sexta-feira, 25 de julho de 2014

DO TETRA AO 4K


"-Enfim o HD, a alta definição! Minha TV é quase uma janela aberta para outros mundos, que se alternam na tela, como se fossem parte da realidade, do ambiente onde estou......" Sabe de nada, inocente! Daquele trambolho onde você assistiu à conquista do Tetra até o HD, o aumento da definição de imagem foi de pelo menos 250%, dependendo da referência. Depois, para o full HD, mais 125%. E você achou que tinha chegado ao limite? Agora a 4K chega com mais 300% em cima de todos esses progressos anteriores. E a 8K, que já está na fila, vem com mais 300% de televisão.

Daqui para frente, se você quer ver melhor o que está passando na TV, deve procurar um oftalmologista. Porque a tecnologia de imagem está avançando ao limite da capacidade do olho humano. Possivelmente, com o tempo vai melhorar a razão de contraste, a velocidade de atualização e outros detalhes que vão dar mais conforto visual. Mas a definição de cada ponto de imagem cresceu muito em 20 anos.

O assunto merece uma abordagem quase filosófica. É que a velocidade da obsolescência pode mudar muito o modo de vida da sociedade. Tecnologia em cima de tecnologia, mantendo o seu desejo cada vez maior. E, dependendo da sua conta bancária, o sentimento de frustração pode ser frequente.

O pessoal mais maduro lembra de como foi o dia em que a TV em cores chegou em casa. Família reunida, ninguém piscando e ...... UAU! Não chegou a 50% disso a emoção de assistir à TV de alta definição. Já começou a ficar mais "suave", tipo celular novo. E agora, aquela lousa brilhante que reina na sua sala já precisa ser trocada, quase no ritmo do celular. Emoção 50% menor a cada upgrade.

Se serve de consolo, no caso da TV o custo maior não vai cair no seu bolso. Não mesmo! Os geradores de conteúdo e as emissoras vão ter que gastar muito mais. É fácil entender porque. Numa TV full HD cada imagem pode ser descrita por pouco mais de 2 milhões de pontos coloridos, os pixels. Quanto mais pontos, mais detalhada fica a imagem. A 4K multiplica por 4 a quantidade de pixels por imagem. Portanto, se uma câmera é full HD e gravou 2 milhões de pixels por frame - que é a unidade, o "fotograma" de cada imagem - como vão aparecer 8 milhões de pixels na TV 4K? Não vão aparecer. O que significa que todas as câmeras tem que ser trocadas por câmeras 4K, que gravam 8 milhões de pixels. Ora, para exibir as imagens de um filme feito em 4K vai ser necessário ter também um DVD com a mesma capacidade. Ou seja, o blu-ray já está velho também. E nas emissoras? Precisa de novo encoder, novos softwares, atualização das ilhas de edição, mesas de corte e muito mais. É bom lembrar que o prazo para mudança do sinal analógico para o digital está sendo de 8 anos. Para o 4K, a quantidade de mudanças seria semelhante e os investimentos, maiores ainda.

A TV Globo já fez testes de transmissão 4K. Foram durante 3 jogos da Copa e apenas para uma região da Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. Em agosto, na feira da SET, a emissora vai fazer novas transmissões experimentais. Para captar o sinal, o set-top box atual não serve, tem que ser um conversor 4K. Ah, e se você ainda não tiver uma TV 4K, o set-top box precisa ser ainda outro: o 4K com capacidade para conversão da imagem nos reles full HD da sua TV. Pelo mesmo raciocínio, com a chegada das TVs 8K tudo tem que ser novamente trocado, do seu aparelho à câmera, passando por toda a cadeia de produção e exibição.

E daí, como fica? Ninguém sabe, mas relaxa! Aquele pessoal maduro, que viu a TV em cores chegar, lembra também do quanto se falava do ano 2000: "-os carros serão voadores, todos vão conversar pelo telefone através de uma TV, ...... ." E o ano 2000 chegou fora das previsões. Ultimamente, quase ninguém mais arrisca previsões. Estão todos entretidos, tentando aprender a usar o novo sistema operacional, os novos recursos do celular, do carro, da TV nova, que já está ficando velha.

