sexta-feira, 31 de agosto de 2018

O QUE É QUE VOCÊ SABE?




Sócrates, o sábio, se reaparecesse hoje na Terra teria, logo de cara, um emprego de destaque. Provavelmente seria Gerente de Recursos Humanos. E do Google!

Poderia gerenciar a área também na Apple, ou na Ernst & Young, Bank of America, IBM e outras tantas grandes corporações empresariais, que não exigem mais diploma de nível universitário. É o que aponta recente levantamento do Glassdoor, um site de empregos americano. As grandes empresas, cada vez mais, valorizam o conhecimento, ao invés das credenciais mais tradicionais dele. Tudo isso tem muito a ver com Sócrates.

Primeiro porque Platão, seu discípulo mais notável, nos diálogos de “A República” deixa claro o quanto era caro ao seu mestre o verdadeiro significado de conhecimento. Depois porque, sem ter em mãos a tradicional coleção de certificados e diplomas, os gerentes de RH têm de ser mais inteligentes para conseguir encontrar os melhores. E por fim, Sócrates não deixou nada escrito, pelo menos que tivesse chegado às mãos de alguém próximo dos nossos tempos. Há quem desconfie que ele era analfabeto. No mínimo, não tinha aquela mania de relatórios longos, fazia o estilo mais informal.

Essa visão menos acadêmica do conhecimento está pondo em cheque os modelos mais tradicionais de ensino. Eles demonstraram eficiência em treinar pessoas para enfrentar tarefas muito específicas: entrar em uma faculdade concorrida, de renome, passar num concurso público para um cargo de destaque, ou até mesmo para formar alunos em universidades rigorosas. A questão é que, na vida real, muitas dessas pessoas não demonstram verdadeira aptidão para fazer frente aos principais desafios da função.

Lazlo Bock, um entre os VPs do Google, lançou um olhar lógico sobre a questão: “Quando você olha para as pessoas que não vão para a escola e conseguem seguir o seu caminho no mundo, eles são seres humanos excepcionais. E deveríamos fazer todo o possível para encontrar essas pessoas.”


INTELIGÊNCIA PODE SER INÚTIL?


A dúvida de Sócrates parece estar longe de uma resposta qualificada. Quase 2.500 anos depois de ele ter dado um nó na cabeça de Teeteto, ao perguntar “o que é o conhecimento”, ainda não sabemos dizer exatamente nem o que é a inteligência. Até uma afirmação aparentemente fantasiosa do sábio quase se revelou uma premonição genial. Só que não.

Sócrates acreditava que cada homem tinha dentro de si todo o conhecimento do mundo, mas faltava aprender como acessa-lo. Em 1887, portanto, mais de dois mil anos depois, o psiquiatra inglês John Langdom Down relatou cientificamente um fenômeno que ficou conhecido como savantismo. Um paciente dele era capaz de lembrar qualquer parte do extenso texto “Declínio e Queda do Império Romano”, que se apresenta em seis volumes. Outros casos de pacientes semelhantes passaram a ser notificados a partir de então. Não era a genialidade oculta dos humanos, prevista por Sócrates. Na grande maioria são autistas ou vítimas de lesões neurológicas, normal não tem nenhum.

São pessoas incapazes de tomar um ônibus sozinhas, abotoar as próprias roupas ou sequer conversar sobre qualquer assunto. Mas conseguem fazer cálculos muito complicados de cabeça, antes que alguém consiga dedilhar metade dos algarismos numa calculadora. O resultado prático dessa capacidade dos savants é nulo, uma vez que eles não conseguem usar para nada todas essas habilidades intelectuais e de memória. Talvez por isso esse curioso perfil de retardamento mental também tenha sido denominado “síndrome do idiota prodígio” ou “idiota savant”. O termo savant, em francês, significa “sábio”.

E então, o que adianta decorar um livro de 300 páginas em 40 minutos – como era o caso de Kim Peek, outro savant bem conhecido pela Medicina – se não haverá qualquer utilidade prática para isso? Seria esse o conhecimento que Sócrates tanto buscou conceituar?

Voltando ao gerente de RH... Fica difícil se virar para decidir uma contratação, depois de conhecer um savantista numa entrevista de empregos. Alguém que consegue aprender um novo idioma sozinho, em poucas semanas, usando apenas dicionários e alguns outros livros, certamente seria muito útil a uma empresa. Mas até hoje essa hipótese não se confirmou em nenhum caso concreto.

