sexta-feira, 25 de maio de 2018

QUEM CONFIA NO FACEBOOK?




Facebook e intimidade são duas palavras que não andam de bem nos últimos meses. Nas manchetes o choque traumático da rede social foi com a privacidade, que durante muito tempo foi sinônimo de intimidade. Até hoje há quem use uma pela outra.

Talvez tenha sido por conta desse tipo de confusão léxica que o Facebook resolveu lançar uma nova ferramenta, que vai marcar de maneira histórica a era digital. Trata-se de uma forma de proteger usuários de ameaças do tipo revenge porn, uma vingança, pra lá de antiética, entre casais separados. É quando um decide publicar imagens íntimas do outro, com o propósito de desmoralização.

Seria apenas maravilhoso se a ferramenta não dependesse de um altíssimo nível de confiança no Facebook, por parte do usuário. Antigone Davis, Chefe Global de Segurança da rede social, publicou nessa semana no perfil Facebook Safety os detalhes do novo serviço.

Tudo depende do envio das imagens íntimas para o Facebook. Isso mesmo, aquelas imagens da transa, ou o nude, as poses eróticas usando apenas algumas, ou nenhuma peça de roupa, precisam ser enviadas para a empresa de Zuckerberg. Primeiro é necessário mandar um e-mail explicando a situação. Na resposta do Facebook virá um link seguro e único, pelo qual o usuário vai subir as imagens que teme serem compartilhadas.

Um grupo de profissionais “especialmente preparados”, da Comunidade de Ações Seguras da empresa, vai analisar as imagens e criar hashes. São algoritmos que identificam aquelas imagens com base nos códigos digitais, sem precisar comparar com o arquivo completo. A função hash torna-se um sinal único de um arquivo qualquer, mais ou menos como a impressão digital ou outro dado biométrico de uma pessoa. O Facebook promete que, em uma semana, as imagens enviadas pelo usuário são apagadas dos servidores da empresa. E as hashes vão impedir qualquer tentativa de compartilhamento daquelas imagens tanto no Facebook, como no Instagram e no Messenger.

Por enquanto a ferramenta está disponível apenas para usuários da Austrália, Reino Unido e Canadá, além dos Estados Unidos. Se pegar, vai ser um forte argumento para o Facebook reafirmar a confiança dos usuários na empresa.


VIAGENS NO TEMPO E NA IMAGINAÇÃO


Essa é uma história carregada de símbolos. Ou signos, como diriam Saussure, Sanders Peirce, Chomsky e outros expoentes da Linguística.

Começa pela aplicação anunciada pelo Facebook para a ferramenta. Muitos outros tipos de arquivos, que não têm nada a ver com revenge porn, podem ser inconvenientes, se publicados. Mas foi citada como exemplo uma situação eloquente da intimidade de uma pessoa. A exposição do corpo é o símbolo mais antigo da intimidade no mundo civilizado. A rede social, acusada de descuido com a privacidade de seus usuários, quer posar de fiel depositária daquilo que cidadãs e cidadãos comuns têm de mais privado na vida.

Hoje, intimidade e privacidade são dois conceitos mais detalhados, justamente por conta do mundo virtual. Depois que ele tomou proporções mais significativas, comparado ao mundo real, nossos avatares cibernéticos passaram a ser a representação mais vulnerável da nossa existência. A qualquer hora, em qualquer lugar do mundo, podemos estar sendo investigados, sabe-se lá por quem. Algoritmos percorrem nossos caminhos, horários, preferências, gastos, prazeres, deveres, companhias. Associam tudo e tiram conclusões em frações de segundos.

Foi o que transformou o signo privacidade tão ou mais importante que o signo intimidade. Talvez seja essa memória de equivalência que o Facebook quer agora acessar no imaginário coletivo, para se mostrar confiável ao mercado.

Até o nome do Chefe Global de Segurança do Facebook é simbólico para o momento. Antigone remete ao personagem da tragédia grega, escrita por Sófocles. Seria uma das filhas de Édipo e Jocasta, marcada principalmente pelo seu senso de justiça, de respeito e bondade. Uma coincidência emblemática para o momento. Uma empresa que resolvesse escolher o Chefe de Segurança pelo nome, possivelmente escolheria alguém chamado Aquiles, talvez Perseu ou Hércules. Personagens associados à coragem e bravura, guerreiros capazes de defender, de dar segurança. Mas Antigone está mais para mártir da justiça, a cara que Zuckerberg está tentando impingir à sua empresa depois dos recentes escândalos.