E já que as coisas estão desse jeito, vamos sair da regra. Afinal, com tão poucas chances de acertar, arriscar um palpite não vai fazer ninguém passar vergonha, mesmo se errar. Pra começar, vamos chamar atenção para um detalhe importante. O Brasil é o maior país do mundo onde televisão é um lazer gratuito. A prática se repete na maioria dos países da América do Sul, cujos PIBs somados não chegam a 1/3 do brasileiro. Na África, muita pobreza, pouca gente para tanto território, a TV também é aberta. Mundo afora, assistir à TV em casa, custa no final do mês. Na Índia, segundo maior país do mundo em população - mas pobre - só existe TV aberta estatal.

Agora, com esse ritmo de mudanças tecnológicas no setor, analistas desconfiam que a TV aberta vai ficar cada vez mais isolada. Quem quiser usar a tecnologia atual vai precisar de TV por assinatura. As TVs pagas - acredita-se - vão ficar cada vez mais cosmopolitas, como os websites. O set-top box, cedido pela distribuidora de sinal, vai estar adaptado para todas as possibilidades. Vai ser possível sintonizar a emissora local, em full HD, ou um canal 4K do Japão ou da Europa. Talvez apareçam planos específicos para quem quer alugar também a TV 4K, 8K, ...... Kkkkk. Parece até brincadeira. Para a TV aberta, suportar esse ritmo de investimento a cada atualização, manter 3 sinais diferentes na banda de radiodifusão, seria praticamente impossível, contando apenas com o faturamento publicitário regional, ou mesmo nacional. A TV aberta tende a caminhar bem mais lentamente.

O que ninguém parece ter dúvida é de que a melhor TV é a que nos traz o melhor conteúdo. E nisso, a TV aberta brasileira promete continuar brilhando, mesmo que seja necessário ligar um set-top box àqueles aparelhos quadradões, dos tempos do Tetra.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

O TEMPO QUE VOLTA DIFERENTE

 

Tem um tipo de gente que desliga o cérebro quando ouve falar em milhões de anos. Realmente, é uma chatice. Milhões fica bem em dólares, em moeda corrente. Se tiver mesmo que falar em milhões de anos, que seja sobre petróleo, para poder medir também em dólares.

Nas aulas de geografia as crianças - que só aceitavam ser chamadas de adolescentes - dormiam quando se falava daqueles longínquos reveillons que chegavam entre lavas ou dinossauros. Só Steven Spielberg conseguiu superar o tédio daquelas aulas, mas isso foi durante os tempos do Jurassic Park. De lá para cá aqueles adolescentes já estão cobrando dos próprios filhos mais atenção nas aulas de geografia, se desesperam com os primeiros fios brancos na cabeça ou com os poucos cabelos que estão sobrando: "-Como era bom ser chamado de criança".

É, evolução de verdade, aquela novidade que nasce na contramão do envelhecimento, demora muito! Na natureza é assim. O homem demorou 70 milhões de anos para deixar de ser macaco. Agora já faz 50 mil anos que somos humanos e só construímos poucas eras na nossa história, da Antiguidade ao Contemporâneo. Os pequenos passos, cada um deles, é mais uma inovação. De inovação em inovação, devagarinho, fomos da roda ao laboratório circular de aceleração de partículas. A inovação é o fato mais comum de ser visto durante a nossa vida, como foi do celular "tijolão" ao smartphone. É o remake, a reinvenção, a reengenharia, a república. República!? Sim, a república. Não a ateniense e nem a do Marechal Deodoro. Mas aquela casa velha, que tem também em muitas ruas Marechal Deodoro, onde os estudantes se cotizam para morar durante o tempo de universidade. É onde surgem pequenas inovações pessoais que vão marcar mais uma etapa da nossa evolução enquanto gente.

República já foi mais comum, mas quase sempre é inesquecível. Havia as femininas, eram poucas. Na grande maioria dos casos era aquele grupo de rapazes, recém saídos da postectomia, querendo provar a si mesmos e a todos que já são homens. Era como se cada um passasse a ter muitos irmãozinhos da mesma faixa etária. Não porque todos se dão tão bem, mas porque irmãos, na mesma faixa etária, dificilmente se dão muito bem. É ali, na república, onde aparecem as diferenças e as mães não podem arbitrar nada. Tem que aprender a se entender. Lá estão o mais folgado, o dorminhoco, o quietinho, ...... mas sempre, um grupo de pessoas em busca de aprender mais e mais, sobre a vida e sobre o mundo. Pode faltar TV, forno de microondas, pode faltar dinheiro pra tomar cerveja ou nem ter para a "espremida" (cachaça com limão, sem açúcar e sem gelo). Mas aprender é preciso, é para isso que eles estão lá. Na simplicidade daquele espaço interagem mentes focadas num objetivo e permanentemente estimuladas por novas informações e conhecimentos.

