sexta-feira, 29 de junho de 2018

INDÚSTRIA DA TECNOLOGIA E DE ANORMALIDADES




Numa hipótese ilustrativa, considere que o Real Madrid, clube campeão do mundo de futebol, anunciasse uma data para apresentar sua última contratação. E que ninguém soubesse se seria um jogador, novo técnico, um diretor de futebol ou outro profissional dos gramados. Chegado o dia, a contratação apresentada: LeBron James, atual número um na liga de basquete americana. A única certeza possível seria de que uma grande mudança estaria acontecendo no Real Madrid.

Pois é o que deve estar acontecendo com a Apple. Ao anunciar a contratação de Oprah Winfrey, a principal apresentadora de TV dos Estados Unidos, a Apple não deve estar pensando em seus circuitos ou sistemas operacionais. O serviço de streaming seria o novo horizonte.

A Apple Music, que segundo o site UOL, já teria 40 milhões de usuários em 115 países, vai ser a grande conexão da empresa com potenciais clientes de conteúdo em vídeo. A plataforma, criada originalmente para concorrer dentro no mercado de músicas, já tem 5 séries em vídeo disponíveis e muitos outros nomes de destaque do cinema e da TV. Dentre eles, Gwyneth Paltrow, Jessica Alba, Kristen Wiig, Reese Witherspoon. E, claro, um enorme orçamento para que eles criem coisas novas.

O investimento em serviços de streaming já teve outros recentes e robustos sinais do interesse da empresa. No mês passado a Apple Music anunciou que vai passar a ser também um selo musical, contando com toda a estrutura para lançar músicas e artistas. Estudos recentes apontam para o crescimento do interesse popular por grandes eventos ao vivo, que podem ser também shows musicais. Isso estaria entre os projetos da Apple Music?

É inquestionável a tendência de expansão de negócios das gigantes de informática através de serviços. A nuvem, em princípio, foi um caminho natural. Mas hoje, Amazon e Microsoft também investem em conteúdo.

Essa sequência de anúncios de investimentos de peso levanta agora outra questão: até onde essas poderosas empresas de tecnologia querem chegar na produção de conteúdo? O cenário artístico musical pode voltar a ficar sob o domínio de grandes empresas, como no tempo em que os selos de maior peso ditavam a programação musical das rádios e escolhiam quem chegaria ao sucesso?


NÃO HÁ COMO CONTER O CONTEÚDO


O estalo deve ter acontecido a partir do Netflix. O streaming de vídeo cresceu muito além das expectativas iniciais em Los Gatos. E, para entender essa explosão, convém revisitar certos momentos na linha do tempo dessas tecnologias.

Há cerca de 40 anos, quando lançaram o aparelho de vídeo cassete, houve até a expectativa de que as salas de cinema iriam desaparecer. Aconteceu o contrário. Elas se multiplicaram e em locais mais privilegiados, do ponto de vista comercial. Porém, a qualidade de som e imagem das TVs naqueles tempos, limitava muito a experiência de grandes obras cinematográficas rodando em casa.

Por outro lado o público teve mais contato com o conteúdo cinematográfico, e gostou. O comodismo, que dominava o negócio das salas de cinema tomou um chacoalhão. Como o conteúdo estava valorizado, decidiram investir em tecnologia para o público. E não pararam mais. Desde os assentos confortáveis até às telas digitais, imagens 3D, som imersivo.

Hoje em dia, muitas casas do seu condomínio ou do seu bairro já têm TVs com uma qualidade de som e imagem superior às salas de cinema do passado recente. É bem provável que seja assim na sua casa. Com as conexões domésticas mais comuns pode-se dispor dessa qualidade, bem superior ao blue ray, sem qualquer equipamento a mais.

Agora sim, falar em grandes produções exibidas em casa é algo muito diferente do que já foi no passado. Não que isso vá acabar com as salas de cinema agora. É que estamos vivendo um novo momento de valorização do conteúdo. E pegar um cinema sempre será um lazer agradável, porque agora está sendo permanentemente renovado. 

A profusão de novas telas, com os tablets e principalmente com os smartphones, também contribui para o mercado de streaming. Além, é claro, da expansão e confiabilidade dos pagamentos online. Todas essas tecnologias saíram de dentro da indústria de TI. Que, por outro lado, também desenvolveu sistemas que baratearam muito o custo das produções.

