sexta-feira, 25 de maio de 2018

QUEM CONFIA NO FACEBOOK?




Facebook e intimidade são duas palavras que não andam de bem nos últimos meses. Nas manchetes o choque traumático da rede social foi com a privacidade, que durante muito tempo foi sinônimo de intimidade. Até hoje há quem use uma pela outra.

Talvez tenha sido por conta desse tipo de confusão léxica que o Facebook resolveu lançar uma nova ferramenta, que vai marcar de maneira histórica a era digital. Trata-se de uma forma de proteger usuários de ameaças do tipo revenge porn, uma vingança, pra lá de antiética, entre casais separados. É quando um decide publicar imagens íntimas do outro, com o propósito de desmoralização.

Seria apenas maravilhoso se a ferramenta não dependesse de um altíssimo nível de confiança no Facebook, por parte do usuário. Antigone Davis, Chefe Global de Segurança da rede social, publicou nessa semana no perfil Facebook Safety os detalhes do novo serviço.

Tudo depende do envio das imagens íntimas para o Facebook. Isso mesmo, aquelas imagens da transa, ou o nude, as poses eróticas usando apenas algumas, ou nenhuma peça de roupa, precisam ser enviadas para a empresa de Zuckerberg. Primeiro é necessário mandar um e-mail explicando a situação. Na resposta do Facebook virá um link seguro e único, pelo qual o usuário vai subir as imagens que teme serem compartilhadas.

Um grupo de profissionais “especialmente preparados”, da Comunidade de Ações Seguras da empresa, vai analisar as imagens e criar hashes. São algoritmos que identificam aquelas imagens com base nos códigos digitais, sem precisar comparar com o arquivo completo. A função hash torna-se um sinal único de um arquivo qualquer, mais ou menos como a impressão digital ou outro dado biométrico de uma pessoa. O Facebook promete que, em uma semana, as imagens enviadas pelo usuário são apagadas dos servidores da empresa. E as hashes vão impedir qualquer tentativa de compartilhamento daquelas imagens tanto no Facebook, como no Instagram e no Messenger.

Por enquanto a ferramenta está disponível apenas para usuários da Austrália, Reino Unido e Canadá, além dos Estados Unidos. Se pegar, vai ser um forte argumento para o Facebook reafirmar a confiança dos usuários na empresa.


VIAGENS NO TEMPO E NA IMAGINAÇÃO


Essa é uma história carregada de símbolos. Ou signos, como diriam Saussure, Sanders Peirce, Chomsky e outros expoentes da Linguística.

Começa pela aplicação anunciada pelo Facebook para a ferramenta. Muitos outros tipos de arquivos, que não têm nada a ver com revenge porn, podem ser inconvenientes, se publicados. Mas foi citada como exemplo uma situação eloquente da intimidade de uma pessoa. A exposição do corpo é o símbolo mais antigo da intimidade no mundo civilizado. A rede social, acusada de descuido com a privacidade de seus usuários, quer posar de fiel depositária daquilo que cidadãs e cidadãos comuns têm de mais privado na vida.

Hoje, intimidade e privacidade são dois conceitos mais detalhados, justamente por conta do mundo virtual. Depois que ele tomou proporções mais significativas, comparado ao mundo real, nossos avatares cibernéticos passaram a ser a representação mais vulnerável da nossa existência. A qualquer hora, em qualquer lugar do mundo, podemos estar sendo investigados, sabe-se lá por quem. Algoritmos percorrem nossos caminhos, horários, preferências, gastos, prazeres, deveres, companhias. Associam tudo e tiram conclusões em frações de segundos.

Foi o que transformou o signo privacidade tão ou mais importante que o signo intimidade. Talvez seja essa memória de equivalência que o Facebook quer agora acessar no imaginário coletivo, para se mostrar confiável ao mercado.

Até o nome do Chefe Global de Segurança do Facebook é simbólico para o momento. Antigone remete ao personagem da tragédia grega, escrita por Sófocles. Seria uma das filhas de Édipo e Jocasta, marcada principalmente pelo seu senso de justiça, de respeito e bondade. Uma coincidência emblemática para o momento. Uma empresa que resolvesse escolher o Chefe de Segurança pelo nome, possivelmente escolheria alguém chamado Aquiles, talvez Perseu ou Hércules. Personagens associados à coragem e bravura, guerreiros capazes de defender, de dar segurança. Mas Antigone está mais para mártir da justiça, a cara que Zuckerberg está tentando impingir à sua empresa depois dos recentes escândalos.

Por fim, a ideia da ferramenta parece distanciar mais ainda os signos de intimidade e confiança. Por quê a namorada pediria ao namorado as cópias de todas as imagens que ele tiver dos momentos de intimidade do casal? Porque intimidade, hoje em dia, costuma chegar muito antes da confiança. Então é melhor ter a cópia, porque ela deve confiar mais no Facebook do que no namorado. Mais prático ainda seria não permitir que um fizesse fotos íntimas do outro. Cada um faz seus próprios nudes e manda para o outro, guardando o original para enviar ao Facebook, no caso de entreveros. Sinal dos tempos. E dos espaços digitais também.


UM FUTURO INCERTO


As redes sociais surgiram originalmente como meios, não como personagens. Tiveram sucesso estrondoso, a ponto de se tornarem notícias frequentes. O WhatsApp, mobile de nascimento, mais compacto e simplificado, deu mais ênfase às características de um meio para dinamizar contatos, chegando a oferecer até ferramenta de chamada de voz. E, com isso, acabou crescendo muito rápido, conquistando a preferência do público.

É justamente nesse momento que o Facebook, já proprietário do WhatsApp, parece enveredar para o perfil de personagem. Mais do que um meio para que redes se estabeleçam entre pessoas, parece querer ser um personagem de destaque em cada uma dessas redes. Alguém ou algo que se manifesta no dia do seu aniversário, que relembra momentos da sua vida no ano que está terminando. Quer ser um dos seus amigos, surpreender você.

Ao longo dessa curta história da Internet as redes sociais já passaram por vários modelos. O Facebook, por uma conjunção muito especial de interesses e oportunidades, tornou-se um dos mais prósperos negócios das últimas décadas. E agora sente a obrigação de se firmar, de manter a fama de uma fábrica de dinheiro. É o único, entre os grandes players do universo TI, baseado principalmente em frivolidades e tentativas do projeções de egos. É por aí onde manifestações impensadas, preconceitos e sentimentos ruins, muitas vezes ganham espaço e destaque.

Tudo isso, como outras experiências bombásticas da Internet, pode desaparecer do dia para a noite. Principalmente com o crescimento da Inteligência Artificial, que promete trazer para o mundo real, os nativos do mundo virtual.

É neste tabuleiro de xadrez onde uma das maiores empresas do mundo em faturamento tenta prever as próximas jogadas do adversário, no caso, o futuro. Isso faz prever que novos balões de ensaio devem surgir, para testar novas maneiras de manter o personagem Facebook cada vez mais presente na vida dos três bilhões de pessoas que, em algum tempo, já lhes deram as boas vindas.

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