É mais ou menos esse ambiente que a universidade de Utah, nos Estados Unidos, quer fazer acontecer nesse prédio bonito, que a computação gráfica jogou em cima de uma foto do campus. Trata-se da maquete eletrônica do que pode ser entendido como a inovação da república. O projeto é de Mehrdad Yazdani. Ele chama de "um ambiente modelado para a inovação". Diz assim, com toda pompa, para se render, já no andar de baixo, ao jeito descontraído das repúblicas. O térreo ele chama de "garagem" e tem uma oficina 24 horas, com impressoras 3D e muitas outras ferramentas para construir protótipos, ou até mesmo brinquedos. Se preferir, terá muitos outros por lá: mesas de pebolim, de sinuca, videogames, e também tabuleiros de xadrez, tudo que possa amenizar a ansiedade de mentes em histeria. A ideia é que, se alguém tiver um lampejo criativo durante a noite, não precise pagar as horas de sono que a mamãe cobra. Pode levantar e "criar de pijama", como diz Yazdani.

Antes que alguém se engane com essa aura de pureza que reveste tudo que é novo, diga-se que os US$ 45 milhões que a universidade vai investir nesse projeto não são de inspiração meramente didática e educacional. Eles estão de olho no ambiente de sucesso que Google, Apple e Facebook criaram em suas plantas, para não chamar de "escritório da firma". Profissionais em serviço podem jogar basquete, fazer embaixadas ou se esticar numa rede para uma soneca. Assim eles vão ficar mais criativos, vão inovar mais e melhor. Em outras palavras, é assim que as empresas onde trabalham vão faturar muito mais.

O projeto está associado à Lassonde Studios, uma divisão da Escola de Negócios Eccles e quer levar aos 400 futuros moradores um ritmo de startups. Possivelmente, entre eles estarão estudantes de graduação e de pós-graduação, contando com um certo "contágio" pelo empreendedorismo, a partir dos que tem essa característica mais amadurecida. Até os quartos devem ser compartilhados, terão salas para reuniões rápidas e pouca privacidade. O projeto original era tão comunitário, tão "república", que os estudantes consultados pediram para incluir quartos individuais, menores, para os quietinhos da turma. O ritmo de trabalho disfarçado de folia deve ser tão intenso, que já estão previstos apartamentos especiais para hospedagem de empresários que queiram bisbilhotar aquela vida estudantil tão fértil.

Nas repúblicas tradicionais a regra era separar ao máximo a conversa dos estudos. Mesmo assim, divagar entre os novos conhecimentos não era um acidente tão raro. A criatividade era mais estimulada por traquinagens de todo tipo, como fórmulas para espiar o banho da vizinha. Na república hi-tech americana isso não deve acontecer, até porque as meninas vão estar integradas ao ambiente e participando ativamente da folia empreendedora.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

VALORIZAR O CONTEÚDO, PARA TER O QUE ENTREGAR


Se você tem criatividade, iniciativa, gosta de fazer acontecer, agora tem mais um motivo para comemorar. A Suprema Corte Americana proclamou uma decisão, há poucas semanas, que consagra o direito dos criadores de conteúdo receberem pelo que produzem. Na prática, o que se viu foi a "Bald Eagle" - a águia de cabeça branca, símbolo dos Estados Unidos - cortando as asinhas de uma startup que se proclamava autora de uma nova tecnologia.

Se você mora no Brasil, vai ter alguma dificuldade para entender a história toda. É que o sistema brasileiro de TV é mais avançado e os modelos de negócio no setor também são mais práticos e eficientes. Lá, nos Estados Unidos, a televisão arrasta um passivo tecnológico dos tempos em que o sinal de TV por radiodifusão ainda era sujeito a muitas interferências. Foi por isso que os americanos criaram a TV a cabo. Em princípio, garantiu apenas um sinal de alta qualidade para os assinantes. E, com o tempo, foi agregando melhorias, como a inclusão de vários canais opcionais, contratação de programação especial e outras vantagens. O hábito pegou e hoje oito, a cada dez lares americanos, contratam o sinal de TV por assinatura, via satélite ou cabo. Para eles é o melhor que podem fazer pelas 5 horas do dia em que se entregam a este lazer eletrônico. Uma recente pesquisa apurou que esse é o tempo, em média, que o adulto americano assiste à TV diariamente.