Mas o que o fenômeno Netflix trouxe de mais surpreendente não foi apenas a descoberta dos lares como ponto de exibição. Tornou evidente que o potencial de consumo de vídeo pode superar em muito os níveis atuais. Há uma demanda reprimida. Tanto que a assinatura de mais de um serviço já acontece e vem crescendo.

A conclusão final é de que a atual “capacidade instalada” de produção de conteúdo é pequena diante do potencial de demanda. É isso que torna essas gigantes empresariais, relativamente recém alçadas ao topo do poder econômico, as candidatas naturais a usarem toda a tecnologia que desenvolveram, para mais enriquecerem, também prestando serviços.


O BONDE VAI PASSAR DE NOVO


Netflix, Amazon Prime, HBO Go, Fox Plus, Hulu, Disney, DC Universe, Apple Music, dentre outros. Na medida em que o mundo OTT cresce, vai mudando hábitos. Em todos os países onde existe TV a cabo, uma parte dos assinantes está desistindo dos canais para contratar um serviço de streaming, mais barato e sem programação linear. É o chamado fenômeno cord cutter. Ainda segundo o site UOL, uma pesquisa da Ericsson em 40 países indica que em 2020 apenas uma, em cada 100 pessoas, manterá o hábito de assistir à TV tradicional.

No Brasil a tendência se confirma, mas de forma atenuada. Temos a maior base de TV aberta do mundo, com qualidade e decisiva até para quem assina TV paga. Se não tiver nenhum dos canais abertos no line up, também não vai ter assinante.

Essa primazia gerou hábitos na população. Grandes eventos, como a Copa do Mundo, são adquiridos por alguma grande rede de TV aberta, que disponibiliza para o grande público, sob patrocínios. Esses eventos ao vivo, em outros países, são o principal diferencial das TVs por assinatura. O Jornalismo noticioso é outro trunfo das TVs em geral. Com o New Gen TV, uma mistura da TV aberta com a Internet, as TVs pagas podem estar em risco.

Por trás de todo esse cenário está a certeza de que muitos novos negócios vão ser formatados e enriquecer seus criadores. Uma oportunidade que a tecnologia desses tempos coloca ao alcance de qualquer pessoa. Será que haverá novos brasileiros entre elas? Estamos bem representados na história do Facebook e poderíamos ter um patrício no topo da empresa. O Instagram, “semi-brasileiro”, foi avaliado recentemente em US$ 100 bilhões. Em 2012 foi vendido por US$ 1 bilhão.

De acordo com o Latin Trade, publicação que acompanha as maiores fortunas da América Latina, tradicionalmente os bilionários do continente são principalmente banqueiros, ou mineradores ou donos de fábricas de cerveja e outras bebidas. Mas, no último levantamento, apareceu o nome de um empreendedor da área de TI. É o brasileiro Luís Frias, do Grupo PagSeguro Digital, empresa nascida e até hoje ligada ao Grupo Folha UOL, de mídia.

Hora de esquecer o “complexo de vira lata”. A ordem é colocar o talento pra funcionar, na conquista do olimpo. A história haverá de render até um bom conteúdo para os serviços de streaming.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

SUA SAÚDE E O SEU CELULAR




“-O médico está no telefone.”

O que já foi um aviso corriqueiro da telefonista no passado, hoje está conquistando ares de profecia. Questões de regência nominal à parte, também não deve ser exatamente o médico no telefone, mas o app apropriado. As maiores empresas de TI do mundo estão investindo pesadamente no segmento de saúde, por motivos óbvios.

Um estudo recente realizado pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, em conjunto com o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC – Brasil), indica que cerca de 70% dos brasileiros não contam com plano de saúde. No mesmo estudo apurou-se que 56% dos entrevistados acham que a saúde pública está piorando. Por esses números já é possível ter uma ideia do mercado gigantesco para esses aplicativos e respectivos serviços, só no Brasil.

A capacidade de processamento crescente dos celulares, os recursos agregados e a grande disponibilidade para conectar outros sensores ao aparelho, tornam nossa CPU de bolso uma potencial enfermeira, atenta 24 horas por dia. Grandes bancos de dados vão armazenar todo o histórico de pacientes, exames, medicações, diagnósticos. As observações de médicos, prognósticos e outros dados podem ser compartilhados e analisados por inteligência artificial. Sempre sob a revisão de médicos especialistas.