A inteligência artificial é uma prova de que já foram identificados caminhos para obter soluções autônomas a partir de dados. Robôs já conseguem tomar conta de parte dos SACs de lojas de departamentos. No entanto, nada disso passa perto das decisões capazes de levar uma empresa ao sucesso. Muito menos de produzir a autêntica inovação. 


TEM AULA DEPOIS DO EXPEDIENTE


Isso não quer dizer que podemos esquecer MBAs, faculdades ou pós-graduações. Aponta simplesmente para a necessidade de os especialistas do setor pesquisarem e repensarem por completo os atuais sistemas de ensino. Começando pelo que se conhece por “educação básica”, que atualmente não tem nada a ver com educação e não serve de base para quase nada.

No que diz respeito às decisões pessoais quando o assunto é qualificação profissional, possivelmente a análise exija um raciocínio bem contextualizado. No Brasil, em algumas áreas da Agricultura, como citricultura ou setor sucroalcooleiro, estamos em condições de produzir tecnologia de alto nível, com soluções inovadoras. Na grande maioria dos outros setores a tecnologia tende a chegar pronta. O que nos resta é fazer as adaptações e, para isso, especializações rápidas, de perfil mais prático, devem ajudar. Pós-graduação aprofundada, stricto sensu, só se for na área de Administração.

O Ginga, um middleware totalmente desenvolvido aqui, para sistemas de TV digital, é um caso emblemático. O software passou a ser reconhecido mundialmente pelas instituições de maior prestígio como o ITU. No entanto, a indústria de televisores decidiu investir em outras alternativas. Preferiu soluções que faziam parte de modelos de negócios globais, como as aplicações de OTT, mais importantes para as metas de longo prazo das fabricantes. E o Ginga passou a ser mais um troféu da nossa Academia, sem que tivesse alavancado nenhum grande negócio.

Por fim, para decidir como se preparar para o futuro próximo, considere também o seu perfil pessoal. Como você se sentiria trabalhando numa repartição pública ou num banco estatal? Se isso lhe soa bem, tenha certeza de que diplomas e certificados vão ajudar muito. Há aumento de salario e funções superiores garantidas em lei para quem tem mais diplomas. Pode observar que, entre seus amigos de juventude mais capacitados, muitos estão em empregos públicos. Vivem a tranquilidade da estabilidade, num país como o Brasil.

“Em tempos de inovação a única certeza é de que, em 10 anos, você vai fazer quase tudo de um modo diferente, mesmo que esteja no mesmo emprego e na mesma função.” É o caso dessa frase, que você já ouviu antes. Há 10 anos era instigante, surpreendente e hoje é a típica “frase feita”, mero lugar comum. Enquanto a gente procura por aqui uma maneira diferente de exemplificar inovação, você vai aprendendo por aí algo inovador para apresentar como alternativa para o seu chefe.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

UM NOVO NEGÓCIO BROADCAST VAI NASCER




Não vai ser, com certeza, mais uma edição da SET EXPO, apenas. Tem tudo para ser uma edição discretamente histórica. Discreta porque, enquanto estiver acontecendo, vai parecer só um evento de sucesso. Depois passa algum tempo até que os fatos decorrentes aconteçam, acumulem efeitos e assim, os registros apontem 2018 como o ano em que a nova televisão começou no Brasil.

Previsões costumam ser uma insensatez. Mas, em alguns casos, elas conduzem a reflexões importantes. É o que vamos tentar aqui. Num momento em que o fim da TV nunca foi tão anunciado.

Até há elementos para construir a lógica do swicht off das emissoras. Assim como levar a família numa pizzaria pode ser considerado um completo absurdo, já que, nos dias atuais, é bem mais lógico a pizza vir até em casa. Esses tempos de muita concretude estão servindo para mostrar mais ainda o quanto o ser humano ignora a lógica em várias decisões. Ou melhor, o quanto a emoção é mais convincente do que a razão.

Na SET EXPO 2018 a TV começa a ser contemplada com um novo elemento. Ela vai incorporar mais amplamente o ambiente web, vai assumir seu papel de Suprema Tela, diretamente integrada à todas as outras. O modelo híbrido RF/IP deve estabelecer um canal privilegiado de comunicação com o smartphone, o controle, remoto e in loco, do cidadão do Século XXI.

Em breve, todos vão entender que broadcast não é apenas um sistema de difusão. É um fenômeno social que acompanha a espécie desde a Ágora grega. É a voz e a visão que, em determinados momentos da vida social, precisam ser levadas a todos num mesmo instante, em todos os lugares. Vai ser pelo menos arriscado – além de entediante – cessar essa experiência.

