sexta-feira, 11 de maio de 2018

DESAVENÇAS QUE VÊEM PARA O BEM




O que se pode esperar de um desafio entre Elon Musk e Warren Buffett? Doces, uai! Parece piada, talvez seja, mas por enquanto Musk jura que é “super sério”.

O anúncio sobre a nova área de atuação foi feito pela conta do twitter do jovem empresário. E não foi só essa a semelhança com Trump. Todo o episódio esteve cheio de bizarrices típicas do presidente americano.

No começo deste mês de maio o bilionário inovador apresentou os resultados da Tesla no primeiro trimestre. A empresa, que fabrica carros elétricos, tem sido o empreendimento mais falado dentre os vários que Musk comanda. E não é por menos. O empresário ainda não conseguiu cumprir a meta de produção do Model 3, o primeiro lançamento da empresa a um preço competitivo no mercado de massa. Isso tem feito os preços das ações da Tesla oscilarem nas bolsas.

Durante a apresentação, ao ser questionado sobre os fundamentos da empresa, Musk disparou: "Não estou aqui para convencer você a comprar a nossa ação. Não compre se a volatilidade assusta".

Outra questão levantada – também absolutamente pertinente – sobre a previsão de gastos para este ano, sequer mereceu resposta: "Desculpe, o próximo. Perguntas chatas, estúpidas, não são legais. Próximo".

Ele já vinha fazendo o estilo Trump há algumas semanas. Começou atacando a mídia estrangeira, justo uma das mais tradicionais e respeitadas publicações: "-A The Economist costumava ser chata, mas inteligente com uma sagacidade seca perversa. Agora é apenas chata. A Tesla será lucrativa e o fluxo de caixa positivo no terceiro e quarto trimestres, então não há necessidade de levantar dinheiro". Musk retrucava afirmações da revista britânica, que previu a necessidade de a Tesla ter de captar dinheiro de investidores para conseguir cumprir suas metas.

Até aí só se via amargura nas atitudes de Musk. Eis que o experiente investidor Warren Buffett, durante reunião com acionistas da Berkshire Hathaway, uma de suas maiores holdings, resolveu criticar a postura do jovem empresário: “-Musk pode virar as coisas ao contrário em algumas áreas. Mas eu acho que ele nunca iria conseguir competir conosco nos doces”. Ele se referia a uma das áreas de sucesso da Berkshire Hathaway. Foi o suficiente para que o desafio fosse respondido pelo twitter.

DUELO DE TITÃS


Até há pouco, Elon Musk estava sustentando a bravata: "Eu estou começando uma empresa de doces e vai ser incrível.” Mas, por enquanto, incrível é o anúncio. Ele não gosta de negócios convencionais e, uma vez que o paladar humano é um hábito demorado para mudar, tem grandes chances do gênio inovador ficar para traz das doceiras de Minas. Ademais, ele não demonstrava o estilo guerreiro de “dar um boi para não entrar numa briga, e uma boiada para não sair” – só pra insistir na mineiridade.

Porém, o que torna essa típica fofoca de salão de cabeleireira um assunto potencialmente enriquecedor, são os protagonistas do embate. Warren Buffett é o terceiro homem mais rico do mundo e é considerado um ícone do capitalismo, “o mais bem-sucedido investidor do Século XX”. Tem traços fortes do conservadorismo. Aos 87 anos mora na mesma casa que comprou em 1958, em Omaha, sua cidade natal. Não usa telefone celular, não tem um computador na mesa e é o motorista do seu próprio carro.

Elon Musk, americano por adoção, nasceu em Pretória, na África do Sul e vai fazer 47 anos no mês que vem. Além da fábrica de automóveis elétricos – segundo ele, criada para reduzir o aquecimento global – fundou a SpaceX, a primeira empresa de capital totalmente privado a colocar um satélite em órbita.  Criou o conceito do hyperloop, um sistema de transporte ultrassônico de média distância, baseado num extenso tubo de baixa pressão. Planeja ainda viagens espaciais de turismo e uma colônia em Marte, como alternativa a uma catástrofe na Terra. Tem tudo para ser um investidor ícone do Século XXI.

Nada indicava que duas peças tão diferentes se deparassem num mesmo tabuleiro. Muito menos num tabuleiro de doces, como parece se anunciar. Buffett, enquanto criança, se preocupava em fazer pequenos negócios e guardar dinheiro, típica receita da Economia do Século XX, que o fez triunfar como nenhum outro. Musk criança se preocupava em ler, aprendeu a programar computadores sozinho e seu primeiro produto foi um videogame. Buffett começou sua adolescência em Washington, com o pai eleito para o Congresso Americano. E Musk foi um teenager perseguido pelo bulling violento na escola.

Duas histórias de vida tão diferentes, vividas em épocas e situações incomparáveis, prestes a debaterem métodos e valores no cenário econômico dos dias atuais. Como ambos têm forte compromisso social, tendo feito doações astronômicas à benemerência, o embate pode avançar bem além da questão econômica, atingindo uma dimensão humanitária.

Seria um debate muito enriquecedor! Porém, dependeria de duas pré-condições. Primeiro, Musk precisaria abrir mão do estilo Trump, que não costuma ajudar em nada em diálogos. Depois precisaria alguém definir o meio pelo qual o debate vai transcorrer, uma vez que Buffett não tem conta no twitter e em nenhuma outra rede social.

A NOVA ORDEM MUNDIAL


Idiossincrasias à parte, de concreto, por enquanto o episódio serve apenas para vislumbrar o quanto se multiplicaram as abordagens possíveis para a compreensão do nosso mundo.

Embora não possam ser ignoradas na importância histórica, algumas antigas polarizações estão perdendo consistência, se resumindo a meros brasões, utilizados por oportunistas, na tentativa de manterem alguma notoriedade. Pouco acrescentam discussões em torno de capitalismo ou socialismo, direita ou esquerda, jovens ou velhos, muçulmanos ou cristãos, apocalípticos ou integrados. Há poucos dias, assistimos ao alinhamento entre sauditas e israelenses, contra o acordo nuclear com o Irã. E Trump não vai encontrar Kin Jon-un, justamente no dia em que o Brasil estará comemorando o Dia dos Namorados? Os interesses em jogo mostram que as questões religiosas ou ideológicas já ficam num segundo plano.

Nesse nível de debate, uma sequência de lances já pode ser esperada no curto prazo. Porém, logo em seguida, tudo deve mudar. Afinal, no plano mais relevante, as novas diretrizes que conduzem o rumo do planeta são outras. O conhecimento está preponderando.

É onde um diálogo aberto entre Warren Buffett e Elon Musk tende a revelar muito mais sobre fortes tendências para o futuro. Em breve, a Internet das Coisas vai tomar decisões muito mais importantes para o progresso do Brasil, do que a polêmica entre mortadelas e coxinhas.

Em ano de eleição presidencial e Copa do Mundo, a torcida é para que nossos representantes se aproximem mais da realidade desses novos tempos. As faltas fora do lance, não escapam das câmeras, assim como as negociatas não somem por completo dos HDs. É tempo de buscar o conhecimento, de maneira dedicada, para agir com competência no desempenho de cada função. Ou a Internet das coisas e a inteligência artificial vão esvaziar os ambientes que hoje concentram as nossas atenções.

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