Se vai ser exatamente assim, em breve vamos saber. Depende dos aplicativos que devem ser lançados. Essas são apenas possibilidades visíveis desde já, e alvissareiras. Por enquanto, já é possível agendar consultas mais baratas com um toque no celular. Para exames e outras orientações, equipes treinadas dão atendimento pelo telefone.

O centenário laboratório suíço Roche, com os olhos nessa realidade, investiu US$ 1,9 bilhão na compra da startup Flatiron Health, que tem pouco mais de 5 anos de existência. E isso só para o setor oncológico.

Além do serviço de atendimento ao paciente, esses aplicativos terão o potencial milionário de processar dados estatísticos sobre ocorrência de doenças, reações a remédios, tudo categorizado por faixa etária, idade, sexo e muitos outros itens que possam ter algum significado médico-farmacêutico.


VENCER RESISTÊNCIAS E SUPRIR CARÊNCIAS


Um aplicativo jamais vai superar o cuidado e a atenção que um médico pode oferecer pessoalmente a um paciente. A questão é saber exatamente onde está esse médico. No serviço público, em consultórios populares e mesmo nos mais caros, esses profissionais estão cada vez mais raros. Reclama-se de que, no caso de uma dor nas costas, por exemplo, grande parte dos médicos sequer toca no paciente para saber exatamente onde dói. A garganta irritada, muitas vezes, primeiro engole comprimidos, para depois, num eventual retorno, ser examinada pelo médico. Isto é, se a reclamação persistir.

Do outro lado está, por exemplo, a Apple. De acordo com o site IDGNow a empresa americana quer transformar o Iphone um verdadeiro prontuário digital. O passo seguinte fica por conta dos desenvolvedores, que devem inspirar seus aplicativos nos números que vão compartilhar. O Google está investindo em parcerias para aprimorar a inteligência artificial em saúde. O Facebook investe na formação de grupos adequados para os mais diversos estudos clínicos, além da detecção precoce do risco de suicídio. E a Microsoft entrou de cabeça na área de saúde, já é a maior detentora de patentes do tipo.

A indústria farmacêutica tende a ser, cada vez mais, uma poderosa aliada de iniciativas nesse sentido. No Brasil, grandes universidades já começam a formar farmacêuticos habilitados a fazer diagnósticos clínicos. O lobby da indústria deve ter agido para que essa mudança acontecesse, uma vez que aproxima os potenciais clientes de seus produtos, pulando a etapa do consultório médico, em alguns casos.

Independentemente da expectativa que essa tendência tecnológica possa trazer para os profissionais da medicina, os dados mostram que há espaço para todos. A carência de médicos no mundo todo é antiga. E as exigências para garantir uma boa formação estão cada vez mais distantes da imensa maioria das nações. Isso deve fazer com que, em breve, aplicativos estejam nos sistemas públicos de saúde, ao invés de médicos cubanos, muito mais caros.

Por outro lado fica claro que, para os profissionais de ponta, mais conceituados, os aplicativos devem constituir um grande aliado. Há um potencial de simplificação da relação médico-paciente, além da possibilidade de multiplicar a capacidade de atendimento de um consultório.

Na medida em que eventuais resistências sejam superadas, uma tendência é de aproximação entre médicos, laboratórios e indústria farmacêutica, na busca de startups interessadas em desenvolver novos aplicativos. 

A informatização, como forma de aproximação das pontas numa cadeia de serviços, é uma realidade irreversível. Dentre outros motivos, por ter o poder de reduzir custos e gerar novos clientes. Usuários frequentes do Uber, por exemplo, não tinham condições de contar com táxis regularmente. Não deixa de ser uma bem sucedida experiência de inclusão.


BOM PARA A CIÊNCIA E PARA OS NEGÓCIOS


A capacidade de operação de dados, cada vez mais numerosos e mais diversamente indexados, é capaz de conduzir à muitas soluções. Uma vez superados os percalços da privacidade, eles podem oferecer respostas preciosas.

