MEDALHA DE OURO PARA A FESTA DE ABERTURA


Olimpíadas, essas esportivas, têm um compromisso sério com a realidade. De alguma forma são um congresso da espécie humana sobre os próprios limites. Vidas dedicadas a treinamentos intensivos, vidas, enfim, selecionadas. Para então, nas frações de segundos, nos milésimos do milímetro, conquistar um sutil avanço na fronteira do possível, daquilo que passa a ser real. Na 31ª Olimpíada da Era Moderna, versão brasileira, a escassez do real - a moeda, no caso - abriu um espaço maior para o virtual, aceito no parque olímpico somente até a festa de abertura. Ora, ora, e não é que os macacos latinos mandaram bem!? Não, mais do que isso, mandamos muito bem mesmo!

Virão os ecos desta que será uma das maiores conquistas brasileiras no território do Olimpo! Durante a festa de abertura sensações inéditas foram relatadas entrando ou saindo pelos poros, no coração, na memória. Manchete geral da mídia terrestre, lisonjeira para o Brasil, como jamais.

Essa reação em cadeia, o efeito nuclear em cada expectador, vão repercutir por muito tempo. Numa visão mais simplista, foi o efeito da fusão entre o real e o virtual, uma confusão fantástica dos sentidos. Por algum tempo, o mundo todo entrou no Maracanã. Por exemplo, durante o sobrevoo de Santos Dumont pela Cidade Maravilhosa, a bordo do 14 Bis, praticamente não havia diferença para quem estava no estádio ou diante de uma TV de alta definição. Tudo era só ilusão, como os edifícios que germinavam do gramado, para personagens humanos saltarem entre as coberturas. Atletas de olimpíadas entendem bem disso. Eles não acreditam só no real, e por isso desafiam o próprio corpo e a mente. Preparam o corpo para a ação e a mente para a superação. Vão buscar na virtualidade dos próprios sonhos a projeção da nova realidade. Uma sensação que a tecnologia digital, de certa forma, está colocando ao alcance de gente comum, como a gente.

ELES ESTÃO POR TODA PARTE


Pra quem ainda não percebeu essa invasão do virtual sobre a realidade, as provas mais cabais vão se oferecendo, preparando armadilhas, talvez. Ah, você nunca comprou nada numa loja virtual? Também não acompanhou nem por um momento a saga do Super Mario Bros? E esse Pokemon que está espreitando você dali de perto da porta? Se duvida, pegue logo os óculos “Go”, baixados no seu celular, e veja com os seus próprios olhos.

Só por acaso o Pokemon Go, o jogo que mistura realidade e ilusão, chegou ao Brasil no dia da abertura das Olimpíadas Rio 2016. Espalhou monstrinhos e panacas – estes últimos, em quantidade bem maior – pelo parque olímpico, pelas ruas das grandes cidades. Está sendo uma febre mundial que hoje provoca delírios. Por enquanto é hora de curtir, viver o momento. São coisas do virtual. Nos sonhos do sono quase tudo é non sense, prazeres infantis são experimentados livremente. No entanto sempre foi o único jeito de descobrir o quanto é excitante voar como o Superman. Por isso, relaxe! Parece que finalmente está chegando o “lado bom”. Sim, porque ao longo do tempo o virtual digital já dobrou sua carga de trabalho, zerou o saldo de inúmeras contas bancárias, limites de crédito em cartões, já sequestrou até dados gravados em HDs. Por que agora não pode nos divertir? Afinal também estamos enfrentando limites, desta vez do ridículo. O melhor é que estamos descobrindo que isso é muito prazeroso.

É COISA DA SUA CABEÇA...


O mundo está ficando pequeno, se vê quase tudo pelos satélites. De vez em quando é bom passar por um lugar diferente, onde ousamos mais, podemos mais, e o fim de uma vida se resolve apertando a tecla start. Um pouco disso sempre existiu, mas era individual, como continua até hoje, nos sonhos que projetamos no pensamento. Mais comedidos, pra não confundir o próprio juízo. Mesmo assim, a humanidade produziu os loucos necessários para nos encantarem com a música, o teatro, as artes plásticas, a literatura e até gols de placa.

Essa extensão virtual do mundo deve interferir cada vez mais na realidade concreta. Já se usa para treinar esportistas de alto rendimento, pilotos de avião, operadores de guindastes, trata até fobias, transtornos psiquiátricos. É um mundo que pode nos exigir mais, com a vantagem de nunca punir. Não é o mundo que escolheríamos, mas com certeza não é algo do qual podemos abrir mão. A cada sopro anímico nos algoritmos, se descobre mais maneiras para tornar este Planeta Terra um pouco melhor.

Falando mais objetivamente, essa fonte de ilusões promete ser uma das principais artérias para circulação de dinheiro no mundo concreto. A chamada realidade virtual encontrou no celular um dos seus principais oceanos. Muitos outros navegantes, de várias dimensões da matemática, vão chegar por outros acessórios exóticos. São feixes laser que se transformam em cordas de instrumentos musicais, máscaras por onde interagimos com pessoas distantes, em lugares inusitados, joysticks que viram raquetes. E para cada um desses novos hardwares, vai surgir uma infinidade de aplicativos, cuja principal matéria prima vai vir de lá, da árvore de todas as ilusões, a mente humana. Num futuro breve, os professores não vão mais repreender nenhum aluno por estar com a cabeça em outro mundo.

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