Por fim, a ideia da ferramenta parece distanciar mais ainda os signos de intimidade e confiança. Por quê a namorada pediria ao namorado as cópias de todas as imagens que ele tiver dos momentos de intimidade do casal? Porque intimidade, hoje em dia, costuma chegar muito antes da confiança. Então é melhor ter a cópia, porque ela deve confiar mais no Facebook do que no namorado. Mais prático ainda seria não permitir que um fizesse fotos íntimas do outro. Cada um faz seus próprios nudes e manda para o outro, guardando o original para enviar ao Facebook, no caso de entreveros. Sinal dos tempos. E dos espaços digitais também.


UM FUTURO INCERTO


As redes sociais surgiram originalmente como meios, não como personagens. Tiveram sucesso estrondoso, a ponto de se tornarem notícias frequentes. O WhatsApp, mobile de nascimento, mais compacto e simplificado, deu mais ênfase às características de um meio para dinamizar contatos, chegando a oferecer até ferramenta de chamada de voz. E, com isso, acabou crescendo muito rápido, conquistando a preferência do público.

É justamente nesse momento que o Facebook, já proprietário do WhatsApp, parece enveredar para o perfil de personagem. Mais do que um meio para que redes se estabeleçam entre pessoas, parece querer ser um personagem de destaque em cada uma dessas redes. Alguém ou algo que se manifesta no dia do seu aniversário, que relembra momentos da sua vida no ano que está terminando. Quer ser um dos seus amigos, surpreender você.

Ao longo dessa curta história da Internet as redes sociais já passaram por vários modelos. O Facebook, por uma conjunção muito especial de interesses e oportunidades, tornou-se um dos mais prósperos negócios das últimas décadas. E agora sente a obrigação de se firmar, de manter a fama de uma fábrica de dinheiro. É o único, entre os grandes players do universo TI, baseado principalmente em frivolidades e tentativas do projeções de egos. É por aí onde manifestações impensadas, preconceitos e sentimentos ruins, muitas vezes ganham espaço e destaque.

Tudo isso, como outras experiências bombásticas da Internet, pode desaparecer do dia para a noite. Principalmente com o crescimento da Inteligência Artificial, que promete trazer para o mundo real, os nativos do mundo virtual.

É neste tabuleiro de xadrez onde uma das maiores empresas do mundo em faturamento tenta prever as próximas jogadas do adversário, no caso, o futuro. Isso faz prever que novos balões de ensaio devem surgir, para testar novas maneiras de manter o personagem Facebook cada vez mais presente na vida dos três bilhões de pessoas que, em algum tempo, já lhes deram as boas vindas.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

O SAMBA SAIU, PROCURANDO VOCÊ




Sabe aquela banda larga cara e “anêmica”, lenta, que carrega pouca coisa por vez? Então, isso pode deixar de ser a rotina dos internautas brasileiros em breve. As previsões de investimentos no Brasil, para provimento de conexões de alto desempenho por banda Ka, estão crescendo. E pelas mãos de empresas que estão chegando agora ao país.

Até o final do ano a Yahsat, estatal dos Emirados Árabes, estará lançando seus serviços no Brasil. O site da empresa para o mercado brasileiro anuncia cobertura para mais de 5 mil cidades, disponível para 97% dos domicílios. O apelo da empresa é a capacidade de levar Internet “para os lugares mais inimagináveis da Terra”. Não deve ter exagero na afirmação. Ela opera no Oriente Médio, África e parte do Sudoeste Asiático, além da Europa.

A Hughes também anuncia aumento da cobertura no Brasil para 5 mil cidades. Lembrando que o Brasil tem, ao todo, 5570 municípios. Por meio da HughesNet, ainda em 2018 promete disponibilizar cobertura para 90% da população. Para tanto vai contar com o sinal de mais um satélite, com lançamento previsto para os próximos meses.