Sob esse olhar, o novo plano de negócios da TV brasileira vai começar a ser desenhado na SET EXPO 2018. Novos atores devem se aproximar, para dar outra forma a essa indústria jornalística, de entretenimento e de prestação de serviços, pelo menos. O “lego” tecnológico está com todas as peças na mesa. Algumas certamente vão estar em algum lugar do projeto. Agora o mundo broadcast começa a escolher as outras peças e os melhores encaixes, até chegar à “estética” e às funcionalidades mais vendáveis da nova TV brasileira.

INTERATIVIDADE ATÉ AS ÚLTIMAS CONSEQUÊNCIAS


No começo deste século a grande promessa no Brasil, com a chegada da TV digital aberta, era a interatividade. O sistema japonês, base do que foi adotado por aqui, tinha essa questão solucionada. Mas acabou não acontecendo, inclusive por força do lobby da broadband.

Agora é a própria Internet, via aplicativos específicos, que propicia a mais ampla interatividade na TV aberta. Ela vem de um “endereço” que tem o mesmo nome do local por onde transitam os sinais de radiofrequência (RF): as nuvens. Só homônimos, uma vez que os verdadeiros locais não têm qualquer proximidade física. A tecnologia cloud, que está transformando os próprios sistemas de informática, tem tudo para ser a conciliadora ideal na disputa broadcast x broadband.

Justamente por isso que a plataforma EiTV CLOUD se tornou a mais completa do Brasil e conquistou clientes em outras partes do mundo. Integrada a aplicativos para celulares, tablets, TVs e a um portal web – tudo 100% personalizado, com marca e layout definidos pelo cliente – torna-se a onipresença da emissora em qualquer hora e lugar do mundo. Ela pode ser considerada a interatividade de quarta geração, pois dá acesso aos dois lados da tela – o de fora e o de dentro – para qualquer pessoa logada. E a emissora tem o poder de enviar e receber qualquer arquivo audiovisual, definir quem tem acesso, por quanto tempo, gratuitamente ou não, com total controle de pagamentos. Pode interagir com grupos ou individualmente, aplicar testes, com tempo limitado ou não.

Com esses e outros recursos que a plataforma oferece qualquer cliente coloca no ar uma emissora de televisão, ou uma universidade virtual, lojas, serviços de streaming de vídeo e muitos outros. Tudo programado para funcionar com total autonomia. Basta contratar o serviço e o custo varia de acordo com a quantidade de arquivos movimentados na nuvem.

No caso de uma emissora, imagine o ganho com a liberação de todo o espaço físico, uma vez que os arquivos ficam na nuvem. Qualquer editor poderá acessar ou inserir os arquivos que quiser, contando com indexação e buscas com total eficiência. Ao mesmo tempo, os telespectadores que baixarem o aplicativo passam a ter acesso aos arquivos que o administrador liberar, pagando o preço estabelecido, a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer lugar do mundo, tudo automaticamente.

A NOVA GERAÇÃO BROADCAST DTVi


O Brasil é assim. Enquanto algumas emissoras se preparam para implantar o sinal digital, outras já estão trocando equipamentos com mais de 10 anos de uso. Tem ainda o ritmo digital, que evolui muito rápido, em muito pouco tempo surgem soluções mais eficientes, os preços caem. A EiTV tem soluções broadcast para todas essas situações, da implantação ao upgrade.

A mudança para o sinal digital hoje pode ser feita com um único equipamento, entre a saída SDI do controle mestre e o transmissor. É o EiTV Dual Channel Encoder. Geradoras e retransmissoras, no Brasil e América do Sul, já adotaram e recomendam.

Para quem vai tirar definitivamente o sinal analógico do ar, o EiTV CC Box é a maneira mais prática e segura para orientar a audiência. A pequena caixa recebe o sinal digital e gera o simulcast (analógico e digital) a partir dele. No sinal analógico insere os avisos da data do switch off, nos dias e horários previamente programados ao longo de um ano.

A linha EiTV Inspector foi desenvolvida para apurar todos os parâmetros de qualidade do sinal. Analisa também as tabelas e outras funções. Grava toda a programação, como arquivo legal, por um período de até 3 meses. A versão EiTV Inspector Box trabalha na outra ponta. Faz a leitura da qualidade do sinal em qualquer ponto da área de cobertura. Para serviços de assistência técnica de televisores o equipamento aponta se o defeito está mesmo no televisor ou na qualidade do sinal.

