sexta-feira, 11 de abril de 2014

SUA SALA, SEU MUNDO


Você aceitaria trocar a sua TV por um outro aparelho, aparentemente idêntico, mas incapaz de sintonizar uma emissora de TV aberta ou por assinatura? E se esse novo aparelho pudesse baixar os filmes mais variados, com som e imagem de altíssima definição, 3D quando você quisesse e a um preço comparável com a TV por assinatura? Ao que tudo indica a sua resposta ainda seria não. Porque se houvesse uma pequena chance de muitas pessoas dizerem sim, certamente esse aparelho já existiria. Por enquanto, pequenas caixas, com parte desses recursos, tentam adestrar os aparelhos de TV americanos para que eles recusem definitivamente o sinal aberto de radiodifusão.

Em edições anteriores desse blog o tema foi a disputa entre os "broadcasters", que detém canais de radiodifusão e os "interneters", os distribuidores de conteúdo via internet, os provedores ISPs. Não era pra ser uma série de artigos. O blog apenas mencionou, há três semanas, o nível de beligerância e o fato de um longo período de enfrentamento estar se prenunciando. Mas as investidas tem sido tão ousadas a cada semana, que foi quase impossível falar de outra coisa até agora. São ataques surpreendentes, com artefatos mais sofisticados, todos apontados exatamente para a sala da casa de cidadãos como você. É ali onde essa batalha digital, silenciosa, pode ganhar as proporções que se viu em Matrix. Na semana passada, quem desembarcou a tropa foi a Amazon, exibindo sua caixa que tem o sugestivo nome "Fire TV", para quem ainda tem dúvida de que há uma guerra em curso.

No mesmo formato da Apple TV, da Roku e do Google Chromecast, a caixa da Amazon é um set-top box com maior capacidade para streamings de vídeo, que deve ser conectado a um provedor ISP. Mas é claro que a gigante de varejo não entraria nesse front para ser apenas mais uma. Além do projeto original, em desenvolvimento há dois anos, a Amazon surpreendeu ao anunciar que o Fire TV disponibiliza aos clientes acesso à Netflix, Hulu e a programas da Liga de Baseball Americana, conecta serviços como a própria loja virtual Instant Video e um catálogo com alguns programas de TV. Tem ainda um dispositivo que avalia preferências a partir dos hábitos de cada usuário, e baixa automaticamente conteúdos que podem ser assistidos instantaneamente. O preço do Fire TV é de US$ 99 e a Amazon promete oferecer os filmes ao menor preço do mercado americano. Outro grande investimento no Fire TV submergiu do ambiente de jogos. A modalidade há tempo fincou tentáculos nos aparelhos de TV e já deu acesso às investidas da Microsoft (Xbox One) e Sony (PlayStation 4), pois suportam mais serviços de streaming de vídeo. O Fire TV pode baixar vários games, para serem jogados com o controle remoto, com o Kindle Fire ou com um joystick especialmente projetado, que deve custar mais US$ 40. A incursão da Amazon nos games inclui uma equipe própria especializada e parcerias com outras empresas de sucesso no setor.

Do outro lado, o grande trunfo dos broadcasters é a capacidade que a radiodifusão tem de exibir ao vivo, em tempo real, um mesmo evento para milhões de telespectadores. Como afirma Gordon Smith, Presidente da Associação Americana de radiodifusores, "a banda larga nunca terá a arquitetura para trazer conteúdo em vídeo para as massas". Num modelo de negócios como o brasileiro, onde o anunciante paga a conta e o telespectador assiste de graça, o esforço dos provedores ISPs fica ainda mais inviável. É muito difícil acreditar que jogos, filmes e lojas virtuais possam afastar o ócio televisivo de quem senta na sala para ser hipnotizado por uma programação que, a qualquer momento, pode levá-lo de imediato para uma parte qualquer do mundo, onde está acontecendo algo inusitado. Tanto que, mesmo nos Estados Unidos, onde 85% dos lares tem uma assinatura de TV paga, as grandes distribuidoras de sinal, como Comcast e DirecTV, não abrem mão do conteúdo dos radiodifusores. A propósito, se eles não fossem tão indispensáveis, não custariam os US$ 60 bilhões anuais que o mercado publicitário americano paga.

Por isso tudo, as chances dessa guerra digital ganhar vulto no Brasil são remotas. Afinal a disputa é pelo domínio sobre o telespectador a ponto de faze-lo pagar ingresso pra sentar no sofá da sua própria casa em frente à TV. Na ficção de Matrix também se vê a projeção desse ideal, onde cada pessoa teria um plug instalado na nuca para se conectar ao mundo exterior. Pagando bem, é claro.

As empresas brasileiras de ponta em engenharia de TV parecem já ter percebido isso muito claramente, e estão remando em outra direção. Tanto que a smartBox, a única caixa de TV similar lançada no Brasil, garante o acesso de melhor qualidade às redes abertas. Os Apps on- line, o streaming de vídeo e os outros recursos que agrega, são apenas acessórios práticos à experiência de estar na sala de TV. "Liberdade, liberdade, abra as telas sobre nós!"

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