Por fim, em muito pouco tempo deve ser possível contar com a cobertura do SGDC – Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicação. A capacidade civil do satélite, também em banda Ka – que é muito mais barata para a operadora – vai ser comercializada pela Viasat, em parceria com a Telebrás. O contrato entre as duas empresas está suspenso pela Justiça, por conta de ações movidas por concorrentes da Viasat que já estão há tempo no Brasil. Eles questionam o fato de não terem sido chamados pela Telebrás para negociarem, como foi feito com a Viasat, até então sem operações por aqui. Mas a Telebrás, que realizou chamamento público no ano passado, sem receber nenhuma proposta de qualquer empresa, refuta esses argumentos.

Através da parceria com a Telebrás, a Viasat deve prover a infraestrutura em terra para receber o sinal do satélite. Isso implica na instalação de 50 mil estações VSAT, mais os equipamentos de banda-base e gateways. A operação e manutenção de toda essa estrutura estará sob responsabilidade da Viasat.

A chegada inesperada da Viasat ao Brasil, em condições competitivas extremamente favoráveis, é considerada por analistas como o fato propulsor dos investimentos de outras empresas do segmento por aqui.

PODE RIR AGORA?


E se a Justiça determinar o cancelamento do contrato Telebrás/Viasat? A hipótese parece cada vez mais remota. Primeiro porque o principal enigma da transação, que era o contrato de parceria, foi amplamente – embora não totalmente – aberto ao conhecimento público. Nesta semana a Telebrás publicou comunicado ao mercado, na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), onde o contrato com a Viasat é apresentado. Há tarjas cobrindo os detalhes sigilosos da negociação que, segundo a Telebrás, não estão na cópia enviada ao TCU – Tribunal de Contas da União, integramente aberta.

O atual presidente da estatal, Jarbas Valente, afirma que "é um absurdo alguém dizer que só a Viasat foi procurada". Segundo ele, houve conversas com outras empresas, e até propostas foram apresentadas. “Existem relatórios internos de cada uma destas conversas". Oito empresas teriam sido chamadas e três delas – incluindo a Viasat – apresentaram propostas. O que não houve foi aquele regateio, típico de armazém de café, apresentando as condições oferecidas por uma concorrente, para ver se a outra cobriria a proposta.

O site Teletime divulgou um estudo em que as condições do contrato Telebrás/Viasat foram comparadas com o Edital do Chamamento Público, realizado em outubro de 2017. Quatro pontos demonstram claramente que o contrato com a Viasat tem vantagens em relação às exigências do chamamento público. Além da confidencialidade de algumas cláusulas, que não eram aceitas pelo Edital.

No entanto, a Telebrás tem boas explicações, quando a discussão se dá pelo “juridiquez”, a língua dos advogados. Começa pelo fato de que jamais foi feita uma licitação ou um leilão da capacidade do SGDC, e sim um chamamento público. A diferença, de acordo com a Telebrás, é que o Edital fica totalmente desvinculado de algum contrato feito posteriormente.

Jarbas Valente cita um acórdão do TCU segundo o qual a comercialização de serviços de telecomunicações pela Telebrás estaria vinculada à lei das empresas de economia mista, uma vez que se trata da atividade fim da empresa. O Gerente de Serviços de Satélite da empresa, Bruno Henriques, foi além, dizendo que uma licitação para a capacidade do SGDC seria “como exigir do Banco do Brasil que faça uma licitação para conceder empréstimos, ou da Petrobrás que faça uma licitação para vender petróleo.”

Para a cúpula da Telebrás, logo de início, o contrato poderia ter sido feito por negociação individual e direta. Porém, em conversas com o TCU, teria sido considerado melhor começar pelo chamamento público, o que foi feito. Quanto aos termos do Edital do chamamento, Valente afirma que “... a gente colocou parâmetros sem saber quem viria, por isso tinha que ter precauções contra aventureiros. No processo de seleção privado a gente sabia com quem estava negociando, por isso as exigências podem ser diferentes".

Por fim, ainda restou provado que o contrato não coloca em risco o sigilo das operações na banda X do satélite, operada pelas Forças Armadas. Então, tá. Mas não dá para negar que a figura do tal “chamamento público” foi mais uma jabuticaba que brotou no quintal da Telebrás.

