sexta-feira, 16 de outubro de 2015

ENTRE O ADOLESCENTE E O "ABORRECENTE"


Adolescência é uma idade complicada. A gente espicha, a voz muda, a cara começa a ficar de adulto, mas a criança dentro da cabeça ainda decide muitas coisas. Tem o lado prosaico, tipo ser flagrado pelo Inspetor bem na hora em que pulou o muro da escola. Daí o marmanjão vai pra diretoria e dá aquela desculpa esfarrapada: "-É que eu esqueci o livro de história, eu queria ir busca-lo em casa." O Diretor fica pasmado, pensando o que é que tem a ver uma coisa com outra! Até quando vai precisar fazer de conta que é possível acreditar nesse tipo de explicação?

O outro lado dessa mistura de criança e adulto numa só pessoa é muito mais preocupante. Melhor nem exemplificar, até porque os casos são cada vez mais assustadores, na medida em que este mundo fica mais complexo. A sociedade está cada vez menos flexível, cada um tem de agir dentro de um padrão, o meio termo atrapalha o ritmo das coisas.

É assim que surgem alguns tropeços dessa jovem democracia que adolesce num país já idoso, como o Brasil. Às vezes, falta seriedade. Do lado do cidadão, que precisa trabalhar e pagar impostos como gente grande, fica aquela mesma dúvida do Diretor de outrora: "-o que é que uma coisa tem a ver com a outra!?" O exemplo concreto está na recente tentativa de empurrar com a barriga, mais uma vez, a data em que os brasileiros terão uma televisão no padrão digital.

A LEI? ORA, A LEI.


Já faz tempo que foi definido o atual calendário do "switch off", ou "apagão", ou simplesmente desligamento do sinal analógico de TV no Brasil. Todos puderam questionar, opinar e finalmente as datas ficaram estabelecidas entre 2016 e 2018. Foram assim para o livro da história, tem alguns anos. À época, um "céu de brigadeiro" dava teto para os vôos da Economia, pleno emprego, negócios aquecidos. 

No ano passado um outro fato, completamente a parte, acrescentou um investimento importante para os radiodifusores: foi o leilão da banda de 700MHz para as empresas operadoras de celulares, conhecidas como "teles". Elas precisam dessa banda para baratear a expansão da Internet 4G no Brasil. Como algumas emissoras do país só iriam sair dessa faixa de frequência quando migrassem para o sinal digital, o Governo Federal obrigou as participantes do leilão a formarem um fundo de compensação, que juntou mais de R$ 3,6 bilhões. Esse fundo, além de socorrer essas emissoras na antecipação do desligamento analógico, se encarregaria de bancar os conversores digitais (ou set-top boxes) para 14 milhões de lares atendidos pelo Bolsa Família. Assim o apagão, antecipado ou não - dependendo da região do país - não deixaria ninguém sem TV. O leilão, portanto, só contribuiu, e muito, para a universalização da TV digital.

Então estamos conversados, foram centenas de reuniões, anos de estudos, acordo fechado, fio de bigode na mesa. Até que, na semana passada, um lapso sequencial irrompeu no ar, para mudar tudo que estava no livro da história. E tem que ser pra semana que vem. Isso parece sério?

A EVOLUÇÃO VAI À LEILÃO


A TV digital não é apenas um aprimoramento da TV. É uma plataforma de comunicação que não se compara a nenhuma outra que já existiu na sua casa. Vai viabilizar serviços e soluções com potencial de diminuir até os congestionamentos nas grandes cidades. É exatamente essa evolução que um grupo está querendo tomar da imensa maioria das cidades brasileiras, deixando os brasileiros de lá à margem dessa conquista. Eles se declaram preocupados com a economia popular e com os lucros das teles - Claro, Tim e Vivo. Mas as razões desse pretenso altruísmo parecem muito mais egoístas e imediatistas.

O álibi parte de questões técnicas. Excetuando as grandes cidades brasileiras, com mais de 500 mil habitantes, há espaço sobrando no espectro de frequências. Então, nas pequenas cidades, as emissoras que estiverem na banda de 700MHz podem escolher outras faixas de frequência que hoje estão na sobra, sem precisar entrar na faixa digital.

Tá, e daí?

Daí as teles vão poder usar os 700MHz sem precisar pagar as compensações para as emissoras - que continuariam analógicas - e nem para as famílias carentes, que ficariam sem set-top box em casa, porque a TV vai continuar analógica.

E por que vocês estão preocupados com isso, se não puseram um centavo no fundo formado pelas teles!?

Porque assim o Governo Federal adiaria o apagão analógico e o povo brasileiro não precisaria ter as vantagens da TV digital em suas casas.

Só faltou um detalhe: o maior interesse dos mobilizadores desse "estelionato tecnológico" deve estar no uso do dinheiro das compensações para pagar campanhas publicitárias nas próprias emissoras. Ah, sim, daí tudo soa mais lógico.

Pra ter certeza de que o apagão não tem nada a ver com o leilão é só examinar um pouco mais os interesses do pessoal que está agitando. Dizem que o dólar subiu muito e que a maioria das emissoras está fora dos 700MHz. Por isso, essas emissoras não vão receber os equipamentos de compensações das teles. Vão ter que comprar equipamentos importados com dólar alto, num momento de crise.

Ora, ora, o calendário está fixado há anos, período em que a economia estava aquecida, dólar lá em baixo. Por que não investiram, não planejaram? E mais. Alguém sabe em que data o dólar vai baixar e a economia vai reaquecer? É simples, estão querendo adiar mais um avanço do Brasil, para atender a comodidade de poucos. E, de quebra, vão aproveitar o tempo que querem ganhar para inviabilizar o Ginga C, nivelando por baixo a qualidade da TV brasileira.

Na próxima semana, no dia 22, o livro da História vai abrir de novo, na reunião do grupo denominado Gired. Vamos ver se a resposta do Brasil vai ser algo plausível ou se, mais uma vez, a democracia adolescente vai insistir no lado moleque.

Nenhum comentário:

Postar um comentário