Ainda no governo Obama, os Estados Unidos implantaram um importante big data da saúde, atrelado ao sistema público. Para dar uma ideia das dimensões do big data, basta dizer o que mudou na rotina do paciente. Ao sair do consultório, sem qualquer receita, ele pode ir direto a uma farmácia. Ao apresentar um documento pessoal, a farmácia acessa o sistema e consulta os remédios prescritos para aquele paciente e todas as orientações do médico. Para um exame qualquer, em laboratório clínico, de imagem ou de outra natureza, o procedimento é o mesmo. Na consulta de retorno o médico terá todas as informações pelo sistema. Qualquer unidade de saúde, um hospital num atendimento de emergência, um outro médico que aquele paciente escolha, podem ter acesso a esse histórico.

Muitos médicos americanos reclamaram pelo instrumento do qual o governo “se apropriou” de informações extremamente valiosas para a indústria farmacêutica. Para estudos clínicos de medicamentos, por exemplo, a escolha de pacientes a serem analisados depende de consultas simples, que não demandam mais do que alguns minutos. Para escolher interessados em participar de testes de novos medicamentos, basta enviar convites para os que se enquadram no modelo estatístico.

Os novos aplicativos de saúde para celulares devem ampliar essas bases de dados, com maior variedade de etnias e condições de vida. O que, no final das contas, deve contribuir enormemente para avanços na saúde. Vai ter mais gente ganhando dinheiro com os seus dados. Se você não se importa com isso, terá outros motivos para comemorar.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

AS MACRO ESTRUTURAS CRESCEM NA REDE




Para o lado mais sério do mundo a grande invenção humana foi a roda. Mas, para o lado mais divertido do cérebro, foi a bola. A revolução diametral que, no idioma falado, seria uma coisa muito diferente, na lógica geométrica quer dizer que a roda e a bola são quase a mesma coisa. E assim a Fórmula 1 fica bem próxima de futebol, é tudo esporte e tá redondo.

Não é porque começou a Copa da Rússia que bola aqui é futebol, porque na verdade futebol é que é bola (isso me lembra alguém...). Assim como basquete é bola, vôlei também é, assim como o tênis, o ping pong, baseball, golfe, até sinuca. A revolução 3D da roda pré-histórica é o grande elemento de convergência, que vai do campo plano ao acidentado, dos pés para as mãos, da mesa à rede, sempre divertindo e promovendo cultura.

Invenções geniais tendem a gerar convergência. Essa é a moral da história. E, no caso, a invenção genial convergente da vez é o computador. A gente se espanta com tanta coisa nova que aparece a cada dia, mas na verdade são só computadores dedicados. A boa e velha CPU explica tudo. Do bilhete do metrô à Internet, a AR, VR, IoT, a pqp. É só olhar para os lados e perceber quantos computadores nos cercam, porque se olhar pra frente, é até covardia.

Um estudo recente da Price Waterhouse Coopers (PwC), uma das maiores empresas de auditoria do mundo, acaba de descobrir – ou simplesmente constatar – a “Convergência 3.0”. Entitulado Global Entertainment & Media Outlook o estudo indica que, ao falar de conteúdos de mídia ou de entretenimento, cada vez mais estaremos falando de tecnologias e telecomunicações. A tendência é de que esses conteúdos migrem progressivamente para as plataformas digitais de telecomunicações, numa sequência natural do que já vem sendo observado há tempo.

Na prática, parcerias improváveis, como as que tratamos nas duas últimas edições deste blog, estão aproximando os grandes provedores e plataformas de entrega, como o Netflix, Amazon, Apple TV e tantas outras. É uma verticalização dos serviços dos quais o consumidor depende para ter acesso a conteúdos. Isso acontece sustentado por um espraiamento sem limites da produção de conteúdos, de mídia e de entretenimento, em todas as direções. O fenômeno é esse.


CONVERGIR É SOBREVIVER


É bem um caso de convergência. Não se nota mais aquela tendência “fagocital”, de um querendo engolir o outro. Até porque cada um desses atores é extremamente grande e profundamente especializado, a ponto de não se imaginar a Comcast engolindo o Netflix, nem vice versa. Cada um na sua, todos numa boa.

O que tende a alterar esse equilíbrio seria alguma invenção tecnológica disruptiva, capaz de tornar irrelevante o que acontece em um desses níveis da parceria. Ou alguma mudança regulatória, por exemplo, se as cidades decidirem universalizar o acesso à Internet como serviço público gratuito.