O EiTV CC Studio automatiza toda a função de geração de legendas ocultas. Converte em texto o áudio da programação, sem exigir operação humana. E ainda reconhece automaticamente o closed caption de qualquer outra fonte, da rede, de locução, script, etc.

E como as telas são a especialidade da EiTV, a empresa lançou no mercado uma tecnologia que desenvolveu para o centro de comunicações da Copa do Mundo. O sistema é indicado para hotéis, por exemplo, onde dezenas, ou até centenas de aparelhos de TV cabeados precisam funcionar de maneira independente em cada apartamento. É o EiTV IPTV Server, um set-top box que disponibiliza para cada aparelho o acesso a todo o sinal que o hotel oferece. Pode ser usado também como hotspot WIFI para reforçar o sinal da Internet, além de acesso a serviços de quarto. O cabeamento pode ser o mesmo que já estiver implantado. O sistema reduz drasticamente os custos de manutenção e de operação.

A Engenharia de Televisão vai ganhar cada vez mais importância, num mundo que nunca antes teve tantas telas. E que terá cada vez mais. A EiTV faz parte do ecossistema imagético global e por isso tem um estande de tradição na SET EXPO.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

O MUNDO NÃO É PEQUENO




O aquecimento global é um dos raros entes da atualidade que faz jus ao sobrenome. Os demais “global” estão mais para apelido da mídia, não são exatamente aquele global raiz. Economia global, moda global, tendências, nem petróleo pode ser chamado de combustível global. Pois 33% da população mundial ainda usa madeira como a principal fonte de energia. Aqui no Brasil só na Década de 1970 o petróleo passou a ser uma fonte de energia mais importante do que a boa e velha lenha.

Daí que o Facebook também não é tão planetário assim. E o principal motivo é que ele não entra na China, onde hoje vivem quase 20% dos habitantes da Terra. A gente aqui contemplando o umbigo e muitas vezes se esquece de que, somando a população da China com a da Índia, passa com folga um terço da espécie humana. Só dois países, existem quase 200 pelo mundo. Que coisa! E olha que hoje não dá para dizer que não tem televisão por lá.

O mais significativo nessa conversa é que a China é a segunda maior economia. A taxa de crescimento dessa economia é bem maior do que a americana, que (ainda!) é a nação mais rica em nível global (raiz, no caso).

Os mandarins não têm exatamente um “Facebook”. Por lá essa interação virtual entre as pessoas acontece de um jeito muito mais centralizado. A grande rede social chinesa é uma evolução do chat, cujo nome popularmente se pronuncia weixin. No “registro”, o aplicativo chama-se WeChat.

Nasceu de uma cópia do pioneiro ICQ. Como negócio, patinou no prejuízo durante quatro anos mas contou com a conhecida “reserva de mercado” chinesa e apoio financeiro estatal, erguendo um conglomerado poderoso chamado Tencent. O valor de mercado hoje ultrapassa o do Facebook. Muito mais ainda que os similares ocidentais, é a quantidade de ferramentas disponíveis no aplicativo chinês.

Por exemplo, pelo Facebook até dá para procurar um emprego, ou uma namorada. Pelo WeChat, também pode. E ainda pedir uma refeição, chamar táxi ou mesmo fazer compras online. Já é algo mais. Tem outras ferramentas que tornam o principal aplicativo da Tencent um acesso completo a vários bancos. Puxa vida! Porém, tirar um documento de identidade e até se divorciar, não é coisa que se espere de uma rede social. Pelo WeChat, qualquer chinês consegue, além de vários outros serviços.

LIÇÕES DE BENCHMARK, VINDAS DE ESPECIALISTAS


Entenda por “... além de vários outros serviços” não apenas os que já são oferecidos na plataforma WeChat, mas muitos outros que ainda virão. Pois este é o negócio da Tencent: lucrar com os serviços que ela disponibiliza aos usuários, cobrando uma taxa por isso. Por exemplo, um corte de cabelo agendado por meio do WeChat vai render 10% do valor do corte para a plataforma.

Um estudo da Golden Sachs, citado pelo portal UOL, concluiu que o WeChat, enquanto negócio, é uma plataforma de distribuição. Um canal ideal para conseguir serviços mais práticos e eficientes, também para dar visibilidade à novidades que são lançadas. Tanto que a publicidade, carro chefe do Facebook, é limitada no WeChat, para não poluir demasiadamente a experiência de cada usuário.

