sexta-feira, 21 de março de 2014

ATÉ ONDE IR COM O SEU PASSAPORTE


Brasileiro ou americano? Dependendo do mundo em questão essa classificação não faz o mínimo sentido. Gordon Smith, por exemplo, nascido americano, CEO da NAB - Associação Americana de Radiodifusores, atualmente é "irmão de sangue" da família Marinho, dos Saad e de outros comandantes da mídia televisiva brasileira. Foi mais ou menos isso que ele veio dizer no último Congresso da SET - Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão. Mais objetivamente, a nacionalidade desses senhores é "broadcaster".

O planeta dessa odisséia não é a Internet não. Os territórios em disputa estão inscritos no mundo da inovação onde, em tese, tudo é possível. Lá, a Internet é apenas um imenso continente, descoberto nas últimas décadas, por navegadores vindos do velho mundo. Um continente ainda pouco explorado, onde as possibilidades de enriquecimento são descobertas a cada instante, atraindo desde aventureiros até expedicionários muito bem preparados. Mas o mundo da inovação é muito maior. A diferença fundamental é que lá o ar não é de graça, contrariando o hábito de quem dorme e acorda todo dia achando que já tem tudo que precisa e pode esperar para mudar. Quem chega, é porque trouxe novos ares. E para continuar alí vai ter que mover de forma cíclica o sopro anímico que dá nova vida às coisas e às ideias.

É isso que está afligindo atualmente a tecnologia de televisão, a popular TV. Chegou em meados do século passado encantando multidões, quase escravizando legiões mundo afora. Mudou até a ficção científica. Mas andou perdendo ar, justamente pelo fôlego ofegante dos expedicionários lá dos lados da Internet, que insistem em inovar mais e mais. De fato, depois da TV em cores o setor parou e só trouxe como inovação uma perfumaria simples, para encarecer os preços muito além do que oferecia a mais. Ficou um bom tempo assim. Enquanto isso, a Internet continuou trazendo novidades concretas, ferramentas transformadoras, novos hábitos, sempre além das previsões.

No mundo da inovação ninguém subsidia, não tem quebra galho e nem aviso. Sem criatividade é impossível respirar. Tanto que, em uma década, a falta de ar levou a TV a superar o fim de ruídos de transmissão, multiplicou a qualidade da imagem com a alta definição, trouxe o som das salas de cinema para dentro das casas, reduziu o consumo de energia a uma fração do que gastava, dobrou o tamanho das telas, dividiu por 20 o volume dos aparelhos, entrou nas telas de celulares e colocou a imagem 3D no quarto das crianças. Mesmo assim, está cuidando de não deixar ninguém up to date: lançou o 4K correndo, porque o 8K já está na fila. Aqui neste mundo comum, onde o ar é de graça e qualquer um pode bufar dentro dos tribunais, vira e mexe aparece um caso ou outro tentando exportar regras para o planeta da inovação. Parece que não está funcionando. Na semana passada foi encerrado o caso em que a Viacom, distribuidora de sinal de TV nos Estados Unidos, reivindicava US$ 1 bilhão do Google, por conta de conteúdos dela postados indevidamente no YouTube. A demanda, que durava sete anos, foi encerrada com um acordo que não envolveu pagamentos de parte a parte. Ao contrário, empresas representantes dos dois setores começaram a falar em parcerias, acenando com uma trégua que tem tudo pra durar pouco. É o que vamos ver a partir de agora, sem data para terminar. Nesses dias estão começando as discussões entre os setores televisivo e de mídias da Internet no Departamento de Comércio dos Estados Unidos. O Congresso Americano espera que os dois setores cheguem a um acordo para que sejam respeitados os direitos autorais dos criadores de conteúdos. E só! A proteção é para quem cria. Pagando os criadores de conteúdos, os exibidores que façam alguma diferença, que inovem para merecer a preferência do público.

O pano de fundo de toda essa disputa é o mercado publicitário televisivo, que só nos Estados Unidos fatura US$ 60 bilhões por ano. A propaganda através de vídeos está crescendo na Internet o que preocupa seriamente os detentores das transmissões broadcast. A “irmandade dos broadcasters” tem fôlego para manter seu território. Ela detém a única tecnologia de transmissão que permite levar conteúdos de alta definição, ao vivo, para o mundo inteiro. Um poder de fogo impensável dentro do território da Internet. Os broadcasters têm inovado bastante, estão totalmente integrados à tecnologia digital, o que dá outro ritmo às investidas. Mesmo assim, estão tratando de inovar mais e manter a união nas tribos porque afinal, no mundo da inovação, tudo é possível.

As brigas nos tribunais, nas casas de leis, preocupam apenas relativamente. A única defesa confiável é o ritmo de inovação. É ele que garante a sobrevivência, principalmente num setor que passa entre as nuvens, que só funciona quando está no ar. Diga-se, o “ar” mais disputado do que nunca, para inspirar e para ser visto. O jeito é inovar sempre. Porque num mundo onde o ar não é de graça, nunca sobra o suficiente para fazer furacão, para assustar. Nem mesmo com os grandes estrondos dos tribunais.

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