede fixa onde ela vai disputar o mercado. Nos celulares, a aposta é que a superconexão chegue por volta de 2020. A latência do novo serviço é para ser menor do que a troca de canal na TV pelo controle remoto, a largura da banda 20 vezes maior que a do 4G. Potencialidades que não vão apenas tornar mais agradável a conexão nossa de cada dia, mas também viabilizam a expansão de novos serviços, de novos conceitos entre os produtos de TI.

A combinação com a inteligência artificial (AI) e a Internet das Coisas (IoT) são os horizontes mais visíveis desde já. E o mundo passará a nos prover, de forma autônoma, outras condições para o nosso conforto, como a noite que chega para um bom sono ou a chuva que cai para distribuir água às diversas formas de vida. Na “natureza 2.0” a geladeira vai “avisar” o supermercado e o leite vai ser reposto na sua casa, o portão da garagem vai abrir quando você chegar e o ar condicionado vai ligar quando a temperatura subir muito.


CHEGOU CHEGANDO?


O 5G colocou numa disputa frenética os parques tecnológicos da China, Japão e Coreia do Sul, além dos Estados Unidos. O Tio Sam já cumpriu seu protocolo de praxe, ao sair em primeiro lugar. Tem sido assim desde a chegada à lua até a TV digital. Afinal, o maior mercado do mundo é o berço natural de produtos disruptivos, cujo desenvolvimento envolve gastos astronômicos, e o destino é replicar mundo afora.

Porém, isso não significa que o 5G já é uma realidade. A saga do pioneirismo americano às vezes arrasta problemas típicos de atos precipitados, como aconteceu com o ATSC 1.0 na TV Digital. As primeiras cidades escolhidas para o 5G devem ter apresentado condições favoráveis para a implantação da nova rede. No entanto, trata-se de uma tecnologia mais sofisticada, para a qual não há mão de obra preparada em grande escala. A quantidade de antenas deve aumentar, principalmente em países como o Brasil, onde a infraestrutura de telecomunicações é sub dimensionada. Vai ser necessário investir ainda em novos equipamentos, mais caros, e novos espaços no espectro eletromagnético.

Por isso, nesse primeiro momento, os 4 bilhões de usuários de redes móveis no mundo não devem representar um horizonte de mercado. É possível que seja necessário mais um tempo, até que o planeta se prepare melhor, e a tecnologia 5G também tenha tempo para evoluir.

O que pode puxar mais rapidamente esses avanços são as teles, as grandes empresas provedoras de sinal. Depois do fenômeno WhatsApp elas caíram na realidade das empresas em geral, precisaram rever preços e projetos de expansão. Em artigo de Samuel Possebom, publicado no site Teletime, ele fala das perspectivas de agregação de novos serviços a partir do 5G. As teles não querem ser apenas uma infraestrutura de telecomunicações, mas sim provedoras de novos serviços, mais rentáveis e customizáveis.


E AGORA, JOSÉ?


A conversa em torno do 5G tende a ser outra a partir de agora. Pois esse é o tipo de tecnologia que não é um fim em si mesma. Se um celular vai precisar de apenas 30 segundos para baixar um longa metragem em 8K, isso significa que esse poder de comunicação deve viabilizar muitas outras aplicações, verdadeiramente disruptivas. São investidas sobre os mais diversos mercados, impossíveis de serem imaginadas de imediato.

É como se inventassem um superalimento, capaz de suprir todas as necessidades nutricionais e, ao mesmo tempo, agradar o paladar de todas as pessoas. A utilidade que isso teria é tão ampla que todo o mercado sentiria transformações, não apenas o de alimentação. Mas ninguém saberia em que direção essas mudanças iriam seguir.

Por isso o 5G passa a ser um desafio maior para o mercado, do que foi para a engenharia até a semana passada: “-Não era isso que vocês queriam?”, dirão os engenheiros. Agora, falta mostrar o que vai justificar tantos investimentos e sinapses ao longo de anos.

A inovação, muitas vezes, é traiçoeira. Está ali, diante de nós, e mesmo assim deixamos passar. Como foi a onda OTT. A ideia de usar a Internet para streaming de vídeo acumulava cada vez mais dólares e anos de cadeia para os operadores piratas. Até que o Netflix resolveu amarrar as pontas para que esse tráfego acontecesse nos termos da lei. A ideia do aplicativo que emula hardwares agitou as garagens nerds e agora ninguém aguenta mais apps.

Já a tecnologia de computação em nuvem teve uma história diferente. Foi algo que não poderia ter surgido por acaso, numa sacada comercial. Em termos de complexidade está numa escala muito distante, envolveu batalhões de especialistas de várias áreas. E agora é um coringa poderoso no carteado tecnológico.