Qualquer pessoa há de convir que, ter o endereço dos olhos e ouvidos do consumidor mais poderoso do mundo, é uma oportunidade e tanto. Mesmo sabendo que só parte do cérebro também estará no mesmo lugar durante esse tempo. Mas, por incrível que pareça, quem não tem a exata consciência de quanto vale a própria audiência é o público americano. Ele paga para receber em casa, inclusive, muitos anúncios de empresas, que também pagam caro aos exibidores por esta presença comercial. É verdade que existe a opção, por vezes exercida, de não receber os comerciais. Mas também é verdade que o intervalo comercial é um detalhe que já faz parte do hábito de assistir à TV. Além de criativo é útil, os anúncios trazem informações, pelo menos nas primeiras exibições. Depois acabam se tornando oportunos pra esticar as pernas e pegar um copo de água na cozinha.

A questão é que essa sede insaciável de cobrar pelo sinal de TV levou a startup Aereo a inventar uma maneira de vender os canais de TV aberta, sim, os gratuitos. Ela gravava a programação das TVs abertas e deixava numa nuvem digital, assim, como quem não quer nada. Depois oferecia, por reles US$ 8,00/mês, a programação para assinantes, que poderiam conectar a nuvem de qualquer lugar. Para isso a empresa mantinha, em cada cidade que operava, um espaço onde ficavam as antenas dos assinantes, que captavam o sinal da nuvem e recebiam pela Internet. Ora, e o pagamento pela exibição pública dos conteúdos? "-Conteúdo!? Que conteúdo? Nós só alugamos antenas", disseram os donos da Aereo na Suprema Corte Americana. "-E para que servem as antenas afinal?", retrucaram os magistrados. "-Sei lá, o locatário é quem sabe, é ele quem escolhe se quer ver o que gravamos na nuvem ou não." O preocupante nessa história é que apenas 6, dos 9 juízes, condenaram a Aereo. Foi o suficiente para a empresa fechar as portas e devolver o dinheiro dos assinantes. Mas a gente fica pensando o que fez 3 juízes não gargalharem dos argumentos da startup.

Eis o grande contrassenso da humanidade! Nos últimos anos, desenvolver tecnologias de cópia é um negócio muito mais rentável do que desenvolver conteúdos. Só que é o bom conteúdo que convence, na forma em que for apresentado. É ele que atinge a essência da inteligência humana para gerar reações que constróem culturas, ciência, vidas. Já a cópia é simplesmente um eco. Importantíssimo, claro, mas irremediavelmente dependente do conteúdo, da criação.

O Brasil agora se prepara para um passo histórico na tecnologia de TV no mundo: são os "conteúdos cidadãos". O governo acaba de determinar que os set-top box, que vão ser distribuídos pelas operadoras de celulares aos 14 milhões de lares do bolsa família, tenham o software Ginga com plena capacidade de interatividade. É um passo fundamental! Os aparelhos vão ser entregues como compensação das operadoras aos brasileiros que vão perder o sinal analógico por antecipação. Por isso não haverá custos para os cofres públicos. Com essa imensa plataforma de comunicação que o governo vai criar com a TV digital, ficará disponível o potencial para prestação de serviços via TV, como consulta de saldo do FGTS, contagem de aposentadoria, informações do ProUni, agendamentos para o SUS e muitos outros serviços públicos. Falta apenas colocar os ministérios para programar, o que representa um custo insignificante. A burocracia federal, falando em Ginga, pode aumentar muito a eficiência dos serviços públicos e o atendimento à população. Tudo de graça!

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O CUSTO DE UMA OBRA PARADA


Ginga, no Brasil, há muito tempo é um patrimônio imaterial. Esse espasmo de alegria, quase instintivo para um brasileiro sob o batuque, tem o poder de projetar mundo afora a balconista da loja, o gari, em coreografias contagiantes. Um jeitinho brasileiro de glamourizar a pobreza, mas também de revelar o valor de se fazer muito, com pouco.

Foi assim que o Brasil entrou no cenário da TV digital, fazendo muito com pouco. Instituições nacionais de pesquisas, muito sérias e competentes, desenvolveram o software Ginga, um jeito brasileiro de entrar no meio da tecnologia japonesa. Bem no meio, um middleware, capaz de dar outra graça no hábito de assistir TV. Mas isso foi há muito, muito tempo atrás. Sim, porque quando se fala em "tempo digital" a referência é outra. O inverso de quando se fala em tempo geológico, onde o surgimento da espécie humana é um fato que "acabou de acontecer". Essa referência de tempo aqui é fundamental para compreender a situação que se aproxima.

