sexta-feira, 3 de abril de 2015

COMPRANDO NOZES PRA USAR A CASCA


Imagine que você é o comprador de uma empresa e um departamento envia um pedido assim: "providenciar um microcomputador". Você vai pedir mais detalhes ou vai simplesmente reservar o dinheiro para a compra?

Algumas coisas não exigem tantos detalhes. Mas um microcomputador é algo que precisa ser apropriadamente configurado para cada tipo de uso. Caso contrário pode-se pagar muito por um equipamento que nem terá uso. Até um par de meias, comprado sem mais detalhes, pode ser inútil. É mais ou menos assim que o governo programou a compra de 14 milhões de equipamentos, digamos, tipo microcomputador. Mais exatamente são os set-top boxes, as caixas que sintonizam o sinal digital para televisores analógicos.

No leilão da banda para Internet 4G foram reservados R$ 3,2 bilhões para essas caixas e outros equipamentos. São compensações, exigidas por lei, porque o novo sistema de Internet vai afetar algumas emissoras e muitos telespectadores. O que esqueceram de considerar é que a transmissão digital trouxe para a TV um potencial muito além da exibição da novela. Um potencial que pode trazer mais cidadania e uma economia fabulosa para pessoas, empresas, governos e as mais diversas instituições. Não parece sensato jogar fora todo esse potencial, principalmente em se tratando de um país como o Brasil.

E O ZÉ POVINHO, NÃO FALA!?


Para gastar esse dinheiro foram formados o Gired, um grupo técnico para coordenar essa transição e a EAD, uma empresa que vai administrar as atividades. Lá estão também representantes do governo, para defender o interesse público. Até agora ninguém sabe como será a caixa que vai ser distribuída aos 14 milhões de lares atendidos pelo Bolsa Família. Ela pode ser simplesmente uma sintonizadora da novela, ou pode permitir acesso a Internet, a cursos profissionalizantes via TV, acesso a serviços públicos, consulta de certidões, saldos em bancos e até cadastramento em vagas de emprego - além da novela. Entre esses dois extremos tem alternativas que oferecem menos recursos ou mais. Ao todo, 20 modelos de set-top boxes estão sendo analisados.

Na última reunião a respeito foram manifestadas as preferências das operadoras de celulares e de grandes redes de TV. Nenhuma delas tem interesse no outro lado da TV digital, além da alta definição de som e imagem. Para eles, o menor gasto com os set-top boxes vai economizar dinheiro que poderá ser gasto nas campanhas de orientação sobre as mudanças. E isso pode até representar receita publicitária para as emissoras.

Do outro lado, em defesa de um poderoso instrumento público de comunicação, está apenas um setor da estatal EBC - Empresa Brasileira de Comunicações. Mais especificamente, o setor que está encarregado do projeto chamado Brasil 4D, para interatividade na TV. No futuro, eles vão ser lembrados como a parte do governo que defendeu os interesses "dos que mais precisam". Que terá sido derrotada pelo próprio governo.

MADE IN BRAZIL, SEM VEZ NO BRASIL


A data para definição dessa questão vai ser o dia 29 de abril. Será a próxima reunião do Gired, quando vão definir o padrão de set-top box que vai ser comprado e distribuído aos 14 milhões de lares carentes. Vai ser a última oportunidade de se valorizar a tecnologia 100% nacional do setor - o middleware Ginga - para atenuar tantas dificuldades muito nacionais, como filas de atendimento, obtenção de certidões, saldos trabalhistas e muitas outras. Todas essas possibilidades seriam atendidas através da interatividade que a TV Digital permitiria, nos moldes do Brasil 4D.

Essa integração expressiva de participantes no sistema - 14 milhões de aparelhos - representaria um potencial decisivo para o mercado de aplicativos para Ginga. Quer dizer que mais e mais soluções seriam criadas e disponibilizadas para esses e muitos outros brasileiros, que poderiam passar a se interessar por set-top boxes de alto desempenho para interatividade. Sem contar o interesse que poderia surgir em outros países que já adotaram o Ginga.

Até agora nenhuma instituição representativa de universidades, institutos de pesquisas ou da tecnologia nacional se mobilizou. A boa vontade da equipe que desenvolveu o Brasil 4D vai ser lembrada mais tarde, só pra dizer que alguma coisa foi feita. A questão é que além de alguma coisa, falta ser feita a coisa certa.

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