AFINAL, DE QUEM É O MUNDO?


Uma palavra permeia cada frase desse confuso episódio. É a esperteza. O que, em certa medida, é admissível quando se trata de negociações. Porém, nesse Brasil, já parcialmente lavado a jato, é difícil acreditar que tudo tenha sido feito exclusivamente em nome do interesse público. O risco é cair no outro extremo, inaceitável, que é a bobeira. 

Ao que parece, as empresas que aportam por aqui aprendem rapidinho as regras do jogo. E teria sido por aí que as potenciais operadoras do satélite optaram, prevendo um segundo capítulo mais dramático. O governo, que todo dia atira de lá de cima R$ 800 mil, por conta da ociosidade do SGDC, entraria no segundo ato em pânico. E as empresas iriam impor suas condições.

Deu mal! A Telebrás conta que, depois do chamamento vazio, procurou as 13 empresas que tinham retirado o edital, para saber onde a coisa pegou. Algumas nem deram respostas e outras, teriam apontado os pontos cruciais. Bruno Henriques afirma que, após estudo das respostas, chegou-se a conclusão de que seria impossível um edital capaz de atender às expectativas de todos, preservando as necessidades da Telebrás.

Em seguida, foi feita uma tomada de preços, que a estatal empilhou sobre os argumentos que colecionava para justificar a contratação direta. Agora o contrato com a Viasat está aí.

Na sequência, concorrentes internacionais tomaram fôlego para correr dentro de nossas fronteiras. Vamos ver o que o governo vai fazer, através dos órgãos competentes, para evitar que também esses novos concorrentes adiram ao “clube” dos fornecedores de serviços públicos. A propósito, em tempos de PLC 079, que pode acabar com as concessões na telefonia e manter apenas o regime de autorizações, caberia testar estratégias de negociação para qualificar a concorrência entre as empresas. Faz tempo que o consumidor desses serviços só sabe o que é apanhar.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

DESAVENÇAS QUE VÊEM PARA O BEM




O que se pode esperar de um desafio entre Elon Musk e Warren Buffett? Doces, uai! Parece piada, talvez seja, mas por enquanto Musk jura que é “super sério”.

O anúncio sobre a nova área de atuação foi feito pela conta do twitter do jovem empresário. E não foi só essa a semelhança com Trump. Todo o episódio esteve cheio de bizarrices típicas do presidente americano.

No começo deste mês de maio o bilionário inovador apresentou os resultados da Tesla no primeiro trimestre. A empresa, que fabrica carros elétricos, tem sido o empreendimento mais falado dentre os vários que Musk comanda. E não é por menos. O empresário ainda não conseguiu cumprir a meta de produção do Model 3, o primeiro lançamento da empresa a um preço competitivo no mercado de massa. Isso tem feito os preços das ações da Tesla oscilarem nas bolsas.

Durante a apresentação, ao ser questionado sobre os fundamentos da empresa, Musk disparou: "Não estou aqui para convencer você a comprar a nossa ação. Não compre se a volatilidade assusta".

Outra questão levantada – também absolutamente pertinente – sobre a previsão de gastos para este ano, sequer mereceu resposta: "Desculpe, o próximo. Perguntas chatas, estúpidas, não são legais. Próximo".

Ele já vinha fazendo o estilo Trump há algumas semanas. Começou atacando a mídia estrangeira, justo uma das mais tradicionais e respeitadas publicações: "-A The Economist costumava ser chata, mas inteligente com uma sagacidade seca perversa. Agora é apenas chata. A Tesla será lucrativa e o fluxo de caixa positivo no terceiro e quarto trimestres, então não há necessidade de levantar dinheiro". Musk retrucava afirmações da revista britânica, que previu a necessidade de a Tesla ter de captar dinheiro de investidores para conseguir cumprir suas metas.