As perspectivas de expansão da grande rede são gigantescas. O estudo aponta para um aumento de 2,2 bilhões de acessos à banda larga até 2022. Para 2020 a previsão revela ainda outra tendência: vai ser quando o tráfego de dados para smartphones vai superar a banda larga fixa. O consumo móvel, neste ano de 2018, já deve elevar os investimentos globais em publicidade na Internet móvel, para um patamar maior do que na rede fixa.

Um detalhe curioso, em meio a uma produção imensa e crescente de conteúdo, é que a vida alheia continua atraindo as atenções. Os conteúdos de mídias sociais estão em alta e fazem sombra ao conteúdo tradicional disponibilizado na rede. A reação das empresas de produção tradicional deve vir na forma de novas plataformas, com marcas fortes como, por exemplo, a Disney passando a ser uma grife da Internet.

Isso pode implicar numa outra tendência apontada pelo estudo, divulgado pelo site Tela Viva. É o uso crescente de inteligência artificial nas grandes plataformas, para atender de forma mais personalizada alguns segmentos de consumidores. Investimentos desse tipo possivelmente serão mais oportunos em plataformas de tráfego intenso de visitantes, interessados numa ampla variedade de produtos e serviços.

Para o público brasileiro, de hábito festivo, a boa notícia é que a tendência de crescimento do interesse para eventos ao vivo está confirmada. Os estádios que se preparem! E não é só para o futebol, não. A taxa de crescimento anual composta (CAGR) para competições de e-sports deve crescer em 21,1% até 2022.


E O BRASIL NESSA?


Embora o blog esteja apostando no Hexa em 2018, nem precisa ser fanático para afirmar que o Brasil ainda vai brilhar por muito tempo no futebol. Mas não é só por aí. Do lado glamuroso das câmeras tudo indica que vamos brilhar. O Brasil já está isolado na ponta dos e-sports em nível mundial. Temos tradição na Fórmula 1, MMA, vôlei e muitas outras modalidades de destaque internacional.

A questão é quanto vamos protagonizar na – enfim confirmada – aldeia global. É comum haver, mesmo em regimes democráticos, reservas em relação à propriedade de órgãos de imprensa por parte de estrangeiros. No Brasil as leis nesse sentido foram aliviadas recentemente, mas não desapareceram.

Esse cuidado aponta para a importância que a comunicação de massa tem na formação de uma nação autônoma e soberana. Eis que a tal convergência começa a apagar essas tênues fronteiras de pensamento, de cultura e de valores. E nada indica que essa abertura virá para fortalecer cada nação, pelo contrário, deve importar hábitos e padrões de consumo.

Não há como reverter a inegável convergência. E não haverá lei capaz de conduzir esse movimento em direção à interesses nacionais. Exceção clara às nações competitivas nessas tecnologias, o que não é o caso do Brasil.

Podemos aprimorar conteúdos jornalísticos, levando em conta o alto nível dos profissionais brasileiros nessa área. Mas a apresentação visual das notícias ao público, as possibilidades de personalização do atendimento e a quantidade de opções de conteúdo e entretenimento que cada plataforma poderá oferecer, podem desviar a audiência. Em outros endereços, a política nacional deve ser muito menos importante. As nossas mobilizações, candidatos e partidos, tudo pode ser visto e interpretado por olhos que não estão fisicamente aqui.

O avanço tecnológico é uma realidade humana, por isso deve ser bem vindo em todas as nações. O atraso nunca será uma alternativa. Mas o momento mostra claramente que a soberania das nações está se consolidando sobre o conhecimento e a capacidade de realização internalizados. Daqui onde estamos fica difícil enxergar como chegar onde deveríamos estar. Mas já dá para concluir que, os caminhos que trilhamos nas últimas décadas, não vão nos levar a lugar nenhum.

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sexta-feira, 8 de junho de 2018

O FUTURO QUE SE VÊ NA TV




O anúncio do tvOS12, para bons observadores, permite ver mais do que imagens com qualidade 4K HDR, sob som tridimensional imersivo Dolby Vision ou Dolby Atmos. Traz vestígios de um futuro próximo, pelo menos daquele no qual a Apple acredita.

Foi no início desta semana, durante a abertura da WWDC, a conferência anual de desenvolvedores Apple. O tvOS12, sistema operacional da Apple TV 4K, apareceu com novidades não apenas para o cliente final, que tem o set-top box do produto. Mas também para as operadoras de TV por assinatura, que podem adotar o equipamento como conversor para seus clientes.