Os exemplos servem para pensar como vai ficar a cabeça dos profissionais da área de desenvolvimento de produtos. Estarão procurando problemas como nunca, uma vez que agora têm em mãos uma poderosa ferramenta para soluções. E você? Já pensou o que pode melhorar na sua área, no seu trabalho, com uma conexão tão poderosa? É bom dedicar um tempo para essas reflexões, porque ninguém vai ficar fora desse grande desafio.

x

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

SERIAM 20 ANOS LUZ?




“O que não está no Google, não está no mundo”. Ainda não é exatamente assim, mas a cada dia fica mais perto de ser. Da ameba ao Sumo Pontífice, passando por todo o espectro das coisas vivas, animadas e inanimadas, até os minerais. As artes em todas as formas existentes, os momentos de especial fruição, grandes construções históricas ou a casa onde você mora, está tudo ali. São as luzes do conhecimento, toda espécie de conhecimento, a luz do seu caminho.

Faz 20 anos que a Terra tem seu próprio índice. É o Google, portal de toda a Internet. Lá estão o presente, o passado e até o futuro, que nem existe. Desde o futuro agendado, pelo menos, até o futuro sonhado, mais fantasioso. O Google é a grande panaceia do início deste século. Os números, quase inútil falar sobre eles. Representam grandezas difíceis de imaginar. Por exemplo, a quantidade de informações processadas pelo Google em um único dia é algo em torno de 20 petabytes (o número dez, seguido de quinze zeros). Se considerar tudo que já foi escrito no mundo, em todos os idiomas, desde que a escrita existe, em arquivos computacionais somaria um total de 50 petabytes.

Acho que nada disso conseguiu impressionar você, não é mesmo? Nas últimas semanas você deve ter lido alguma outra coisa mais surpreendente. Que encontrou pelo Google, muito provavelmente. Se o Google fosse uma emissora de TV americana, há muito tempo já teria sido objeto de intervenção do governo, por causa da “audiência” hegemônica. É o endereço mais acessado da Internet, cerca de 63 mil vezes. Por segundo!

É aí onde está o assunto. O negócio Google é algo fantástico, que nesses 20 anos nos chamou atenção progressivamente. Algo muito diferente daquilo que nasceu para ser. Que foi se descobrindo ao longo do tempo, pelas funcionalidades que ele próprio ia revelando na vida das pessoas.

O Google é o espaço digital por onde todos passam, apenas passam. Não produz conteúdo e tem o maior conteúdo disponível. É apenas uma porta que, ao adentrar, você está no ambiente que queria, o que estava procurando.


MUDANÇAS RADICAIS


O grande site de buscas, porém, está se tornando o elemento mais devastador com o qual o mundo midiático já se deparou. E, ao contrário dos sobressaltos anteriores, esse caso está sendo cruel. Após a chegada do rádio, que fez tremer a imprensa de então, o que se viu foi uma potencialização das duas mídias. A TV também chegou assustando, mais o efeito prático confirmou as mesmas alvíssaras. A Internet talvez pudesse também ser conciliada, mas não com o Google.

Comerciais de TV traziam grandes produções. Primores em técnicas de iluminação, direção. Até o elenco. Você lembra daquele anúncio em que Michael Schumaker disputava uma largada com um avião militar de caça? Grandes vídeos da Coca-cola, cigarros Hollywood, lançamentos de carros de luxo. Foi desse nível de excelência de produção que saiu a maior parte dos diretores de sucesso no Cinema Brasileiro. Mas, no caixa dos anunciantes, nada disso demostrou melhor custo/benefício do que um “tijolinho” no Google. Aquele anúncio básico do básico, um retângulo com algumas palavras e um link.

A propaganda do tipo boca a boca, há muito tempo considerada a mais eficiente, foi superada pela tela a tela. Primeiro pela escala, mas principalmente pela personalização alcançada. Quando o servidor lê seu IP você deixa de ser um potencial cliente, como acontece nas outras mídias, para ser um quase-cliente. Sua barriga bateu no balcão de quem vende aquilo que procura. Aquele anunciante é parte da sua intimidade, o conhece melhor do que o companheiro de pelada. Ou a amiga do salão de cabeleireiro. Uma vantagem tão grotesca que permite ao Google dizer algo do tipo “só paga por clientes que entrarem na sua loja, em função do anúncio”. Toda a operacionalização por conta de bots que não custam salários nem benefícios, e são de uma eficiência notável.