Até aí só se via amargura nas atitudes de Musk. Eis que o experiente investidor Warren Buffett, durante reunião com acionistas da Berkshire Hathaway, uma de suas maiores holdings, resolveu criticar a postura do jovem empresário: “-Musk pode virar as coisas ao contrário em algumas áreas. Mas eu acho que ele nunca iria conseguir competir conosco nos doces”. Ele se referia a uma das áreas de sucesso da Berkshire Hathaway. Foi o suficiente para que o desafio fosse respondido pelo twitter.

DUELO DE TITÃS


Até há pouco, Elon Musk estava sustentando a bravata: "Eu estou começando uma empresa de doces e vai ser incrível.” Mas, por enquanto, incrível é o anúncio. Ele não gosta de negócios convencionais e, uma vez que o paladar humano é um hábito demorado para mudar, tem grandes chances do gênio inovador ficar para traz das doceiras de Minas. Ademais, ele não demonstrava o estilo guerreiro de “dar um boi para não entrar numa briga, e uma boiada para não sair” – só pra insistir na mineiridade.

Porém, o que torna essa típica fofoca de salão de cabeleireira um assunto potencialmente enriquecedor, são os protagonistas do embate. Warren Buffett é o terceiro homem mais rico do mundo e é considerado um ícone do capitalismo, “o mais bem-sucedido investidor do Século XX”. Tem traços fortes do conservadorismo. Aos 87 anos mora na mesma casa que comprou em 1958, em Omaha, sua cidade natal. Não usa telefone celular, não tem um computador na mesa e é o motorista do seu próprio carro.

Elon Musk, americano por adoção, nasceu em Pretória, na África do Sul e vai fazer 47 anos no mês que vem. Além da fábrica de automóveis elétricos – segundo ele, criada para reduzir o aquecimento global – fundou a SpaceX, a primeira empresa de capital totalmente privado a colocar um satélite em órbita.  Criou o conceito do hyperloop, um sistema de transporte ultrassônico de média distância, baseado num extenso tubo de baixa pressão. Planeja ainda viagens espaciais de turismo e uma colônia em Marte, como alternativa a uma catástrofe na Terra. Tem tudo para ser um investidor ícone do Século XXI.

Nada indicava que duas peças tão diferentes se deparassem num mesmo tabuleiro. Muito menos num tabuleiro de doces, como parece se anunciar. Buffett, enquanto criança, se preocupava em fazer pequenos negócios e guardar dinheiro, típica receita da Economia do Século XX, que o fez triunfar como nenhum outro. Musk criança se preocupava em ler, aprendeu a programar computadores sozinho e seu primeiro produto foi um videogame. Buffett começou sua adolescência em Washington, com o pai eleito para o Congresso Americano. E Musk foi um teenager perseguido pelo bulling violento na escola.

Duas histórias de vida tão diferentes, vividas em épocas e situações incomparáveis, prestes a debaterem métodos e valores no cenário econômico dos dias atuais. Como ambos têm forte compromisso social, tendo feito doações astronômicas à benemerência, o embate pode avançar bem além da questão econômica, atingindo uma dimensão humanitária.

Seria um debate muito enriquecedor! Porém, dependeria de duas pré-condições. Primeiro, Musk precisaria abrir mão do estilo Trump, que não costuma ajudar em nada em diálogos. Depois precisaria alguém definir o meio pelo qual o debate vai transcorrer, uma vez que Buffett não tem conta no twitter e em nenhuma outra rede social.

A NOVA ORDEM MUNDIAL


Idiossincrasias à parte, de concreto, por enquanto o episódio serve apenas para vislumbrar o quanto se multiplicaram as abordagens possíveis para a compreensão do nosso mundo.

Embora não possam ser ignoradas na importância histórica, algumas antigas polarizações estão perdendo consistência, se resumindo a meros brasões, utilizados por oportunistas, na tentativa de manterem alguma notoriedade. Pouco acrescentam discussões em torno de capitalismo ou socialismo, direita ou esquerda, jovens ou velhos, muçulmanos ou cristãos, apocalípticos ou integrados. Há poucos dias, assistimos ao alinhamento entre sauditas e israelenses, contra o acordo nuclear com o Irã. E Trump não vai encontrar Kin Jon-un, justamente no dia em que o Brasil estará comemorando o Dia dos Namorados? Os interesses em jogo mostram que as questões religiosas ou ideológicas já ficam num segundo plano.