No começo deste século, quando as “caixas” (os set-top boxes) surgiram no mercado americano, tinham um jeito de concorrentes das TVs por assinatura. Afinal, Roku, Chromecast, Fire TV, Apple TV, dentre outras, oferecem alternativas de conteúdo audiovisual na TV. Acontece que a TV está se sofisticando, exigindo mais “inteligência” do set-top box, e esse não é o expertise das operadoras, que estão mais para empresas de telecomunicações.

Para a Apple essas empresas de telecomunicações se tornaram parcerias especialmente interessantes, observa Paolo Pescatore, da CCS Insight. Ele vê esse movimento de aproximação no mesmo rumo das parcerias que o Netflix tem feito com operadoras. É uma ampliação do acesso ao cliente final. Para a Apple tem ainda a vantagem de representar um mercado também para o hardware que ela fabrica. Com o tvOS12, a Apple TV vai ser o conversor da Charter Communications, a segunda maior operadora de TV a cabo dos Estados Unidos.

O sistema tem um atrativo especial para essa união. É o zero-sign-on, que permite à Apple TV reconhecer a banda larga do usuário e autentica-la automaticamente. Ele funciona quando o provedor de TV é o mesmo provedor de Internet – o que é comum em países como Brasil ou Estados Unidos. Basta abrir qualquer aplicativo do Apple TV e o usuário já estará logado, sem precisar repetir senhas ou configurar detalhes.

O Canal +, primeiro por assinatura da França, fechou uma parceria, em maio, que permite aos seus clientes alugar o Apple TV 4K por 6 euros, sem precisar de qualquer outro conversor. Na Suíça, também neste ano, o provedor Salt entrou na telefonia fixa e ofereceu o serviço de TV por assinatura baseado no Apple TV 4K como conversor.


ALARGANDO POSSIBILIDADES


A banda larga é um desafio especial desses tempos. Tornou-se uma infraestrutura que não tem refletido toda sua importância no faturamento dos provedores. Principalmente depois que as teles, as empresas de telefonia móvel, passaram a oferecer o sinal na modalidade sem fio.

No caso das operadoras de TV o sinal de banda larga chegou como um serviço secundário oferecido aos clientes. Os milhares de quilômetros de cabos se tornaram as freeways naturais do sinal de Internet. Hoje, em alguns mercados, é a banda larga que mantém essas empresas.

Também a banda larga móvel era uma praticidade a mais nos telefones celulares. Com os aplicativos de voz os celulares deixaram de ser telefones e a receita das teles afundou. Elas passaram a ser fornecedoras de uma infraestrutura fundamental para enriquecer empresas que desenvolvem aplicativos ou oferecem serviços através deles.

Essa aproximação, portanto, parece natural – entre provedores e desenvolvedores de aplicativos. Mas demorou um pouco para que os provedores percebessem isso. Em princípio, acostumados que estavam a negociar diretamente com olhos (TV por assinatura) e ouvidos (celulares), nem pensavam em ter clientes enviesados por uma infinidade de códigos que não dominam.

Ainda bem que os desenvolvedores não guardaram rancor dos tempos em que foram perseguidos, até sabotados, pelos provedores. E agora chegam para oferecer parcerias em novos negócios. Tirando essa visão de conto de carochinha, as possibilidades para o futuro desses negócios são infinitas. Até porque novos players devem invadir esse cenário a qualquer momento. O IoT é um deles, com potencial econômico e empresarial incomensuráveis.

É por aí onde a Apple parece ensaiar mais alguns passos com o tvOS12. O sistema tem suporte para plataformas de controle doméstico, como o Crestron, já instalado aqui no Brasil, e o Control4. Essas plataformas gerenciam automaticamente a iluminação, ventilação, segurança e outros recursos importantes para residências e empresas.

Nos países desenvolvidos, com condições climáticas muito diferentes das nossas, esses serviços são bem populares. Com novos recursos que estão surgindo e as mudanças nos hábitos pessoais e de trabalho, a tendência é de que esses serviços ganhem importância em outros mercados, como no Brasil.


IDEIAS QUE ABREM CAMINHOS


A importância da infraestrutura teve uma demonstração severa aqui no Brasil até há poucos dias, com a greve dos caminhoneiros. Aquelas coisas mais corriqueiras, aparentemente naturais, como o alimento na gôndola do supermercado, simplesmente desapareceram. O país esteve à beira de um colapso.