O Consultor Neil Patel, relacionado pelo The Wall Street Journal entre os mais influentes do mundo, considera a tecnologia do motor de buscas do Google uma das mais complexas existentes. Taí, não é pra amadores. Todo mundo já ouviu falar em algum outro site de buscas, mas quase ninguém passa por eles. O Google domina 78% desse serviço. Mesmo assim não cansa de investir em aprimoramentos.

Essa performance inalcançável faz do Google um alvo, não apenas de polêmicas, mas de conspirações públicas. Especialistas de várias áreas inventam e propõem formas de estabelecer controles sobre o site. E isso só não deve ter acontecido até agora porque se trata de uma empresa nativa dos Estados Unidos, maior mercado mundial e que possui as forças armadas mais poderosas do Planeta. Que contam com a colaboração estratégica do site. Com tanto conhecimento sobre todos, o grande site de buscas está destinado a continuar colecionando polêmicas.


O PESO DO SUCESSO


A despeito de abusos, que em alguns casos aconteceram, essa coisa de ser único, o máximo, tem um preço. Tanto que até em suas virtudes o Google é criticado. Por exemplo, por oferecer pequenas “amostras grátis” de conhecimento capazes de simular, em vaidosos ignorantes, ares de intelectualidade. Os verdadeiros (intelectuais) protestam pois, esses fragmentos do saber podem levar pessoas a formar opiniões sem entender exatamente do que estão falando. Como se esse tipo de problema não acontecesse também entre os acadêmicos, por limitações pessoais ou até por vieses impostos durante a formação. O conhecimento sempre acrescenta. Porém, saber identificar, classificar e associar os fragmentos faz parte da consolidação do conhecimento como verdade universal.

A postura de erudito, a cultura cheia de estilo, podem ser simulados com mais eficiência, ou menos. Não há necessariamente uma relação com o verdadeiro saber. A estética do saber é a humildade. Se no passado, determinadas informações só poderiam ser obtidas em círculos restritos, hoje os menos estudados podem atenuar a ignorância passeando pelo Google.

Nesse contexto, há que se destacar o Wikipedia. A ferramenta colaborativa tem compromissos didáticos, universalistas e até fraternais. Uma linguagem de programação simples, abrindo espaço para que o conhecimento se manifeste, com as ressalvas devidas em cada caso. Quem já não usou, e com sucesso? Ainda assim, o wiki é o retrato do “conhecimento fácil” imputado ao Google.

Tem ainda o vício de se exigir uma certa disciplina, uma espécie de sacrifício devido ao conhecimento. A academia conserva e até reverencia esse sofrimento. Desde os tempos de Sócrates até as narrativas atuais de sucesso, há uma virtual expiação nas tramas do saber. Isso pode ser responsável pela ignorância, apesar da inteligência que determinadas pessoas, de fato, possuem. Uma visão elitista que, possivelmente, será ultrapassada por metodologias de ensino mais eficazes. Não causará nenhuma surpresa se essas novas metodologias incluírem ferramentas do tipo Google entre seus instrumentos transformadores.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

O OVO QUE NÃO QUER CALAR




Este sólido, insurgente da revolução elíptica, o ovo, começa a ganhar um significado relevante nesses nossos dias. No Brasil eleitoral, logo após um período tão conturbado, o debate político aponta problemas e dúvidas de um país que quer recomeçar. Ou será que ainda nem começou enquanto nação? O dilema remete ao ovo (da culinária), que não pode existir senão a partir de uma galinha e esta, que não pode existir senão a partir de um ovo. Qual teria vindo primeiro?

A Era das Grandes Navegações, que deixou o mundo redondo, veio antes do GPS, o que pode parecer uma contradição, se vista pelos protocolos atuais. Mas a bússola veio antes, e isso só deve ter acontecido porque ainda antes, o homem, errante, decidiu deixar um lugar em busca de algumas respostas.

Muito bem, é a partir desse tipo de enrolação, dessa falta de objetividade, que são abordadas questões importantes de gestão para o Brasil onde navegamos. E as coisas não acontecem não é por falta das condições ideais, das verbas ou provérbios.

Já faz quase uma década que se ouve falar uma dúzia de nomes equivalentes, trocados ao longo do tempo e de partidos, visando a expansão da banda larga no Brasil. Gastaram até alguns bilhões com um satélite que ficou quase um ano perdido no espaço. Mas até hoje, no país "verifica-se que não existe uma política pública de banda larga com visão de longo prazo, ...”. As aspas são devidas porque as palavras fazem parte de um acórdão do TCU, o Tribunal de Contas da União, assinado na semana passada. Mais do que isso, o documento aponta que “... não existe (sequer!) uma instância de coordenação atuante para integrar as iniciativas, suas inter-relações com outros setores e outras esferas de governo.”