Nesse nível de debate, uma sequência de lances já pode ser esperada no curto prazo. Porém, logo em seguida, tudo deve mudar. Afinal, no plano mais relevante, as novas diretrizes que conduzem o rumo do planeta são outras. O conhecimento está preponderando.

É onde um diálogo aberto entre Warren Buffett e Elon Musk tende a revelar muito mais sobre fortes tendências para o futuro. Em breve, a Internet das Coisas vai tomar decisões muito mais importantes para o progresso do Brasil, do que a polêmica entre mortadelas e coxinhas.

Em ano de eleição presidencial e Copa do Mundo, a torcida é para que nossos representantes se aproximem mais da realidade desses novos tempos. As faltas fora do lance, não escapam das câmeras, assim como as negociatas não somem por completo dos HDs. É tempo de buscar o conhecimento, de maneira dedicada, para agir com competência no desempenho de cada função. Ou a Internet das coisas e a inteligência artificial vão esvaziar os ambientes que hoje concentram as nossas atenções.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

A INTERNET QUE VOCÊ SEMPRE SONHOU




Como é viver no Brasil? Tem várias respostas prontas por aí. A do revoltado, do carinha descolado, o papo dos engajados, os otimistas, a bronca das feministas,... . Mas a resposta mais objetiva só pode começar com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, a PNAD, agora na versão Contínua (PNAD-C). É definido um padrão para apontar os domicílios que vão fazer parte da amostra. Os pesquisadores vão em cada um deles para perguntar de tudo: quantos moram em cada domicílio-amostra, quem são, como vivem, o que fazem, o que possuem. Vai longe!

Com base nos dados o IBGE – organizador da pesquisa – faz recortes que, vez por outra, costumam surpreender os brasileiros. Um desses recortes chama-se “Características Gerais dos Domicílios e dos Moradores”.

Não é exatamente uma surpresa, mas a pesquisa de 2017, apresentada na semana passada, aponta que, pela primeira vez, os brasileiros acessaram a Internet mais pelo aparelho de TV do que pelo tablet. Uma bola cantada há algum tempo, uma vez que a venda de tablets vem caindo, enquanto a venda de televisores é dominada por aparelhos do tipo Smart TV, que acessam a Internet.

Voltando às respostas prontas, os otimistas possivelmente diriam que os brasileiros estão usando a TV para baixar conteúdos sobre ciências, artes, cultura. Mas, para Maria Lúcia Vieira, Coordenadora do PNAD-C, o mais provável é o uso da Internet para baixar séries e filmes do Netflix e outros aplicativos do tipo. Sim, a grande rede, esperança de mais cidadania para todos, está incluindo nossa população... no faturamento dos serviços de streaming.

Tudo bem, não deve ser muito diferente em outros países. E sempre foi assim. Há décadas, em cada sala de TV tinha também uma estante, onde se via livros, algumas enciclopédias. Era decorativo, até o cheiro fazia parte do ambiente. Mas quase ninguém lia.

Essa constatação é um sinal de que, depois de pouco mais de 20 anos de Internet, estamos apenas aprendendo a utiliza-la. Uma TV mais interessante é só uma das aplicações que demorou muito para descobrirem. Mesmo sendo um tanto óbvia. A Internet está deixando de ser apenas o que os outros achavam que seria bom para você. E começa a se tornar a ferramenta de uso pessoal que você escolhe.

DO TRABALHO PARA CASA


A maioria das pessoas começou a usar Internet no trabalho. A facilidade de comunicação por e-mail foi domesticando a web até que aplicativos do tipo rede social começaram a simplificar essas interações.

Ainda sem entender o que tinham em mãos, mentes criativas – porém, revoltadas – começaram a popularizar aplicativos para piratear conteúdos de interesse das massas. Até que veio o universo OTT e desenvolveu, a partir dessas transgressões, modelos de negócio de sucesso, como o Netflix, Spotify e até o próprio YouTube.