Esses dias ajudaram a compreender melhor como funciona essa coisa que faz todas as outras coisas funcionarem. A maioria das pessoas, que vive nos grandes centros, não sabia que só 20% das estradas brasileiras são asfaltadas. Portanto, a qualidade dos caminhões e a competência dos condutores ganham importância quando se fala em infraestrutura de transporte como um todo. É o “aplicativo” compensando algumas carências da “rede”.

Não dá para saber de quais infraestruturas e em que dimensões vamos precisar nos próximos anos. Recursos naturais importantes estão chegando ao limite, há um hábito de desperdício generalizado e os padrões de conforto não podem ser reduzidos. Tudo isso aponta para a necessidade de sistemas mais eficientes, geridos de maneira integrada. Quais, exatamente?

Se você tem muito dinheiro para apostar no que será o mundo daqui a cinco anos, talvez prefira gastar esse dinheiro agora com algo que lhe traga alguma satisfação. Como as grandes empresas não têm essa alternativa, acabam desenhando cenários cada vez mais curiosos. Os produtos que surgem desses “ambientes de prancheta” acabam influindo muito no rumo que a sociedade vai seguir. Assim como a invenção do tear, da luz elétrica ou do automóvel, mudaram tanto o mundo que existia antes deles. 

Diferentemente das infraestruturas mais tradicionais, a Internet é uma estrada que nos coloca a uma única distância uns dos outros. Lugares passam a ser apenas combinações de sinais, que podem ser inventados a cada instante. Muitos bens, de importância vital, já trafegam por ela. Não é o caso dos alimentos, mas o conhecimento de um médico americano já pode mover um bisturi na África, para operar um paciente.

Observar essa realidade já não causa tanto espanto. O que admira é perceber, na configuração de uma caixa de TV, os acessos que estão sendo criados para as marcas de hoje, nas necessidades do amanhã.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

TEMPO DAS ALIANÇAS IMPROVÁVEIS




Tem a estória de amor “água com açúcar”. É aquela em que os dois se amam desde o começo até o fim. Mas quando o romance se desenrola entre cenários de amor e ódio, fica bem mais emocionante. É o que se tem visto nessa adolescência tecnológica de tantos produtos e serviços.

No Brasil, Telefónica e Netflix acabam de anunciar as bodas, com lua de mel que passa por toda a América Latina e também pela Europa. O serviço OTT, que já foi odiado pelas distribuidoras de TV por assinatura, agora tem cara de galã. A promessa é de que, ainda este ano, a plataforma de IPTV da Vivo deva oferecer possibilidade de uso integrado com o Netflix.

A moda já pegou em outras partes do mundo, junto à operadoras europeias e também às americanas, como Liberty Global, Altice e Comcast. E pensar que foi principalmente por conta da guerra contra o Netflix que se moldou o conceito de “neutralidade da rede”.

Depois desse passado conturbado, de tantas brigas, a dificuldade agora é chegar aos acertos para que a convivência possa acontecer. Numa análise do site TelaViva a informação é de que não se sabe como o serviço de streaming vai ser cobrado na fatura da Vivo. Esse amor improvável obrigou os dois personagens ao protagonismo de carreiras solo, agora difíceis de serem ajustadas. Aqui no Brasil a maioria dos clientes das operadoras de TV por assinatura já é cliente do Netflix. Quanto cada uma das empresas abriria mão de receitas para não onerar duplamente o assinante?

O interesse da Vivo pelo Netflix parece simples de ser explicado. Como serviço de TV por assinatura a Vivo tem clientes que representam uma fração do número de assinantes do Netflix no Brasil. É um bonde cheio de caminhos novos.

Ademais, pela nova lei do SeAC, que regula as operadoras de TV, uma distribuidora de sinal, como a Vivo, não pode vender direitos e nem produzir conteúdo. Ao contrário do que acontece na Espanha, onde a Telefónica produz e distribui conteúdo próprio. A parceria sugere que, em breve, o Netflix pode incluir essas séries no próprio menu, abrindo espaço para vender entre os clientes brasileiros.

A dúvida maior estaria em qual a vantagem para o Netflix em fazer essa parceria com a Vivo aqui no Brasil.


