NÃO ADIANTA JURAR QUE NÃO SABIA


Aniversário de um amigo de infância, que reencontrou na faculdade. Muita gente bonita e desconhecida, drinks, diversão e fotos. No outro dia, revendo os flashs ao celular, ficou perfeito aquele selfie ao lado da Mara, a garota mais bonita da festa. Ah, como seria bom se ... E por que não! Abriu o facebook, postou a foto na capa e acrescentou ao perfil: "Num relacionamento sério com Mara". Não demorou nem um dia para que o espertinho da vez fosse informado que a Mara estava sozinha na festa porque o namorado foi competir em outro estado, na categoria peso pesado do MMA.

Essa poderia ser uma das histórias na vida do alemão Kim Dotcom que fundou, há dez anos, o site "Megaupload". Ele vendia assinaturas para qualquer interessado por um valor que dava direitos vitalícios. Daí era só entrar quando quisesse e baixar o conteúdo que quisesse. A questão é que Kim nunca pagou nada pelos conteúdos que ele oferecia aos seus assinantes. Tinha tanta coisa boa disponível que, no auge do "maracutaia-up-load", o site representava 4% de todo o tráfego da Internet e rendia anualmente US$ 175 milhões ao seu proprietário.

Hoje ele é um personagem exemplar do que não se deve fazer na Internet. Aos 41 anos, vivendo na Nova Zelândia, sob uma série de restrições legais, Kim está sendo cobrado pela justiça americana a pagar US$ 500 milhões em direitos para a indústria fonográfica e audiovisual. Sem contar os 55 anos de cadeia que deverá cumprir, se for extraditado. O que está em jogo é o futuro comercial da Internet. O slogan que marcou os conquistadores do "velho oeste" nas fitas de bang bang, agora quer ser um brado na Internet: "o crime não compensa".

NUNCA MAIS NA HISTÓRIA DESSE MUNDO... VIRTUAL


Se Kim Dotcom não tivesse a fixação em parecer mais esperto do que os outros, possivelmente ele seria o fundador do Netflix. Pagaria os direitos autorais. Estaria muito mais rico, de bem com a vida, saindo nas capas das grandes revistas internacionais. Mas, como manda a índole de todo fraudador, ele se confessou injustiçado, perseguido. Você pode não acreditar, mas ele se declara vítima por "defender a privacidade digital"! (quase que exatamente o crime que ele cometeu!). Para Kim, a justiça americana sujou o processo em que ele se defende, jogando com "acusações e mentiras, usando mensagens que foram retiradas totalmente do contexto" (essa está ficando clássica...). 

Se não bastasse, o milionário virtual ainda professa uma estranha filosofia, dizendo que "a raiz do problema é a falta de compreensão, por parte da Justiça, do que é Internet". Como se ele fosse o próprio Tim Berners-Lee, considerado o "inventor da Internet", por ter criado o protocolo "www". Ao que parece, a Justiça americana quer impedir o contrário, que pessoas como Kim Dotcom destruam por completo a Internet como espaço comercial. Por isso quer puni-lo exemplarmente, como forma de desincentivar uma "rede mundial de espertezas".

UM ADMIRÁVEL MUNDO NOVO


No futuro, o surgimento da Internet talvez se confirme como um dos momentos mais marcantes da história da humanidade, como a roda, a divisão do trabalho, ou a máquina a vapor. Por isso, nesses dias, as interpretações a respeito dessa panaceia são infinitas. Para Kim ele estava simplesmente operando um disco rígido virtual. Se defende dizendo que atendeu 100% dos pedidos para retirar conteúdos considerados ilegais. Mas a Justiça é quem mais conhece as artimanhas entranhadas nas interpretações. E está, desde já, deixando claro que algemas e celas reais são usadas inclusive para crimes virtuais.

Os argumentos de Kim parecem não convencer mais ninguém. Foi abandonado pelos advogados - depois de gastar cerca de US$ 10 milhões em causas judiciais - e até pela esposa, a modelo Mona Dotcom, que reivindica US$ 17 milhões na ação de divórcio. A Internet é, sim, o lugar de inventar, de criar e experimentar. Vai gerar ainda muitos empregos, negócios, facilidades e soluções. Um laboratório no centro das atenções do mundo todo, em tempo real. Por isso tudo, é bom ter em mente que não convém manipular fórmulas explosivas diante dessa plateia tão atônita e, ainda, muito desprotegida.

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