SUA SAÚDE E O SEU CELULAR




“-O médico está no telefone.”

O que já foi um aviso corriqueiro da telefonista no passado, hoje está conquistando ares de profecia. Questões de regência nominal à parte, também não deve ser exatamente o médico no telefone, mas o app apropriado. As maiores empresas de TI do mundo estão investindo pesadamente no segmento de saúde, por motivos óbvios.

Um estudo recente realizado pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, em conjunto com o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC – Brasil), indica que cerca de 70% dos brasileiros não contam com plano de saúde. No mesmo estudo apurou-se que 56% dos entrevistados acham que a saúde pública está piorando. Por esses números já é possível ter uma ideia do mercado gigantesco para esses aplicativos e respectivos serviços, só no Brasil.

A capacidade de processamento crescente dos celulares, os recursos agregados e a grande disponibilidade para conectar outros sensores ao aparelho, tornam nossa CPU de bolso uma potencial enfermeira, atenta 24 horas por dia. Grandes bancos de dados vão armazenar todo o histórico de pacientes, exames, medicações, diagnósticos. As observações de médicos, prognósticos e outros dados podem ser compartilhados e analisados por inteligência artificial. Sempre sob a revisão de médicos especialistas.

Se vai ser exatamente assim, em breve vamos saber. Depende dos aplicativos que devem ser lançados. Essas são apenas possibilidades visíveis desde já, e alvissareiras. Por enquanto, já é possível agendar consultas mais baratas com um toque no celular. Para exames e outras orientações, equipes treinadas dão atendimento pelo telefone.

O centenário laboratório suíço Roche, com os olhos nessa realidade, investiu US$ 1,9 bilhão na compra da startup Flatiron Health, que tem pouco mais de 5 anos de existência. E isso só para o setor oncológico.

Além do serviço de atendimento ao paciente, esses aplicativos terão o potencial milionário de processar dados estatísticos sobre ocorrência de doenças, reações a remédios, tudo categorizado por faixa etária, idade, sexo e muitos outros itens que possam ter algum significado médico-farmacêutico.


VENCER RESISTÊNCIAS E SUPRIR CARÊNCIAS


Um aplicativo jamais vai superar o cuidado e a atenção que um médico pode oferecer pessoalmente a um paciente. A questão é saber exatamente onde está esse médico. No serviço público, em consultórios populares e mesmo nos mais caros, esses profissionais estão cada vez mais raros. Reclama-se de que, no caso de uma dor nas costas, por exemplo, grande parte dos médicos sequer toca no paciente para saber exatamente onde dói. A garganta irritada, muitas vezes, primeiro engole comprimidos, para depois, num eventual retorno, ser examinada pelo médico. Isto é, se a reclamação persistir.

Do outro lado está, por exemplo, a Apple. De acordo com o site IDGNow a empresa americana quer transformar o Iphone um verdadeiro prontuário digital. O passo seguinte fica por conta dos desenvolvedores, que devem inspirar seus aplicativos nos números que vão compartilhar. O Google está investindo em parcerias para aprimorar a inteligência artificial em saúde. O Facebook investe na formação de grupos adequados para os mais diversos estudos clínicos, além da detecção precoce do risco de suicídio. E a Microsoft entrou de cabeça na área de saúde, já é a maior detentora de patentes do tipo.

A indústria farmacêutica tende a ser, cada vez mais, uma poderosa aliada de iniciativas nesse sentido. No Brasil, grandes universidades já começam a formar farmacêuticos habilitados a fazer diagnósticos clínicos. O lobby da indústria deve ter agido para que essa mudança acontecesse, uma vez que aproxima os potenciais clientes de seus produtos, pulando a etapa do consultório médico, em alguns casos.

Independentemente da expectativa que essa tendência tecnológica possa trazer para os profissionais da medicina, os dados mostram que há espaço para todos. A carência de médicos no mundo todo é antiga. E as exigências para garantir uma boa formação estão cada vez mais distantes da imensa maioria das nações. Isso deve fazer com que, em breve, aplicativos estejam nos sistemas públicos de saúde, ao invés de médicos cubanos, muito mais caros.

Por outro lado fica claro que, para os profissionais de ponta, mais conceituados, os aplicativos devem constituir um grande aliado. Há um potencial de simplificação da relação médico-paciente, além da possibilidade de multiplicar a capacidade de atendimento de um consultório.

Na medida em que eventuais resistências sejam superadas, uma tendência é de aproximação entre médicos, laboratórios e indústria farmacêutica, na busca de startups interessadas em desenvolver novos aplicativos. 

A informatização, como forma de aproximação das pontas numa cadeia de serviços, é uma realidade irreversível. Dentre outros motivos, por ter o poder de reduzir custos e gerar novos clientes. Usuários frequentes do Uber, por exemplo, não tinham condições de contar com táxis regularmente. Não deixa de ser uma bem sucedida experiência de inclusão.


BOM PARA A CIÊNCIA E PARA OS NEGÓCIOS


A capacidade de operação de dados, cada vez mais numerosos e mais diversamente indexados, é capaz de conduzir à muitas soluções. Uma vez superados os percalços da privacidade, eles podem oferecer respostas preciosas.

Ainda no governo Obama, os Estados Unidos implantaram um importante big data da saúde, atrelado ao sistema público. Para dar uma ideia das dimensões do big data, basta dizer o que mudou na rotina do paciente. Ao sair do consultório, sem qualquer receita, ele pode ir direto a uma farmácia. Ao apresentar um documento pessoal, a farmácia acessa o sistema e consulta os remédios prescritos para aquele paciente e todas as orientações do médico. Para um exame qualquer, em laboratório clínico, de imagem ou de outra natureza, o procedimento é o mesmo. Na consulta de retorno o médico terá todas as informações pelo sistema. Qualquer unidade de saúde, um hospital num atendimento de emergência, um outro médico que aquele paciente escolha, podem ter acesso a esse histórico.

Muitos médicos americanos reclamaram pelo instrumento do qual o governo “se apropriou” de informações extremamente valiosas para a indústria farmacêutica. Para estudos clínicos de medicamentos, por exemplo, a escolha de pacientes a serem analisados depende de consultas simples, que não demandam mais do que alguns minutos. Para escolher interessados em participar de testes de novos medicamentos, basta enviar convites para os que se enquadram no modelo estatístico.

Os novos aplicativos de saúde para celulares devem ampliar essas bases de dados, com maior variedade de etnias e condições de vida. O que, no final das contas, deve contribuir enormemente para avanços na saúde. Vai ter mais gente ganhando dinheiro com os seus dados. Se você não se importa com isso, terá outros motivos para comemorar.

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