A versão mobile do Facebook estaria adotando essa mesma estratégia, segundo o entendimento de alguns especialistas. Digamos, um benchmark adotado por Zuckerberg, a partir de um produto do “reino” do benchmark mundial, a China. É por isso que a conversa entre usuários, ou seja, o chat do Facebook, teria migrado para o aplicativo Messenger, acessível aos dispositivos móveis. O Messenger permite que clientes instalem apps, para vender serviços aos internautas logados.

Tantos apelos pela inovação mas o sucesso financeiro dos negócios ainda depende muito de boas cópias ou, no mínimo, de alguma esperteza. Se nesse caso do benchmark do Facebook não há o que censurar, a história da empresa em si tem, na esperteza, um capítulo decisivo. Muito parecido também teria acontecido com o DOS, da Microsoft, na sociedade que deu origem ao McDonalds, no avanço espantoso da indústria chinesa. A lista é muito longa.

É mais ou menos como se, nos tempos de criança, alguém pegasse a sua bicicleta e conseguisse pedalar mais rápido do que você. Mesmo que um amigo lhe emprestasse outra, você não alcançaria o espertalhão. Daí a bicicleta passaria a ser dele e não mais sua. Com direito a condecoração do “diretor da escola”, como vimos ser enaltecidos por autoridades públicas, alguns desses “vencedores”.

Talvez esses lances curiosos no jogo empresarial estejam mais em evidência agora, nesses tempos em que os bilionários são mais conhecidos. No passado, quase ninguém conhecia os nomes que a revista Forbes divulgava no topo do poder econômico. Também pudera, eles vendiam petróleo. Ou outros minerais, commodities, coisas que a grande massa vai adquirir como matéria prima de vários produtos do varejo, depois do processamento em longas cadeias. Hoje é bem diferente, o que enriquece são tecnologias que as massas adquirem diretamente das marcas que produzem. Por isso os empresários que estão à frente desses negócios usam a própria imagem pessoal para promover seus produtos, gerar alguma empatia e mais credibilidade. Os ricos do passado precisavam ser discretos, não havia tanta exposição, o que pode ter feito algumas trapaças passarem em branco.

PODEMOS FAZER MELHOR


Se o global ainda está mais para apelido, mesmo assim muita gente está acreditando e investindo nele. Parece que depois da fase de descobertas de novas terras, da consolidação de estados e fronteiras, o poder não persegue mais o desconhecido, mas sim, formas de expansão sobre o que já é de domínio dos outros.

Nesse caso, ganha muito importância a experiência desse “intra planeta” China, onde se produz tudo que se possa imaginar, e tem um mercado interno capaz de sustentar qualquer negócio. Um micro-global por excelência. Quando grandes empresas de TI começam a projetar veículos com suas marcas, o Netflix adquire estúdios, o Facebook compra o Instagram e o WhatsApp, percebe-se uma tendência à expansão em nível global. Assim como a Tencent adquiriu algumas das maiores fabricantes de games de sucesso, um dos principais produtos que ela oferece.

O risco aí, mais uma vez, é do indivíduo. Ele está perdendo espaço para o consumidor, embora ambos sejam perfis de um mesmo ser. Depois do episódio Snowden, dos vazamentos do Facebook, das suspeitas sobre o Google, o que não pensar sobre os dados pessoais dos cidadãos chineses? Essas grandes corporações de TI são muito íntimas nos círculos do poder e a facilidade de transferência de dados em massa dificulta qualquer esforço de fiscalização.

Tudo isso nos faz pensar no mundo que vem por aí. Não se trata de uma ladainha derrotista, recalcada, sob uma atitude vitimista. É apenas mais um toque de alerta, para lembrarmos da importância prática que a ética terá de alcançar em nossos próximos dias.


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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

PREVISÕES, CERTEZAS E O FUTURO



O fim do mundo não foi no dia 21 de dezembro de 2012, como teriam previsto os Maias. Não foi pouco depois, como jurava uma vidente. E nem o velho Nostradamus está dando conta de agendar a apoteose de encerramento. Até a TV linear, muito mais simples de ter seu fim previsto, está longe de um palpite mais categorizado.

Em artigo publicado por Stuart Thomson na semana passada, no site DigitalTV.com, é apresentada uma série de dados interessantes sobre a TV paga no Reino Unido para, ao final, não concluir coisa alguma sobre um eventual switch off da TV linear: “Pode ser gradualmente ou de repente”. Tipo aquela fumaça que se lança para o céu, sem que ninguém consiga ver o fogo.