Agora não se trata de intriga de oposição. O TCU explica que constatou a existência de muitos brasileiros que não têm acesso a Internet, o que representa uma ampla desvantagem para essas pessoas. Por isso decidiu elaborar o estudo, analisando centenas de documentos e decisões. Eles contradizem toda a propaganda que você pagou para ver na TV, enaltecendo medidas para universalizar o acesso à Internet no Brasil. Propaganda enganosa, agora, comprovadamente enganosa.


QUE PLANO É ESSE!?


A decisão do TCU tem quase tudo para repercutir bastante nas próximas semanas. O único atenuante é a impopularidade do atual governo, cuja fragilidade já tem sido exaustivamente comentada. No entanto, as falhas de gestão apontadas no caso específico, possivelmente são rotina em programas e políticas públicas há muito tempo, não são exclusividade do atual governo.

Dentre os vários trechos do acórdão apresentados por Samuel Possebon, em artigo para o site Teletime, vê-se que foi necessário descer até os detalhes mais elementares da elaboração de um plano de ação qualquer. O documento do TCU aponta que não houve "previsão de fontes de financiamento e de recursos necessários à sua implementação, (...) definição de ações, metas, indicadores, prazos, responsáveis por ações, competências de atores envolvidos, instâncias de coordenação, mecanismos de monitoramento e avaliação e previsão da periodicidade de sua atualização". Chega a sugerir que o MICTIC – Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação se aproxime de uma comissão do Senado para propor mudanças na lei que regulamenta o FUST. Para que o FUST possa destinar recursos para a banda larga. Basicão, não é mesmo!?

O Tribunal recomenda ainda que a Telebrás divulgue em 90 dias a “definição de localidades onde inexista oferta adequada de serviços de conexão ...". Não ter ainda a definição dessas localidades seria um sinal de que a Telebrás não sabe nem a quem, ou a quantos, seus esforços vão servir. Como escolher uma camisa de presente a alguém que você não conhece e não tem nenhuma noção do tamanho que a pessoa veste.

Para o TCU está claro que esse mapeamento é fundamental, uma vez que “os investimentos públicos são componente importante para viabilizar a construção de redes onde a atratividade econômica seja menor e, portanto, em áreas que não atrairiam investimentos privados por si só". Destaca ainda que os termos do Plano Nacional de Conectividade "não possuem mecanismos que evitem o direcionamento de recursos públicos para áreas, que mesmo desassistidas em um primeiro momento, apresentam grandes probabilidades de constarem, no curto prazo, nos planos de expansão das operadoras privadas... ".

Ainda sobre o programa Internet para Todos – nome mais recente da universalização da banda larga – o TCU quer que o MICTIC apresente "os critérios de escolha das localidades atendidas pelo programa (…) assim como o critério para adesão das localidades que manifestem interesse em participar do programa". Sem essa transparência, fica fácil para favorecer as localidades lideradas por aliados políticos.

Por fim, o acórdão do TCU cita as "dificuldades de negociação para compartilhamento de infraestrutura (postes, dutos, torres e fibras ópticas) entre prestadoras de serviços de telecomunicações e concessionárias de outros serviços públicos". Isso levaria a investimentos em duplicidade.


ASSIM É A VIDA NO TRONO


Depois de relatos tão pormenorizados, fica difícil acreditar que essa prática – ou melhor, essa impraticável gestão – esteja restrita a um programa de um único ministério. Em outros recentes governos houve casos de obras de construção civil em aeroportos, sem qualquer projeto: “-Tá vendo aqui? Levanta uma parede de tantos metros de altura até lá naquela ponta. Depois eu resolvo onde vai levantar as outras paredes e qual vai ser a cobertura.” Mais ou menos assim.

Não é de se estranhar que não haja dinheiro que sustente a máquina pública. Não tem como sobrar alguma coisa para os hospitais, para as escolas, muito menos para a segurança do principal museu da América do Sul. Um cineasta, que iniciou um projeto no Museu Nacional, disse que depois de cumprir a burocracia para obter a autorização, ficou sozinho com sua equipe, durante várias noites, sem que ninguém se importasse com o que poderia acontecer com o acervo.

A gente ouve tanto falar em mazelas na gestão pública! Informações desse tipo já não causam estranheza a muitas pessoas. A questão é que, dessa vez, está tudo documentado por um tribunal. Como tribunais de conta não têm poder judicante, para determinar obrigação de fazer, vai depender da mobilização de outras instâncias. De imediato, o que nos resta, é procurar fazer uma boa escolha para o próximo dia 7 de outubro.