O Ginga chegou ao público brasileiro junto com a TV digital, em 2007. Ele trazia para a telinha o potencial de interatividade em 3 diferentes níveis. No nível mais elevado ele precisa da conexão de retorno, pela Internet. As possibilidades comerciais e institucionais do software eram imensas naquele tempo distante. Mas as eras digitais foram avançando, os smartphones foram se popularizando, assim como os tablets. A TV também ficou smart, muito mais com a cara do outro mundo, aquele onde a Internet trafega muito mais rápida e universalmente. E assim, para o cidadão comum o Ginga passou sem nunca ter chegado. Para o governo ele até atendeu necessidades importantes. Foi a solução política para o momento polêmico da escolha do padrão de TV digital, e deu consistência a um discurso nacionalista de apoio à tecnologia brasileira.

Se essa história acabar assim, o Brasil poderá jogar fora uma oportunidade de ouro para vários setores. Seria exatamente mais uma obra pública inacabada, que teve um custo, fincou alicerces mas acabou não servindo em nada ao grande público.

Esse tema está sendo tratado aqui simplesmente porque existe ainda uma chance de dar o acabamento que essa obra exige. E evitar um custo pesado também para o ânimo inovador da tecnologia brasileira. A limpeza da banda de 700MHz para a Internet 4G, objeto do artigo anterior deste blog, vai remanejar canais de TV e a totalidade da tecnologia de transmissão, a pedido das operadoras de celular. Isso deve trazer muito dinheiro para o caixa do governo e importantes compensações para os atendidos por este serviço público, no caso, a população brasileira. Como boa parte dos lares já migrou para a nova tecnologia de TV, as compensações vão beneficiar as faixas sociais de baixa renda. São os catorze milhões de famílias atendidas pelo programa bolsa família. Diga-se, uma audiência admirável! E que ainda não avançou tanto na escala digital do tempo, não chegou em peso à última geração de smartphones/TVs, tablets. É exatamente essa audiência que também demanda intensivamente a maioria dos serviços públicos.

Nessa hora, um "olhar para os que mais precisam" começa por uma ação mais sincera e eficiente da parte do governo. Ao invés de decretar mais obrigatoriedades do Ginga, para algumas empresas venderem mais licenças de implementações, podem ser implantados programas oficiais de atendimento público via TV. Isso tornaria o Ginga necessário, além de meramente obrigatório. Por outro lado, geraria soluções eficientes, baratas e racionalizadoras de recursos. Imagine se, para agendar uma consulta, um cidadão não precisasse sair de casa, tomar ônibus e pegar uma fila no posto de saúde. Quantos custos não seriam poupados desde tempo, transporte, funcionários para atendimento. Se o Governo Federal implantasse esse hábito via TV, com o Ginga, também as prefeituras poderiam otimizar cobranças de IPTU, taxas, melhorar a comunicação sobre serviços de água, abertura de matrículas na rede de ensino, notificações das famílias sobre desempenho escolar dos filhos. Os órgãos de segurança pública poderiam distribuir alertas, orientações. Essa plataforma toda conversando em Ginga traria à tona todo o potencial do software brasileiro, gerando investimentos que poderiam até concorrer com as alternativas empresariais criadas fora do ambiente da TV. Seria o tempo limite para o governo dar um aproveitamento a essa brilhante solução de comunicação que pode simplesmente passar calada.

Por enquanto, a Anatel está reticente. Fala-se em distribuição de set-top boxes capazes de interatividade, mas não se fala no Ginga - nesse início ele precisa ser obrigatório, para criar o "território brasileiro" no mundo da tecnologia de TV. Em seguida, a Casa Civil ou outro núcleo interministerial de governo deve ser acionado para traduzir em Ginga os serviços públicos possíveis nas áreas de saúde, educação, cultura, dentre outras. Do outro lado, empresas inovadoras nacionais e institutos de pesquisas já estariam prospectando mais soluções e novos espaços para a tecnologia brasileira de informática para TV.

Se esse roteiro não for cumprido até o fim o Ginga pode passar a ser simplesmente mais uma causa nacional. Ou seja, um lamento ilustre e chauvinista. Daqueles assuntos que aparecem numa mesa de bar depois que já passaram todos os assados da casa, os pratos fritos e só sobrou um grupo "cozido" esperando a saideira.