MODELO MUITO ORIGINAL


Se não fosse Charles Chaplin, talvez o cinema não tivesse chegado tão rápido onde chegou. A afirmação não se refere ao enorme talento do ator. Mas ao espírito empreendedor do produtor e diretor, que não poupou esforços para criar diferentes e abundantes oportunidades para atuar.

O caso do Netflix parece semelhante. Uma locadora de vídeo da cidade de Los Gatos, na Califórnia, percebeu que poderia usar os modens da Internet para levar os filmes de Hollywood até seus clientes. Inovou em seu negócio decadente e acabou criando um negócio inteiramente novo.

Para felicidade geral, o primeiro a perceber que algo muito diferente acabara de nascer foi o próprio fundador do Netflix. Ele se encorajou a investir no OTT – Over The Top muito além de um serviço de entregas de conteúdo. Repensou a sala de TV, os hábitos das famílias, os novos meios audiovisuais e criou produções específicas para a nova realidade. Aprimorou os formatos mais adequados e colocou, no rastro das produções de Hollywood, o seu próprio selo, seus próprios produtos. Assim valorizou mais ainda o seu serviço.

Hoje o Netflix, em valor de mercado, ultrapassa a Disney. E investe US$ 8 bilhões por ano só na produção de conteúdo. Essa sempre foi a resposta para quem buscava descobrir qual seria o futuro após a multiplicação das telas. O grande negócio seria produzir conteúdo. Claro, desde que as produções possam chegar ao cliente da maneira mais simples, por qualquer uma das telas e no tempo de cada consumidor.

O serviço de streaming para produções cinematográficas poderia ter sido inventado por qualquer videolocador. Mas o modelo de negócios que o Netflix criou para se tornar um produtor de conteúdo é algo muito original. Tanto, que todos os concorrentes que surgem, adotam o mesmo modelo.

O Netflix já rivaliza com Hollywood, o distrito cinematográfico de Los Angeles. Seus formatos já começam a competir nas grandes premiações e atores já buscam o sucesso via streaming. Se não é a nova fábrica de sonhos, pode ser a nova fábrica de intrigas e tensões, como é próprio do novo formato.


ADMIRÁVEL – E TRIBUTÁVEL! – MUNDO NOVO


Apologias à parte, o ritmo tecnológico está trazendo situações complicadas para um mundo acostumado a inventar pouco e regulamentar demais. As inovações desses tempos, disruptivas que são, não se habilitam como herdeiros de normas do passado. Além do vazio legal, uma volatilidade econômica não deixa nenhum negócio completamente a salvo da obsolescência. Depois que a supremacia petrolífera foi superada pela tecnologia digital, tão abstrata, todos os negócios começaram a flutuar, tanto nos bancos, como nos tribunais.

Quem administrava as contas das empresas de telefonia móvel provavelmente não imaginava que, em tão pouco tempo, um aplicativo reduzisse tanto aqueles números. Diferente dos carburadores – que desapareceram com a injeção eletrônica – a telefonia móvel estava na ponta da tecnologia. Mas foi “reprogramada”.

A Internet das Coisas (IoT) está para ser classificada como uma infraestrutura e não um serviço. Seria como considera-la semelhante aos postes e cabos que se penduram pelas ruas. Para quem disser que IoT não é isso, fica o desafio de provar que é um serviço móvel pessoal, como querem os cobradores de impostos. Entre esses dois extremos, não há outro enquadramento tributário possível. Dilema tão universalizado, que os Estados Unidos decidiram impor uma moratória tributária para o IoT. O bicho é tão estranho que vão esperar crescer pra saber exatamente qual é a cara dele, se vai morar no quintal ou dentro de casa, se vai para o veterinário ou para o eletricista.

O contrato entre a Telebrás e a Viasat, para operação do satélite SGDC, passa por turbulências da mesma ordem. A Telebrás afirma que não precisaria abrir uma concorrência para acrescentar um instrumento à sua atividade fim, que é prover serviços de telecomunicações. Se antes utilizava apenas antenas, agora utiliza satélites. E, com um satélite totalmente operado pela estatal, ela não precisaria abrir concorrência para operar seus próprios serviços.

Entre tantas invenções surpreendentes, é necessário que os governos se reinventem para assumirem novos papéis diante da sociedade. Antes que sejam criados aplicativos para concorrerem em eleições vindouras.