A cara da Internet hoje é um robô virtual com a vocação de fazer suas vontades, descobrir seus desejos e aproximar você da parte do mundo mais do seu jeito. O smartphone contribuiu muito nesse propósito, uma vez que pôs a web a caminhar do seu lado e individualizou de vez suas relações com a rede. A plataforma EiTV CLOUD, a mais completa para gerenciamento de arquivos de vídeo, é praticamente uma fábrica de aplicativos, com inúmeras ferramentas para selecionar e montar qualquer app audiovisual. 

É essa intimidade que está sendo atendida pela infinidade de apps lançados diariamente. Eles podem ajudar no seu treinamento físico, no regime alimentar, controlar suas finanças, seus estudos, acessam o analista, a igreja, o banco, o imposto de renda. Mas, principalmente, os aplicativos vão entreter você.

Estudos recentes dão conta de que a forma de consumir entretenimento esportivo está mudando muito. A quantidade de torcedores brasileiros de times europeus cresce em taxas anuais de dois dígitos. A Fórmula 1 resolveu lançar o próprio canal de TV totalmente virtual, que vai mudar completamente a experiência de assistir a um GP.

O lançamento da versão beta vai ser neste mês, no Grande Prêmio da Espanha, em princípio, apenas para um grupo fechado de fãs. A versão premium da F1 TV vai trazer todas as corridas ao vivo, disponibilizando ao usuário as câmeras individuais dos 20 carros, além de imagens em outros ângulos. Os treinos, livres e classificatórios, entrevistas pré e pós corrida, um pacote amplo de opções que pretende cativar os verdadeiros fãs da modalidade no mundo todo. Cada um vai acompanhar as etapas ao seu jeito. Outras categorias do automobilismo também devem ser agregadas ao serviço.

O jeito comoditizado de apresentar um evento esportivo, para atender multidões, e não individualidades, foi bom para nos fazer descobrir diferentes emoções. Um patrocinador paga tudo aquilo em troca de alguns segundos de atenção para a marca dele e estamos conversados. Mas o ser humano é um eterno insatisfeito. E agora só a Internet tem o poder de atender tantas preferências diferentes.

MAIS DIFÍCIL DO QUE PARECE


É, intimidade é bom, mas pressupõe responsabilidade. Tanta, que precisa até de lei. Os casados que o digam!

Imagine que, no caso da Internet, já tem empresa brasileira pedindo lei de privacidade, para lançar produtos no mercado com maior segurança jurídica. Luiz Carlos Faray, Diretor de Negócios TI e B2B da Oi, em entrevista ao Teletime foi categórico: "-Ficamos engessados, é claro. A gente precisa ter isso bem resolvido e definido, porque o que tem hoje dá margem a milhões de interpretações, não tem uma coisa escrita explicitamente".

As operadoras procuram novos modelos de negócio para aumentar o faturamento, ainda mais depois dos aplicativos OTT, como o Netflix, que comprometeram as receitas. A perspectiva agora está principalmente sobre modelos baseados em dados. A Vivo, por exemplo, criou o Vivo Ads, um serviço para enviar anúncios para os assinantes. Na hora de vender a Vivo disse que o serviço distribui as propagandas de forma segmentada, com base nas informações cadastrais dos clientes. Foi o suficiente para o Ministério Público do Distrito Federal abrir um inquérito, para saber como a Vivo cuida da privacidade de seus 73 milhões de clientes. São situações como essa que a Oi quer evitar.

Há poucos anos a Cambridge Analytica criou um negócio inovador, que teria influído no plebiscito conhecido por Brexit, e na vitória de Donald Trump na eleição presidencial americana. No início desta semana a empresa decidiu fechar as portas, assim como a SCL Elections, da Inglaterra. O motivo foi o escândalo envolvendo o uso de dados do Facebook para análise psicológica, voltada à propaganda.

Todos os escritórios das duas empresas, no mundo todo, vão ser fechados. A Cambridge Analytica pediu falência dos Estados Unidos. E divulgou comunicado culpando o cerco da mídia, que teria afastado clientes e fornecedores. "Como resultado, foi determinado que não é mais viável continuar operando o negócio, o que deixou a CA sem uma alternativa realista", conclui o comunicado.

Lembrando que as empresas fecharam, mas o modelo de negócios tem tudo para prosperar. Desde que esteja sob cuidados de quem sabe lidar com a intimidade.


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