Previsões costumam ser inúteis. Aí estão as bolsas de valores que não nos deixam enganar. Séries históricas muito detalhadas, matemática aos montes, dados cada vez mais precisos sobre fundamentos, especialistas analisando 24x7 pelo mundo todo. E todo dia muita gente bem informada perde dinheiro.

Voltando à TV, parece mais inteligente pensar qual será o novo modelo de negócio para a TV aberta e para os canais por assinatura. Esse último deve ser mais difícil para conjeturar aqui, uma vez que envolve uma infraestrutura maior, um sistema de faturamento muito mais complicado, negociações constantes para garantir conteúdo. Além do fato do Brasil ser caso único no mundo no que diz respeito a esse tipo de negócio.

Mas a TV aberta tem muitas alternativas para uma reengenharia. E isso nem significa que só uma dessas alternativas será viável. Talvez alguns modelos possam conviver num novo ecossistema broadcast, dependendo apenas de uma adequação entre os vários perfis de empreendedores e os mercados onde cada um estará atuando.

Um ponto de partida, afortunadamente, vai servir para qualquer modelo de TV linear. São os “programas âncoras” ou sei lá como são denominados os grandes eventos esportivos e mega shows, cuja transmissão ao vivo depende da TV. E que o público das poltronas não abre mão de assistir. Esse público vai procurar, pelo menos nessas ocasiões, as redes de TV.


OS NÚMEROS DA DISPUTA


O artigo de Stuart Thomson está baseado em dados recentes divulgados em relatório do Ofcom, uma espécie de Anatel no Reino Unido. Ele tenta mostrar que está perto o momento em que a TV linear, essa tradicional, que tem uma programação semanal com horários fixos, vai perder o primeiro lugar na preferência do público que consome vídeo. O domínio passaria a ser dos serviços OTT (ou streaming), como Netflix, comerciamente denominados “não-linear”, pois não seguem uma ordem de programação.

De fato, o Ofcom constatou oficialmente que, pela primeira vez no Reino Unido, os serviços tradicionais de TV ficaram atrás, em assinaturas, do Netflix, Amazon Prime Video e Now TV. Lembrando que, por lá, a TV linear aberta tem alcance bem menor. Outro sinal de alerta está na taxa de redução no uso da TV tradicional que, no ano passado, teve uma queda além da média.

O dado mais amplo mostra que noventa por cento dos ingleses assistem à TV tradicional pelo menos uma vez por semana. Porém, em 2017, a permanência média diária dessa audiência caiu 9 minutos, se comparada com o ano anterior. Um recorte mais detalhado é que está chamando a atenção. Mais da metade dessa audiência (51%) da TV tradicional é garantida pelo público com idade igual ou superior a 54 anos. E eles representam apenas 28% da população do Reino Unido. O público infantil é o que mais está mais distante da TV linear, embora na faixa de 16 a 24 anos de idade a queda também seja significativa.

A conclusão imediata, no artigo de Thomson, é de que o avanço das novas gerações vai naturalmente levar ao declínio da TV. Faz sentido, porém, não foi considerada a hipótese de que, com o aumento da idade, as pessoas passem a dar alguma preferência à TV tradicional, totalmente na base do ligue-e-desligue (do mundo), sem precisar procurar por algo num amplo menu de opções.

Que o uso da TV paga tradicional está caindo no mundo todo, não há dúvida. Pesquisa NPD mostra que, nos Estados Unidos, 17% dos consumidores de vídeo só utilizam serviços de streaming, ou seja, se desligaram totalmente das emissoras de TV. A questão é até onde esse declínio pode chegar. O que já é dado como certo por muitos é que vai haver um ponto de inflexão. As curvas de preferência vão se cruzar, ou seja, o consumo de vídeo vai passar a ser maior via streaming. O exagero está em prever simplesmente o fim da TV linear.

Em 2014, Reed Hastings, CEO do Netflix, comparou a TV linear aos cavalos que, com o tempo, foram substituídos pelos carros, em vista das claras vantagens. Os carros seriam, portanto, os serviços de streaming. Talvez valesse refletir sobre um outro referencial de transporte, a bicicleta, em relação ao automóvel. Em termos de tecnologia e sofisticação são incomparáveis. Mas isso não impede que a bicicleta, por outros critérios, tenha aumentado muito a presença em grandes cidades do mundo desenvolvido, nas últimas décadas.


O QUE É VERDADE, AFINAL?


