sexta-feira, 13 de junho de 2014

A CONVERSA DOS NÚMEROS


Para boa parte das pessoas, a primeira vez em que ouviram falar do infinito foi na infância, quando se interessaram pelos números: "-Quantos são os números?" Pela faixa de idade mais provável, são as mães que costumam responder: "-são infinitos, não dá pra contar, nunca acabam". Seguem-se um monte de conjeturas tão idiotas quanto geniais, uma vez que tratam de algo intangível, uma abstração. A criança fica confusa com aquela ideia estranha do sem-fim. Depois o infinito aparece de novo, no céu, no relógio, é o tempo e o espaço; no nome imponente da dízima periódica, na solução de equações, até chegar no amor infinito. Ah, daí a gente começa a entender que esse infinito não vai tão longe assim. Deve ter gente até que já viu onde ele fica. Afinal garantem que é lá, no infinito, onde as retas paralelas se encontram.

Na prática, o infinito tem um tamanho a cada tempo. Hoje, com a maioria dos PCs na largura de 64 bits, o "infinito" vai até 18.446.744.073.709.551.615. Sim, um número de 20 algarismos, cujo nome ninguém sabe e quem arrisca dizer volta naquele hábito de criança de falar bobagens quando não entende alguma coisa.

A conversa é sobre esse "infinito" que existe e já serve para revelar coisas surpreendentes, quase inacreditáveis. Esse número permite juntar tanta coisa e comparar tantas coisas diferentes ao mesmo tempo, que até está fazendo surgir um novo teorema: é lá, no infinito, onde os números falam. Sim, e podem até prever o futuro! O idioma são as estatísticas, aquelas que são mais precisas na medida em que aumenta a amostra. Com espaço pra tanto número dentro de um computador, as estatísticas estão atingindo precisão surpreendente em muitos casos. São os números fofocando pra lá e pra cá sobre o que se passa na cabeça de eleitores, de consumidores, do cidadão comum.

Imagine você que o seu insuspeito celular fala esses dois idiomas, o seu e o dos números. Fica tagarelando o tempo todo sobre a sua vida, e você na maior preocupação com a língua daquela senhora que não sai da janela da casa ao lado da sua. É, vizinhos fofoqueiros perdem de goleada para o seu aparelho mais íntimo, onde você descarrega todas as suas confidências, em tempo real.

Justiça seja feita, essas suas confidências o celular tenta resguardar ao máximo. Mas o seu rastro, ele exibe como fogos de artifício. São informações pelas quais muita gente paga bem. Gente que reconhece o seu celular pelo nome, o que possivelmente nem você sabe. Como isso acontece? Cada aparelho tem um número de identificação único, de fábrica, tecnicamente conhecido como "endereço MAC". Quando o Wi-Fi está acionado, esse número fica pelo ar, caçando qualquer tentativa de contato. Daí você entra numa loja, onde também estão muitas outras pessoas conectadas, ou quase. Programas específicos registram a sua presença e de todas essas outras pessoas lá. E comparam com as compras que passaram pelo caixa durante o período em que esse grupo esteve por lá. Um sistema reconhece o seu endereço MAC. Soma aqui, divide ali e a conta, combinada com outras contas, feitas em outros estabelecimentos por onde você passar, vão se aproximar do seu perfil de consumo.

Há quem questione modelos como esse, conhecido como "wi-fi passivo". Rudd Davis, por exemplo, diretor executivo da Swarm Mobile, uma empresa americana do setor, acha que essas informações ajudam pouco. Ao lado dessa crítica, outros questionam o avanço sobre a privacidade dos incautos consumidores.

Porém, vindas de onde vem, as críticas podem ser mais pragmáticas do que parecem. É como se um laboratório soltasse na praça um boato contra o próprio remédio que fabrica, para abrir espaço para um remédio mais caro, que ele mesmo está lançando. Afinal, entre os que clamam pelo respeito à privacidade está a Apple, criadora do iBeacons, um software que usa o bluethooth para agregar esses tipos de dados, desde que o consumidor aceite. E a Swarm Mobile, aquela que duvida do “wi-fi passive”, é uma das empresas que está utilizando agora o lançamento da Apple.

Por essas e outras, especialistas sugerem que antes de baixar o aplicativo iBeacons o consumidor esteja bem atento aos termos de uso. E que considere especificamente a própria realidade antes de decidir. O sistema está despertando bastante interesse entre os clientes do marketing de localização. O consumidor pode interagir com o sistema, que pode se tornar uma poderosa ferramenta de vendas. Nesse mundo cheio de pessoas tão bem intencionadas, aparecem também armadilhas inovadoras. Tão novas que as reais vantagens ou desvantagens só vão ser percebidas depois de um tempo. Não é o caso de se apavorar. A regra segura é apenas pensar um pouco antes de baixar as novidades que aparecem por aí. Porque elas não são abstratas, mas são infinitas.

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