Há pouco mais de 10 anos, justamente quando a TV linear aberta superou a carência de qualidade de imagem, com a transmissão digital, eram os empreendedores da TV paga que previam a falência da concorrente aberta. Depois veio o OTT e as emissoras de qualquer sinal, aberto ou fechado, é que estão na mira.

Em jogo, claro, está muito dinheiro. A TV linear paga é um negócio trilionário no mundo. E os serviços OTTs estão inventando conteúdos para tomar esses assinantes para eles. A convivência dos três modelos – incluindo a TV aberta – já se mostrou absolutamente viável. Mas, entre eles, nenhum dorme sossegado pensando no que o outro pode aprontar para amanhã.

A TV aberta, ao assimilar a tecnologia digital desde a transmissão, entrou numa espiral virtuosa de redução de custos. Os espaços para produção, como estúdios de vários tamanhos, também multiplicaram e apontam para maior racionalização dos investimentos de capital. Isso pode compensar, em parte, a queda no faturamento publicitário, que será inevitável.

Além disso, os aplicativos estão levando a TV aberta para outras telas, inclusive bem longe de suas áreas de cobertura. E agora, o NewGenTV, ou ATSC 3.0, já traz a possibilidade de implantação de um sistema híbrido RF/IP nas emissoras, reunindo todas as vantagens para telespectadores e anunciantes.

Porém, mesmo levando em conta todos esses fatos, qualquer previsão estará sujeita ao efeito inesperado da principal de todas as variáveis na atualidade: é a própria tecnologia que, num piscar de olhos, pode lançar algo disruptivo e mudar toda essa lógica.

Não é por isso que as previsões vão sumir. Fazem parte dos instintos humanos mais elementares. E tem o lado bom, de acionar importantes impulsos para a inovação. As previsões fazem o mundo menos aflitivo e até mais divertido. Mesmo sabendo que apenas uma ínfima parte delas talvez vá se tornar verdade e a grande maioria vai simplesmente desaparecer. Tudo bem, nem o futuro existe de fato. É apenas a previsão mais genérica entre todas.


sexta-feira, 3 de agosto de 2018

BRASILEIRO, POR QUE NÃO?





A tecnologia dá voltas e o OTT, modelo que prosperou a partir do Netflix, pôs o mundo todo de garfo sobre a audiência da TVs, inclusive a brasileira. Pareceu uma ameaça. Mas, durante essa semana mostrou que pode ser a maior oportunidade que a indústria audiovisual brasileira já teve.

Durante o Pay TV Forum, em São Paulo, a Rede Globo anunciou que está se preparando para concorrer com o Netflix e similares no mundo todo. Será por meio de uma segunda versão do Globo Play. A possibilidade existe porque a tecnologia já é do domínio de algumas empresas no Brasil, tendo alcançado até reconhecimento internacional. O OTT é uma plataforma que gerencia arquivos de vídeo e áudio na nuvem, e pode ser acessada por um aplicativo. O conteúdo? Isso nós aprendemos a produzir há muito tempo.

É claro que o empreendimento anunciado não é um brado ufanista, mas realista, como tem de ser. Séries internacionais de primeira linha vão fazer parte do que será oferecido aos clientes. Dentre elas, The Good Doctor, The Handmaid’s Tale, Arquivo X e Moder Family. A comédia nerd The Big Bang Theory deve estrear no streaming nacional pelo aplicativo da Globo. A promessa é do Diretor Geral do Globo Play, João Mesquita. Ele garantiu também filmes dos tradicionais estúdios de Hollywood, como Warner Bros., Disney, Universal, Fox. Pequenas produtoras e filmes alternativos de várias partes do mundo vão completar o menu cosmopolita.

A experiência da Globo no mercado internacional do audiovisual deve ter ajudado bastante. Afinal, trata-se de um mercado muito fechado. O desenvolvimento da indústria cinematográfica de Hollywood envolveu todo o desenho – e domínio – da cadeia de comercialização das produções.

As distribuidoras fazem parte dessa forte conexão. No final do século passado os filmes americanos, em média, ocupavam cerca de 97% das salas de cinema do mundo todo. A histórica Vera Cruz, que se propunha a alavancar a indústria cinematográfica brasileira no início da Década de 50, naufragou por problemas de distribuição, e não por falta de qualidade nas produções.

As soluções tecnológicas, mais uma vez, estão desmontando antigos modelos de negócio, sem pedir licença. Elas criam atalhos que ignoram certas dificuldades. Principalmente aquelas que foram criadas para dar a poucos o privilégio de cobrar por facilidades. Assim as oportunidades surgem para novos concorrentes, como a Globo quer ser agora.

O novo Globo Play deve ser lançado ainda este ano. O preço da assinatura deve subir. A expectativa fica em torno de como será a campanha para lançar e promover o novo produto no mercado internacional. O Diretor João Mesquita descreve o momento do mercado OTT como algo conturbado e em transformação.


OS CONTORNOS DA HISTÓRIA


Na Arquitetura e nas Artes Visuais em geral é necessária uma distância mínima para compreender melhor cada obra. Na história, recomenda-se uma distância no tempo. Depois de mais de meio século de televisão, algumas novas especulações, com base em fatos, já podem ser testadas.

A demanda reprimida por conteúdo é uma delas. Talvez não fosse tão evidente no passado, por conta do hábito familiar de assistir à TV. A necessidade de satisfazer a maior parte das pessoas ao mesmo tempo, reduzia o poder de escolha. Na medida em que a individualização desse lazer aumentou, a demanda por mais conteúdo foi aparecendo.

Isso no caso muito particular do Brasil, onde a TV aberta e gratuita é regra até hoje. Porque em todas as outras economias de porte do planeta a TV a cabo já revelava o padrão de diversificação mínima que o audiovisual motiva. Por aqui, sem variedade na programação, a fórmula de sucesso foi o conteúdo distribuído ao longo do tempo, mais especificamente as novelas, que exigem acompanhamento diário.

A TV era ligada para ver a novela ou o Jornalismo. Por isso surgiram um bem perto do outro. O que estava nos arredores dessa programação, tinha mais chances de prosperar. E o que veio foram mais novelas. A das sete da noite, depois das dez, das seis da tarde... Muitas outras particularidades fazem parte dessa lógica, mas a verdade é que o Brasil se tornou um grande produtor e exportador de conteúdo do tipo novelas, e depois, também séries. Particularmente a Rede Globo. A “vênus platinada” não produzia apenas para a audiência aberta, mas também para revender ao Exterior. E assim, uma indústria audiovisual brasileira passou a alimentar parte da imensa clientela das TVs por assinatura pelo mundo. Gente que estava acostumada, desde sempre, a escolher e pagar pelo que querem ver.

A chegada do Netflix surpreendeu a todos na indústria cinematográfica e, em muito pouco tempo, criou um bilionário com muitos poderes. Os estúdios tradicionais parecem não se sentirem confortáveis com isso. Estão criando as próprias plataformas e abandonando o Netflix, que se vê obrigado a produzir mais e mais para atender a própria clientela. A pressa agora estaria prejudicando a qualidade do menu do atual líder no mercado OTT. Seria essa a grande oportunidade na qual a Globo está acreditando para lançar seu produto no mercado internacional.


NOVAS TECNOLOGIAS ABRINDO PORTAS


Esse efeito “democrático” da tecnologia precisa ser observado com mais daquela ambição saudável, “que ergue (...) coisas belas”. Estamos falando do empresariado brasileiro.

As novas oportunidades estão agora ao alcance de mentes férteis, conduzidas por um empreendedorismo corajoso. Basta observar quem tem dominado as primeiras posições no ranking da revista Forbes. Não são nomes ligados ao desenvolvimento de equipamentos complexos, novos hardwares. Mas sim, os que melhor souberam usar os novos recursos tecnológicos para a solução de coisas simples do cotidiano.

A Era Digital colocou o ritmo das mudanças numa outra escala. A quantidade de transformações por unidade de tempo aumentou muito e isso aumenta as chances de sucesso para mais pessoas.

As emissoras de TVs, cercadas de sério zelo nacional em vários países, ainda são concessões de direito dos estados. O mesmo no caso das rádios. Uma tecnologia como o OTT está mudando tudo isso, sem dar brechas para reações. Em princípio pode parecer uma ameaça, mas agora se vê que, aquilo que nasceu como uma emissora brasileira, poderá estar pautando a programação em outras partes do mundo. A comunicação de massa está atingindo uma dimensão global, não apenas nacional.

A inovação tecnológica está acontecendo com tal ímpeto, que não reserva todos os privilégios nem aos seus próprios criadores. Um único projeto tem tantas potencialidades, que boa parte delas só vai ser descoberta ao longo do tempo. A questão passa a ser, portanto, quem vai primeiro se dar conta do que é possível realizar, usando as ferramentas acessórias dos grandes projetos.